Bissau,
03 Ago 26(ANG) - Grupos, políticos e 'influencers' de extrema-direita
sucedem-se nos últimos dias em visitas a Ceuta, onde grupos de habitantes têm
saído à rua para lhes boicotar as iniciativas e gritar-lhes que não se vão
deixar dividir.
O
eurodeputado e líder do partido espanhol Acabou-se a Festa, Alvise Pérez, o
grupo neonazi Núcleo Nacional ou o 'influencer' e "agitador político"
Vito Quiles foram alguns dos nomes que passaram pelo enclave espanhol no norte
de África desde sábado, para usar a entrada ilegal e em massa de dezenas de
milhar de pessoas em Ceuta na semana passada nos discursos anti-imigração e
islamófobos que defendem.
Os três
foram recebidos com alguns aplausos, mas sobretudo com gritos de
"fachas", "fora", "islamófobos",
"perseguidores dos fracos", "Ceuta unida jamais será
vencida" ou "Ceuta unida, não dividida".
Alvise
Pérez e um grupo de cerca de 20 pessoas do Núcleo Nacional acabaram mesmo
retirados no sábado dos locais das concentrações que queriam promover e foram
escoltados pela polícia espanhola até ao porto de Ceuta, de onde saem os barcos
com ligações para fora da cidade, para Algeciras, na Espanha continental.
Também
Vito Quiles tentou participar numa concentração que decorreu no domingo à noite
no centro da cidade, em frente da Delegação do Governo de Espanha em Ceuta, mas
foi levado do local poucos minutos depois de ter tentado somar-se às cerca de
400 pessoas que ali estavam.
"O
que estão a tentar fazer é dividir-nos", disse à Lusa no domingo à noite
Nuhayla, 30 anos, muçulmana nascida em Ceuta, com avós originários de Marrocos.
Funcionária
no porto da cidade, foi uma das promotoras da concentração em frente da
delegação do Governo em Ceuta, que publicações na Internet ligadas à
extrema-direita divulgaram com a frase “Espanha levanta-se contra a invasão”.
Na
concentração, os gritos dividiram-se entre dois grupos claramente diferentes –
o que pedia a demissão do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, e os que preferiam
insistir em que "Ceuta unida jamais será vencida".
Nuhayla
sublinhou à Lusa que em Ceuta convivem há séculos várias culturas e que há
muitas opiniões políticas, de esquerda à direita, sobre a imigração e as
fronteiras, como em todo o lado.
“Do que
não precisamos é que venham de fora representar-nos", acrescentou,
lamentado que Vito Quiles, por exemplo, tenha ido perturbar a concentração,
"só para provocar e se exibir".
Ao
fundo da praça, depois da saída de Vito Quiles, dois rapazes abriram uma faixa
em que defendiam a "remigração" e, em pleno centro de uma cidade
africana, diziam que "a Europa não é África" e alertavam para "a
substituição étnica".
Uma das
raparigas que os acompanhava disse à Lusa que pertencem uma plataforma
transeuropeia que quer levar o tema da "remigração" às instituições
comunitárias e que nunca nenhum deles tinha estado em Ceuta. Viajarem de outras
cidades espanholas e europeias e os rapazes que seguram a faixa só falaram em
inglês com os jornalistas.
A
"remigração" é um termo usado atualmente pela extrema-direita
europeia com o qual defende deportações forçadas e em massa de imigrantes,
incluindo, em alguns casos, um alegado repatriamento de nacionais descendentes
de estrangeiros, ou seja, cidadãos dos próprios países.
Nuhayla,
com origens em Marrocos e vestida com uma 't-shirt' da seleção espanhola do
jogador Lamine Yamal, filho de imigrantes de Marrocos e da Guiné Equatorial,
diz que ela própria não rejeita a ideia da "remigração", convencida
de que é um princípio a aplicar "só a delinquentes ou a quem não quer
trabalhar" e que não há qualquer contradição entre o que diz à Lusa e a
camisola que escolheu para levar à manifestação.
"Lamine
tem os documentos todos em dia e os pais dele vieram para trabalhar",
justificou.
Mais
contundente é Bayan, 29 anos, que trabalha em limpeza e se diz "filha,
neta e bisneta" de muçulmanos nascidos em Ceuta, com origens em Marrocos.
"Esta
gente está a aproveitar-se da situação e querem pôr-nos uns contra os outros.
Não queremos e não vamos deixar", disse à Lusa.
"Chamam-nos,
aos muçulmanos de Ceuta, ‘quinta-colunistas’, como se não fôssemos
espanhóis", revolta-se Bayan, numa referência ao grupo de Vito Quiles que
acabava de ser expulso da praça da concentração.
Em
Ceuta, quase metade da população é católica e a outra metade é quase toda
muçulmana. Há também uma comunidade hindu e judia. E é assim há gerações, com
os moradores a repetirem insistentemente aos jornalistas que é uma cidade onde
"convivem em harmonia quatro culturas" e assim quer continuar a ser.
Com a
imigração no centro do debate da política europeia, os acontecimentos da semana
passada em Ceuta levaram também à cidade nos últimos dias dirigentes de
partidos da direita radical como o britânico UK Reform ou o espanhol Vox, que é
neste momento o terceiro maior partido no parlamento de Espanha e integra
vários governos regionais no país, em coligação com o Partido Popular (PP,
direita).
Nos
dois casos, foram visitas mais discretas e menos polémicas, sem confrontos
verbais com a população local. O alvo das críticas destes discursos têm sido as
políticas de imigração do governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro
Sánchez, em contracorrente com a da maioria dos parceiros europeus.
O
delegado do Governo de Espanha em Ceuta, Miguel Ángel Pérez, lamentou no
domingo, numa conferência de imprensa, a presença em Ceuta de "grupos de
extrema-direita que só pretendem semear ódio, divisão e medo numa cidade que
não precisa de lições de quem só quer aproveitar-se politicamente desta
situação". ANG/Inforpress/Lusa