Brasil/Inteligência artificial já reduz emprego de jovens e ameaça a formação dos profissionais do futuro
Bissau, 23 Abr 26 (ANG) - Um estudo realizado no Brasil confirma que a inteligência artificial já afeta o emprego e a renda dos jovens.
Universidades como a prestigiosa Stanford previam que os recém-ingressos no mercado de trabalho estariam entre os mais atingidos pelo desenvolvimento da IA generativa.
A
pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio
Vargas, verificou que os jovens de 18 a 29 anos que atuam nos setores mais
vulneráveis aos impactos da chegada da tecnologia têm quase 5% menos
chances de conseguir um emprego do que antes da IA.
As áreas consideradas mais expostas são serviços de informação, comunicação e financeiros.
“Eles estão, justamente, em trabalhos
que trabalhadores mais seniores usam para tomar as suas decisões. Você precisa
de um jovem para montar uma tabela, um gráfico, escrever um resumo”, aponta
Daniel Duque, pesquisador-associado do Ibre.
“São trabalhos que podem até ser
qualificados e exigir algum tipo de qualificação, mas são um tanto mais
burocráticos e são os mais facilmente substituídos pela IA, que pode fazer as
coisas mais rápido, mais barato e, muitas vezes, melhor.”
Os profissionais com mais experiência e
na etapa final da carreira parecem poupados – pelo menos por enquanto. A análise
dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad), do
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou que as faixas
de 30 a 44 anos e de 45 a 59 anos foram pouco ou nada afetadas.
Os
cargos “seniores” envolvem mais responsabilidade, capacidade de análise e
tomada de decisão que, mesmo nas áreas mais vulneráveis, estão menos
suscetíveis à substituição pela IA, salienta Duque. Já para os jovens, os
impactos começaram a ser sentidos no ano seguinte ao surgimento da inteligência
artificial generativa de massa, com o chatGPT, no fim de 2022, e se
aprofundaram em 2024 e 2025, com a aparição de outros robôs, como Claude e
Gemini.
“Provavelmente só vai piorar”, aposta.
“Um dos aspectos dessa grande mudança que a gente está vendo é que a adoção da
IA está sendo mais rápida do que a adoção de várias outras tecnologias no
passado. Tanto o computador, quanto a internet foram sendo adotadas muito mais
lentamente do que a IA está sendo, e é por isso que o efeito no mercado de
trabalho está sendo muito rápido.”
Nos países desenvolvidos, onde a
automatização do trabalho é mais acelerada, o recrutamento de jovens
desenvolvedores já chegou a cair até 20%, constataram pesquisadores do
Laboratório de Economia Digital de Stanford, no Estados Unidos, em Novembro de
2025. Em média, a queda da empregabilidade foi de 16% nos setores mais
expostos.
Na França, um estudo publicado em março
pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Económicos (Insee) revelou
números semelhantes, mostrando que as empresas europeias já delegam à IA uma
parte do trabalho que costumava ser realizado pelos “juniores”, como tratamento
de dados e redação.
“O Brasil está um pouco menos exposto do
que os países desenvolvidos, mas existem as questões da substituibilidade, que
é o quanto a pessoa é altamente substituível pela IA, e da complementaridade,
ou seja, o quanto o trabalho dela é complementar ao da IA.
Nisso, o Brasil está um pouco pior, porque
entre as ocupações expostas, há um maior grau de exposição por substituição”,
aponta Daniel Duque. “É um problema que o país vai enfrentar.”
A razão é a baixa qualificação da mão de
obra no país: para ser complementar à IA, é preciso ter o domínio da
tecnologia. Na França, a Associação Nacional de Recursos Humanos (ANDRH) notou,
ainda, que algumas empresas têm optado por diminuir o número de estagiários e,
no lugar, incentivar os funcionários a aumentar o uso da inteligência
artificial. O risco, nestes casos, é que a longo prazo os futuros empregados
seniores tenham menos competências.
“É um problema grande, porque é muito
bem documentado que essas primeiras experiências no mercado de trabalho vão
determinar, em grande parte, a sua trajetória toda no mercado de trabalho. Se
você tira os trabalhadores do mercado nesse momento mais cedo da carreira, eles
não vão formar experiências, não vão ter uma liderança em quem se espelhar
depois e, com isso, não vão aprender a tomar as decisões que os seniores estão
tomando”, explica o pesquisador. “No futuro, talvez a gente vá criar melhores
modelos de IA que vão acabar podendo tomar decisões tão boas ou melhores que as
dos humanos e, de fato, a gente não vai precisar de mais trabalhador nenhum.”
É por isso que a democratização do acesso à IA e a distribuição dos seus benefícios para a produtividade em todas as camadas da sociedade estão entre os principais desafios para o futuro do mercado de trabalho, salienta o pesquisador brasileiro. ANG/RFI

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