FAO/Salinização dos solos obriga regiões costeiras a reinventarem a agricultura
Bissau, 27 Fev 26 (ANG) - A interação entre um clima mais quente e práticas agrícolas prejudiciais está tornando as regiões costeiras cada vez menos férteis.
A salinização dos solos se expande nos cinco continentes e, nas zonas áridas e semiáridas, coloca em risco cultivos tradicionais.Segundo
a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais
de 10% da superfície terrestre é afetada pelo fenómeno. A presença de sal é
natural na terra e na água. No entanto, a crise climática e a má gestão humana
têm levado a desequilíbrios que abalam a fertilidade destes solos.
Um
bilhão de hectares do planeta estão ameaçados nas próximas décadas.
As zonas diretamente em contato com o mar são as mais vulneráveis – é onde a
água dos lençóis freáticos costuma ser mais explorada para o consumo humano,
abrindo espaço para a substituição pela água salgada. Em entrevista à RFI,
o hidrologista Claude Hammecker, especialista no estudo dos solos do instituto
francês de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD), afirma que as mudanças
climáticas pioram este contexto.
“Por um lado, o aumento dos períodos de
seca, e consequentemente o aumento da evaporação, contribuirá para agravar a
salinização em áreas onde o sal já está presente. Mas quando a evaporação é
forçada, devido ao uso de água dos lençóis freáticos para a irrigação, a
acumulação de sal aumenta”, sublinha. “Além disso, com a diminuição das chuvas,
que naturalmente ‘lavam’ o excesso de sal no solo, teremos um acúmulo ainda
maior deste sal”, complementa.
Nas
regiões mais áridas, os governos locais recorrem aos lençóis freáticos para
compensar a falta de chuva. Mas mesmo onde as precipitações são abundantes, a
prática é comum, observa o especialista.
“Eu trabalhei no Brasil, e todas as
grandes megalópoles localizadas no litoral brasileiro consomem quantidades
enormes de água, bombeando-a diretamente dos aquíferos e contribuindo para o
que se chama de ‘beijo de sal’. A água doce é extraída e gradualmente
substituída pela do mar, tornando a água cada vez mais salgada”, aponta.
Em seu relatório mais completo sobre o
tema, publicado há pouco mais de um ano, a FAO alerta que 16% das águas subterrâneas
já são afetadas pelo fenómeno, tornando uma área ainda maior em torno da costa
pouco propensa à agricultura.
Outros processos naturais de salinização
também podem ocorrer, relacionados a antigos depósitos marinhos transformados
em camadas geológicas. Conforme as movimentações da água ou escavações, essas
camadas, formadas há milhares de anos, podem emergir à superfície.
Entretanto, este processo pode se acelerar
com a degradação do meio ambiente pela ação humana. “Na Tailândia, temos
antigos depósitos de sal enterrados profundamente no subsolo e que, à primeira
vista, não representavam uma ameaça para a agricultura. Mas eles ressurgiram
devido ao desmatamento, que fez com que a água da chuva se infiltrasse muito
mais profundamente, subisse à superfície e criasse um lençol freático salgado,
que afeta as plantações”, salienta Hammecker.
Entre os países que mais sofrem com a
salinização, estão Argentina, China, Estados Unidos, Rússia e Irã. Nos países
mediterrâneos, o problema tem se acentuado nos últimos anos, tanto no norte da
África, quanto na Europa.
No sul da França, a região de Camargue
exemplifica os desafios. Tradicional produtora de sal e de culturas que se
desenvolvem bem em solos arenosos e salinizados, como o arroz, Camargue agora
sofre os efeitos dos excessos de calor e das secas, mas também da expansão do
próprio sal, com o aumento do nível do mar. Os prejuízos dos viticultores se
acumulam, e muitos produtores de arroz agora têm preferido se voltar para
cereais menos dependentes de irrigação.
A necessidade de mudança causa tensões,
observou à RFI o ecólogo Raphaël Mathevet, ligado ao
respeitado Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. O
pesquisador tem tentado convencer os agricultores a experimentar culturas
resilientes às novas condições, como o melão ou o tomate.
“Temos
um choque cultural. Estamos falando de agricultores que vêm desenvolvendo a
Camargue há muito tempo graças à irrigação, às escavadeiras e à tecnologia, e
que se consideram os próprios criadores desta Camargue que precisa ser
protegida hoje”, detalha.”Eles se enxargam como um contraponto aos cientistas” e
ativistas que dizem que, ao contrário, devemos aproveitar esta crise para
pensar em uma recomposição territorial, repensar o desenvolvimento económico do
delta, em outras culturas e em outras formas de atuação.”
Especialistas
da Parceria Global para o Solo estimam que, nos países mais afetados pela
salinização, as perdas de produtividade podem chegar a 72% para o arroz,
68% para o feijão, 45% para a cana-de-açúcar e 37% para o milho. O impacto é
maior nos países em desenvolvimento, menos preparados para lidar com o
problema. ANG/RFI

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