França/'A Fifa não pode continuar usando o nosso esporte para enriquecer a si mesma', diz UEFA
Bissau, 30 Jul 26 (ANG) -No dia seguinte ao anúncio da Fifa do projeto de abertura de seu capital a investidores privados por meio da criação de uma nova empresa, a entidade é alvo de fortes críticas políticas e desportivas.
A UEFA e a União Europeia expressaram sua oposição à
ideia na quarta-feira (29).
Após uma reunião de emergência, a UEFA,
que reúne as federações europeias de futebol, afirmou em comunicado que "a
Fifa não pode continuar usando nosso esporte para enriquecer a si mesma e seus
amigos", em uma clara alusão sobre a proximidade entre o presidente da
Fifa, Gianni Infantino e o presidente americano, Donald Trump.
"A alma e a governança do futebol
não são ativos para especulação, sobretudo sem qualquer transparência sobre o
destino dos lucros financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à
Fifa vendê‑lo", diz um comunicado da instituição.
A União Europeia, por meio do comissário
responsável pelos desportos, Glenn Micallef, declarou que “a comercialização
desenfreada do futebol se tornou nociva” e que o plano da Fifa ameaça aquilo
que torna o futebol o esporte mais popular do mundo. Em sua mensagem, ele
acrescentou: “Não mexam com o nosso desporto.”
Outras instituições endossaram as
críticas. O presidente da Federação Francesa de Futebol, Philippe Diallo,
afirmou que o projeto “levanta muitas dúvidas” e disse ter comunicado a
Infantino a necessidade de “processos de decisão mais transparentes”.
Já Federação Alemã de Futebol
classificou a iniciativa de “um ataque absoluto ao futebol” e acrescentou que
existe “um amplo consenso entre as federações membros da UEFA” sobre o tema.
Outras reações vieram das Américas e da
Ásia. A Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe
(Concacaf) e a Asiática (AFC) lamentaram que o projeto tenha sido divulgado
antes mesmo de os membros da Fifa terem sido avisados.
"Embora a AFC reconheça a
importância de explorar abordagens inovadoras que possam fortalecer o futuro do
futebol mundial, iniciativas dessa magnitude e com consequências tão
significativas precisam se basear em princípios de boa governança,
transparência e verdadeira consulta", declarou.
A Associação dos Clubes Europeus também
se opôs ao que classifica de "anúncio repentino" da Fifa sobre a
possível criação de uma nova empresa. "Representando mais de 850 clubes,
seria adequado que a ECA fosse consultada sobre um projeto de tamanha
importância", disse a entidade em comunicado.
O projeto foi revelado pelo jornal
britânico The Times na terça-feira (28) e foi esclarecido
horas depois pela Fifa. A entidade máxima do futebol pretende criar uma nova
filial que estaria encarregada de administrar seus direitos comerciais e a
organização de torneios, incluindo a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes. A
empresa seria controlada maioritariamente pela Fifa, mas uma "captação de
recursos", para levantar até US$ 4,2 bilhões, seria organizada junto a
investidores de longo prazo, que adquiririam participações minoritárias.
"Todos os lucros líquidos serão
reinvestidos no futebol", afirmou a Fifa, prometendo aos seus membros benefícios
económicos por meio de um novo mecanismo de financiamento: o Programa Fifa Fast
Forward (FFFP). Para concretizar este projeto, que ainda precisa ser aprovado
pelo Conselho da entidade máxima do futebol, a instituição explica que está
trabalhando com o banco J.P. Morgan e o fundo de investimento Thrive Eternal,
fundado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo The Times,
Infantino, que tem demonstrado regularmente sua proximidade com o chefe da Casa
Branca, poderia se tornar diretor-geral da nova filial, multiplicando seus
lucros pessoais. O projeto se alinha à intenção do presidente da Fifa de
liberar o potencial comercial da instituição.
O diário ainda informa que Infantino
enviou uma carta às federações dando‑lhes até 19 de Setembro para apoiarem o
projeto, com a promessa de receberem, em troca, € 20 milhões em financiamentos
adicionais a partir de 1º de Janeiro de 2027. "Isso diz tudo sobre o
projeto", ironizou a UEFA.
O novo projeto de Infantino – até agora
o único candidato à própria reeleição em Março de 2027 – pode abrir um novo
capítulo em seu confronto com a União das Associações Europeias de Futebol e
com seu presidente, Aleksander Čeferin.
Frequentemente crítica à Fifa, a UEFA já
se opôs várias vezes à entidade máxima do futebol no passado. Mais
recentemente, durante a Copa do Mundo de 2026, a instituição protestou contrao
cancelamento da suspensão do atacante americano Folarin Baloqun.
A decisão foi tomada após uma intervenção
de Trump junto a Infantino, pedindo a anulação do cartão vermelho que Balogun
recebeu na partida contra a Bósnia e Herzegovina.
O pesquisador em direito internacional
do esporte Antoine Duval listou uma série de dúvidas sobre o projeto de
Infantino.
"Do ponto de vista financeiro, o
diabo está nos detalhes. Quais serão os direitos dos investidores? Como esse
investimento será protegido? Que parcela das receitas futuras ficará com
eles?”, perguntou na rede social X. “É provável que um ganho de curto prazo
acabe escondendo perdas de longo prazo para a Fifa, avalia. ANG/RFI/AFP
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