terça-feira, 1 de julho de 2025

Reino Unido/Detidos chefes de hospital  onde enfermeira matou sete bebés

Bissau, 01 Jul 25 (ANG) - Três quadros superiores de um hospital inglês onde a enfermeira Lucy Letby trabalhava antes de ser condenada pelo homicídio de bebés foram detidos por suspeita de homicídio involuntário, anunciou hoje a polícia britânica.

Os três responsáveis estão a ser investigados por homicídio por negligência grave e foram detidos na segunda-feira, no âmbito de uma investigação por homicídio involuntário na sequência das condenações de Letby pelas mortes de bebés no Hospital Countess of Chester, vincou o detetive superintendente da polícia de Cheshire, Paul Hughes.

Os três suspeitos não foram identificados e foram libertados sob caução.

Hughes explicou que "em outubro de 2023, após o longo julgamento e subsequente condenação de Lucy Letby, a Polícia de Cheshire lançou uma investigação sobre homicídio involuntário no Hospital Countess of Chester".

"Em março de 2025, o âmbito da investigação foi alargado para incluir também o homicídio por negligência grave. Trata-se de uma infração distinta do homicídio doloso de pessoas coletivas e centra-se na ação ou inação gravemente negligente de indivíduos", acrescentou.

O polícia salientou que esta investigação "não tem impacto nas condenações de Lucy Letby por múltiplos crimes de homicídio e tentativa de homicídio".

Letby, de 35 anos, está a cumprir várias penas de prisão perpétua sem hipótese de liberdade condicional depois de ter sido condenada por sete acusações de homicídio e de tentativa de homicídio de sete outras crianças entre junho de 2015 e junho de 2016, quando trabalhava como enfermeira pediátrica no hospital.

Desde o fim do julgamento, vários peritos contestaram a forma como as provas foram apresentadas ao júri e, após analisar as notas médicas, alegaram que não existiu malícia.

O caso está a ser analisado pela Comissão de Revisão de Casos Criminais (CCRC), que analisa potenciais erros judiciais, para perceber se a morte dos bebés se deveu a cuidados médicos insuficientes e a causas naturais, apesar de a polícia e o Ministério Público insistirem na culpa de Letby. ANG/Lusa

 

Espanha/Cortes dos EUA em ajuda podem causar mais de 14 milhões de mortes

Bissau, 01 Jul 25 (ANG)O corte do financiamento para ajuda internacional dos EUA, decidido pela administração Trump, pode levar a mais de 14 milhões de mortes até 2030, um terço dos quais crianças, de acordo com uma projeção publicada na revista The Lancet.

"Arriscam-se a parar abruptamente, ou mesmo a inverter, duas décadas de progresso na saúde das populações vulneráveis. Para muitos países de baixo e médio rendimento, o choque resultante seria de uma escala comparável à de uma pandemia global ou de um grande conflito armado", comentou Davide Rasella, coautor do estudo e investigador do Instituto de Saúde Global de Barcelona, citado num comunicado de imprensa.

A publicação deste estudo na prestigiada revista médica coincide com a realização, em Espanha, de uma conferência sobre o financiamento do desenvolvimento, na qual participam dirigentes de todo o mundo, estando os Estados Unidos entre os ausentes.

Esta reunião tem lugar num contexto particularmente sombrio para a ajuda ao desenvolvimento, que foi duramente atingida pelos cortes maciços de financiamento decididos por Donald Trump desde o seu regresso à Casa Branca em janeiro.

Ao examinar os dados de 133 países, a equipa internacional de investigadores estimou, retrospetivamente, que os programas financiados pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) evitaram 91 milhões de mortes nos países de baixo e médio rendimento entre 2001 e 2021.

De acordo com a sua modelação, o corte de 83% no financiamento dos EUA - um valor anunciado pelo Governo no início de 2025 - poderia levar a mais de 14 milhões de mortes extra até 2030, incluindo mais de 4,5 milhões de crianças com menos de cinco anos, ou seja, cerca de 700.000 mortes extra de crianças por ano.

De acordo com os investigadores, os programas apoiados pela USAID foram associados a uma redução de 15% das mortes por todas as causas. No caso das crianças com menos de cinco anos, a redução de mortes foi duas vezes superior (32%). ANG/Lusa

 

              Argélia/Jornalista francês condenado a sete anos de prisão

Bissau, 01 Jul 25 (ANG) -O jornalista francês Christophe Gleizes, de 36 anos, foi condenado este domingo, 29 de Junho, a sete anos de prisão por um tribunal da cidade argelina de Tizi Ouzou.

A decisão judicial, amplamente criticada por organizações de defesa da liberdade de imprensa, como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), e por diversos sectores do meio jornalístico, é vista como um sinal alarmante da crescente instrumentalização política da justiça argelina.

O jornalista desportivo Christophe Gleizes deslocou-se à Argélia em Maio de 2024 para realizar uma investigação sobre o clube Jeunesse Sportive de Kabylie (JSK), uma das equipas mais emblemáticas da região da Cabília. O jornalista francês viajou com um visto de turista, uma vez que os vistos profissionais são raramente concedidos pelas autoridades argelinas, com o propósito de aprofundar a investigação para um livro sobre o futebol africano, tema que acompanha com rigor há vários anos.

A 28 de Maio de 2024, Christophe Gleizes foi detido e colocado sob vigilância judicial. Impedido de deixar o país, passou mais de um ano em Argel, obrigado a apresentar-se regularmente à polícia, numa rotina marcada pelo silêncio mediático. Silêncio mantido pela família, pela RSF e pelo grupo editorial So Press, numa tentativa de evitar tensões num contexto diplomático já sensível entre Paris e Argel.

A acusação que pesa sobre Christophe Gleizes inclui os crimes de "apologia ao terrorismo" e "posse de publicações com fins de propaganda atentatória ao interesse nacional". As autoridades basearam-se no contacto do jornalista com um antigo dirigente do JSK que, anos mais tarde, viria a ser classificado como líder de uma organização separatista, o Movimento pela Autodeterminação da Cabília (MAK), considerado terrorista desde 2021 pela Argélia. As conversas referidas pela acusação tiveram lugar entre 2015 e 2017.

O director-geral da RSF, Thibaut Bruttin, reagiu à sentença: "É um escândalo. Christophe Gleizes é um jornalista sério, dedicado ao seu ofício, e está a pagar um preço altíssimo por exercer a sua profissão com honestidade". Thibaut Bruttin reforçou que a pena é desproporcional e denuncia o que considera ser uma instrumentalização política da justiça: "Este caso não passa de um sintoma de um Estado que transforma jornalistas em peões diplomáticos".

A condenação surge num contexto tenso nas relações entre a Argélia e a França, marcadas por discórdias diplomáticas em torno da questão do Saara Ocidental e pela recente detenção do escritor franco-argelino Boualem Sansal. A confluência dos casos parece evidenciar o endurecimento político por parte das autoridades argelinas, que não hesitam em invocar razões de segurança nacional para limitar liberdades fundamentais.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros francês "lamentou profundamente" a decisão judicial, sublinhando que continua empenhado em prestar assistência consular ao cidadão francês. Um recurso deve ser interposto nos próximos dias, e um novo julgamento deve ter lugar no próximo mês de Outubro.ANG/RFI

    Cabo Verde/Amílcar Cabral: as múltiplas facetas do líder da luta de libertação


Bissau, 01 Jul 25 (ANG) - Nos 50 anos da independência de Cabo Verde, a RFI publica uma série de reportagens em torno deste tema.

Neste quinto episódio, foi à procura de algumas memórias sobre Amílcar Cabral, o líder da luta de libertação da Guiné e de Cabo Verde, descrito como estratega, poeta, pensador, visionário e “pai” para muitos.

É na fachada de um liceu, na Achada Frente Grande, na cidade da Praia, que viu um retrato gigante de Amílcar Cabral, com os seus óculos e a sua sumbia, esculpido pelo artista português Vhils. Esta é mais uma homenagem ao ‘homi grandi’ [‘grande homem’] que ficou na memória dos seus compatriotas como o pai das nacionalidades cabo-verdiana e bissau-guineense.

Líder incontestável da luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, Amílcar Cabral é uma figura do panafricanismo e uma das personalidades mais importantes da luta anticolonial e do pensamento revolucionário no século XX. É, ainda, considerado como o motor da queda do Império Português e da viragem pós-colonial do mundo contemporâneo. Foi, também, um estratega militar e político e um pensador que continua a ser uma referência nas lutas contemporâneas contra o imperialismo, o racismo e o neocolonialismo.

O historiador e sociólogo António Correia e Silva, co-autor dos três volumes da História Geral de Cabo Verde, diz que o revolucionário é, antes de mais, um filho de Cabo Verde e da Guiné-Bissau e que herdou combates de gerações anteriores, sintetizando e canalizando toda a cultura de protesto que se foi cimentando numa história ritmada pela tragédia cíclica das fomes e do colonialismo.

“Amílcar Cabral, incontestavelmente, é o homem que, num determinado momento, sintetiza uma cultura de protesto, uma incomodidade cabo-verdiana que está no ar e ele dá-lhe uma direção. É o líder não só que pensa a independência, mas que a operacionaliza e é uma figura que tem um peso individual, o tal poder carismático. É, também, o homem que não só pensa, mas mobiliza, estrutura, gere um processo não só para Cabo Verde e Guiné, mas ele é fundamental na criação de um nacionalismo independentista das colónias portuguesas”, começa por explicar António Correia e Silva.

O historiador vai mais longe e considera que as preocupações de Amilcar Cabral “são mais amplas” porque além de militante de uma causa nacionalista, “o seu pensamento busca a emancipação enquanto tal”.

Ele vê para lá da missão do Estado, Amílcar Cabral tem preocupações do que ele chamava o projecto da humanidade e de povos africanos e, no caso concreto, cabo-verdiano e guineense, dentro desse projecto de humanidade. Aliás, ele tem uma expressão extremamente ambiciosa, ambígua e utópica, que diz que mesmo na condição de escravatura e do colonialismo, podemos trazer para a humanidade as especificidades da nossa cultura e enriquecemos o património comum da humanidade. Então, na liberdade e independentes estaríamos plenos para esse projecto de humanidade”, descreve o professor António Correia e Silva.

Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na Guiné-Bissau, a 12 de Setembro de 1924, filho de cabo-verdianos. Estuda em Cabo Verde, primeiro em Santiago, depois no Liceu Gil Eanes, em São Vicente. Aluno brilhante, consegue uma bolsa para o ensino superior em Portugal. Em Lisboa concretiza o pensamento nacionalista, particularmente na Casa dos Estudantes do Império, da qual chegou a ser vice-presidente em 1951. Foi cofundador e colaborador do seu boletim Mensagem e criou o Centro de Estudos Africanos com Mário de Andrade e Agostinho Neto. A partir da Casa dos Estudantes do Império, ele e colegas de outras colónias começam a apoiar-se na luta pela independência dos seus países. Ainda nessa altura, ele conhece Maria Helena Rodrigues, ao lado da qual vai iniciar a luta.

Formado em engenharia agrónoma, Amílcar Cabral trabalha entre 1952 e 1955 em Pessubé, na Guiné, onde dirige o Posto Agrícola Experimental e faz o recenseamento agrícola de todo o território, com viagens que lhe serão úteis para a luta posterior. A 19 de Setembro de 1956, de acordo com a historiografia oficial do PAIGC, funda o partido do qual é o primeiro Secretário-Geral. Em Dezembro de 1957, participa na fundação do Movimento Anticolonialista (MAC), depois na Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional e na Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, ao lado de camaradas das outras colónias.

A sua primeira conferência de imprensa em que denuncia o colonialismo português é em Março de 1960, mês em que vai para Conacry, onde passa a viver e que passa a ser a sede do partido e da luta. É em Conacri que, mais tarde, instala a Escola-Piloto para os filhos e órfãos de combatentes. Amélia Araujo, a locutora mais conhecida da Radio Libertação e que também trabalhava no secretariado, conheceu-o de perto.

“O Amílcar era uma pessoa fora de série. Era uma pessoa extraordinária, que se preocupava com todos nós e que adorava as crianças. Ele dizia: ‘As crianças são a razão da nossa luta e as flores da nossa revolução’. Bonito, não é? Ele dava muita atenção às crianças. Todos os dias, de manhã cedo, ele ia à Escola-Piloto, sentava-se lá com os meninos, contava histórias, ensinava jogos, fazia competições entre rapazes e raparigas, na corrida, por exemplo. A minha filha ganhava sempre!”, conta, com orgulho, Amélia Araújo, ao lado da filha, a cantora Teresa Araújo, numa conversa em casa delas, na cidade da Praia, na ilha de Santiago.

A partir de Conacri, Amílcar Cabral implementa todo um sistema de ensino pioneiro nas chamadas zonas libertadas na Guiné-Bissau, assim como hospitais, tribunais, assembleias populares, lojas do povo e são organizadas várias formações no exterior para preparar os futuros quadros dos dois países independentes.

Maria Ilídia Évora, “Tutu”, tem retratos de Amílcar Cabral logo à entrada da sua casa, no Mindelo, na ilha de São Vicente. Para ela, "nunca mais África terá um líder assim". Conta que foi ele quem a convenceu a ir para Cuba, em meados dos anos 60, para se preparar para a guerrilha em Cabo Verde, mas a luta armada nunca se fez nas ilhas e Amílcar Cabral decide que Tutu vai fazer uma formação em enfermagem na antiga RDA.

“Amílcar era uma pessoa muito humana, uma pessoa muito responsável, uma pessoa muito honesta e uma pessoa amiga. Todas as vezes que a gente se encontrava, ele punha-me ao lado dele para sentar na mesa e a gente falava depois. Ele tinha a atenção de dizer: ‘Vou ter um pequeno espaço para ti para falarmos da tua filha’. Portanto, para além de ser o meu líder, também foi como se fosse um pai. Você está a ver a estima que eu tenho por ele? Ele até está na minha entrada para toda a gente ver que eu sou Amílcar Cabral. Eu apoiei Amílcar Cabral. Foi o melhor líder que nós podíamos ter. Melhor não vai aparecer nunca”, sentencia Tutu.

A antiga combatente recorda também que quando a motivação esmorecia, o líder do PAIGC tinha sempre as palavras certas: “Tu sabes porque é que estás aqui, filha. Estamos a lutar. É um comboio que viaja, alguns descem, outros sobem. Mas tu não vais deixar esse comboio porque eu penso que sabes por que é que tu estás cá. Não vieste à toa.”

Só depois de frustradas todas as tentativas de diálogo com o poder colonial português, é que se passa da ação diplomática à luta armada em 1963. Amílcar Cabral foi, por isso, um estratega militar e muito mais, descreve o comandante Silvino da Luz.

Amílcar era um ser humano, antes de mais, extremamente humano, extremamente humanista. Mas o Amílcar tinha várias facetas. Amílcar era engenheiro, mas foi um chefe militar, um estratega inconfundível. Amílcar foi simultaneamente poeta e foi um visionário”, afirma Silvino da Luz, sublinhando que “a sua inovação da proclamação do Estado [da Guiné-Bissau] durante a luta foi uma coisa brilhante”.

Silvino da Luz diz que seria preciso um livro para descrever Amílcar Cabral, mas vai avançando com mais algumas pistas: “É um teórico, um pensador das ciências sociais e políticas inconfundível. As suas grandes armas, seus grandes textos que ele deixou, por exemplo, 'O Papel da Cultura na Libertação Nacional', 'A arma da teoria', etc, etc, etc, que o tornaram célebre.  Ainda hoje é lembrado e festejado e é comemorado nos diversos continentes. Portanto, era um homem de muitas facetas, um homem invulgar, profundamente humano. Ele dizia: ‘Se tivesse de mandar matar alguém dentro dos meus quadros da luta, então eu deixaria nessa mesma altura de ser dirigente e nunca mais seria dirigente desta terra’’.

Amílcar Cabral era, de facto, um “pensador e um grande líder”, resume a filha Iva Cabral, que também nos abre as portas de sua casa, na Praia, para nos falar do líder africano.

“Ele é um grande líder. Conseguia levar as pessoas atrás dele. conseguia formar equipas. Era uma pessoa honestíssima porque ele dizia-me que ‘o problema de África não é a falta de recursos, o problema da África é a falta de honestidade, a elite africana não é honesta’. E é a realidade, diga-se de passagem. Nós traímos os nossos ideais. E ele dizia que o processo revolucionário não é uma ambição que ele tinha para a nossa juventude porque o que nós devemos é ser honestos conosco, honestos com o povo”, lembra a historiadora Iva Cabral.

A pedra angular do ideário político de Amílcar Cabral era o princípio da “unidade e luta”, acrescenta. Os militantes da Guiné e Cabo Verde deveriam lutar juntos pela independência e contra o inimigo comum: o colonialismo português. Mas havia ecos de queixas de nacionalistas guineenses que se consideravam preteridos em detrimento de elementos da ala cabo-verdiana na ocupação de escalões superiores da estrutura do partido. Algo que viria a ser usado e instrumentalizado por parte da PIDE/DGS que tudo tinha a ganhar com a divisão entre os dois povos.

O comandante Osvaldo Lopes da Silva chegou a confrontar Amílcar Cabral sobre a questão da unidade e a alertar para a necessidade de mostrar que os cabo-verdianos não queriam mandar na Guiné e queriam estar a par da evolução das coisas no que toca à luta pela independência também nas ilhas.

“Devia-se vincar - até para sossegar os guineenses - que o cabo-verdiano não queria ir mandar na Guiné, que o cabo-verdiano quer mandar em Cabo Verde e o guineense que mande na Guiné. Vincar, chamar a atenção mesmo para o facto da História não nos aproximar. A História podia ser até um factor de maior separação porque a Guiné esteve durante muito tempo subordinada ao governo de Cabo Verde e isso cria movimentos de rejeição da parte da Guiné. E tínhamos que compreender”, explica o antigo comandante de artilharia.

No regresso de uma formação de marinha de guerra no Mar Negro, Osvaldo Lopes da Silva e o grupo de cabo-verdianos que dirigia sentiram a hostilidade de elementos guineenses na Marinha, alguns dos quais estariam envolvidos no futuro complô que levaria à morte de Amílcar Cabral.

A 23 de Janeiro de 1973, Amílcar Cabral era assassinado. Ana Maria Cabral, a esposa, estava com ele nessa noite. Diz que “não houve nenhuma justiça” e que “toda a verdade ainda não foi dita”. 


“Não houve nenhuma justiça. Não houve nenhuma justiça. Já se escreveu muita coisa sobre isso, mas toda a verdade ainda não foi dita. Eu pensei que depois da morte do Spínola, a verdade saísse. Falta esclarecer quem foram realmente - além de Spínola - quem foram todos os intelectuais que trabalharam nisso. Uma vez li uma entrevista de Spínola em que ele dizia, mais ou menos isso: ‘Eu não dei a ordem, eu não disse para matar. Eu não dei ordem para matar.’ Mas como é que se vai distribuir armas a alguém e se diz para não utilizar as armas?", questiona Ana Maria Cabral, numa conversa em frente à praia, na capital de Cabo Verde.

Até que ponto as divergências em relação à unidade não estiveram na origem do assassínio de Amílcar Cabral, a 23 de Janeiro de 1973? O líder do  PAIGC foi assassinado em Conacri, em frente à sua residência, por um grupo que pretendia prender e eliminar os dirigentes do partido, pouco mais de dois anos depois da fracassada Operação Mar Verde, em que o exército português invadiu Conacri para tentar acabar com a direcção do PAIGC (22 de Novembro de 1970).  Inocêncio Kany foi o homem que disparou a matar contra Amílcar Cabral, mas os mais próximos apontam a responsabilidade do então governador na Guiné, António de Spinola.

O único cabo-verdiano presente nos interrogatórios aos assassinos de Amílcar Cabral foi Alcides Évora, conhecido como “Batcha”. Uma vez, na cantina do secretariado, ele conta ter ouvido Amílcar Cabral dizer que “quem o havia de matar eram os próprios camaradas do PAIGC”. Porém, “ele tinha uma confiança ilimitada nos camaradas”, acrescenta.

Sobre os interrogatórios, em que serviu de intérprete, ele recorda que “estavam sempre a dizer mal dos cabo-verdianos e achavam que Cabral estava a beneficiar os cabo-verdianos em detrimento dos guineenses”. “Havia um certo ódio contra Cabral”, lamenta o homem que trabalhou bem perto do líder do PAIGC, no secretariado em Conacri, como nos mostra numa das fotografias em exposição na Fundação Amílcar Cabral. 

A morte de Amílcar Cabral não impediu que se cumprisse o seu objectivo: libertar a Guiné e Cabo Verde das garras do colonialismo. O comandante Pedro Pires, que depois do 25 de Abril de 1974 liderou a delegação cabo-verdiana nas negociações da independência, recorda que “sem o PAIGC ou sem essa aliança entre Guiné e Cabo Verde, a independência de Cabo Verde seria complicada”.

“Isso, em certa medida, permitiu as vitórias ou a vitória final, se quiser dizer isso, na Guiné. A introdução dos artilheiros cabo-verdianos  que melhoraram a capacidade da artilharia que era a arma que fustigava mais os quartéis e podia destruir os quartéis. Essa chegada e a introdução dos artilheiros cabo-verdianos foi um factor de mudança favorável à melhoria das capacidades das Forças Armadas do PAIGC”testemunha Pedro Pires, acrescentando que essa aliança Guiné-Cabo Verde também abriu as portas às negociações para a independência depois da queda do Estado Novo em Portugal.

Também a historiadora Ângela Benoliel Coutinho, autora de “Os dirigentes do PAIGC: da fundação à rutura: 1956-1980”, considera, em entrevista por telefone, que a “unidade e luta” foi uma “fórmula brilhante” que resultou na libertação e independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, mas também no fim da ditadura em Portugal.

“A aposta em unidade e luta da direcção do PAIGC foi uma aposta brilhante que deu excelentes resultados, que permitiu libertar a Guiné-Bissau e Cabo Verde e que deu um forte contributo para libertar os portugueses da ditadura fascista, visto que desde há décadas tinha havido diversas tentativas de golpes de Estado, todas falhadas contra o regime do Estado Novo em Portugal, e esta tentativa foi bem sucedida”, resume a investigadora.

Por sua vez, José Vicente Lopes, jornalista e autor do livro pioneiro sobre a história contemporânea do país “Cabo Verde - Os Bastidores da Luta pela Independência”, considera que o principio de “unidade e luta” foi “uma das utopias de Amílcar Cabral”, simultaneamente uma força e o ponto fraco do PAIGC.

“Quando Amílcar falava em unidade, ele falava em várias unidades e querer ver uma população tão heterogénea como a guineense ou mesmo como a cabo-verdiana, chega a ser quase uma espécie de utopia ou então uma unidade imposta a martelo que também não funciona. Aliás, a história vem mostrar isso. A tal unidade pretendida pelo Amílcar era ao mesmo tempo força e, ao mesmo tempo, o ponto fraco do PAIGC ou daquele processo. Daí que foi uma das utopias do Amílcar que não se realizou por razões mais diversas, na medida em que a unidade nunca é feita por decreto, nem por força. Então, logo as coisas tiveram o fim que tiveram e, do meu ponto de vista, isto hoje é passado e não sei até que ponto vale a pena gastar mais tinta com isto”, considera José Vicente Lopes, também ao telefone com a RFI, a partir dos Estados Unidos, onde em Maio foi convidado pela diáspora a falar sobre o livro “Cabo Verde - Um corpo que se recusa a morrer”.

A independência de Cabo Verde chegaria mais de dois anos depois da autoproclamada pela Guiné-Bissau, com o PAIGC a negociar com Lisboa os termos da independência cabo-verdiana, na sequência da queda da ditadura portuguesa, a 25 de Abril de 1974. Alguns anos depois, o golpe militar de 14 de Novembro de 1980 na Guiné-Bissau desfez o sonho de Amílcar Cabral de uma união política entre a Guiné-Bissau e Cabo Verde e ditou a cisão do PAIGC e a fundação, em Cabo Verde, do PAICV.

Meio século depois, o legado de Amílcar Cabral persiste e o homem que é considerado como um dos maiores líderes africanos de sempre, continua a ser símbolo de resistência, unidade, luta e panafricanismo. ANG/RFI

 

 


Conferência da ONU
/Presidente da República pede reforma na arquitetura financeira global

Bissau, 01 Jul 25(ANG) - O Presidente da República Umaro Sissoco Embaló apelou, na conferência da ONU em Sevilha, a uma reforma urgente do sistema financeiro internacional para garantir mais recursos e justiça no apoio ao desenvolvimento.

Embaló disse, segunda-feira, que países como o que lidera precisam de recursos para o desenvolvimento "muito além" do que conseguem mobilizar com a atual arquitetura internacional de financiamento e apelou a abordagens mais realistas.

"Países como a Guiné-Bissau precisam de mobilizar recursos significativos" para concretizar os objetivos de desenvolvimento sustentável acordados pela comunidade internacional "muito além do possível atualmente com receitas internas ou ajuda externa", disse Umaro Sissoco Embaló, no plenário da IV Conferência Internacional sobre Financiamento ao Desenvolvimento da ONU, que arrancou esta segunda-feira em Sevilha.

Umaro Sissoco Embaló destacou que esta é quarta conferência da ONU sobre financiamento ao desenvolvimento, mas "infelizmente os compromisso e objetivos assumidos" anteriormente, "não estão plenamente concretizados".

"É momento de rever a nossa abordagem e encontrar mecanismos de financiamento mais realistas e adaptados às necessidades dos países em desenvolvimento", afirmou, perante uma assembleia com representantes de mais de 190 países da ONU.

Umaro Sissoco Embaló realçou também o peso da dívida externa para os países em desenvolvimento, que "torna mais difícil investir em desenvolvimento sustentável" e pediu "mais flexibilidade e um tratamento mais equilibrado no sistema financeiro internacional".

"A Guiné-Bissau defende a reforma profunda da arquitetura financeira internacional para que se torne mais justa, equitativa e acessível aos países mais vulneráveis", afirmou.

Umaro Sissoco Embalo realçou que é preciso sair de Sevilha "com resultados positivos" e que os países em desenvolvimento esperam "decisões concretas capazes de mobilizar toda a comunidade internacional a favor do desenvolvimento e da erradicação da pobreza".

O Presidente guineense sublinhou, por outro lado, que nos 80 anos da ONU, o mundo precisa "mais do que nunca" de uma "paz global e duradoura, de um multilateralismo e uma cooperação internacional reforçados".

Mais de 60 líderes mundiais estão na conferência de Sevilha sobre o financiamento para o desenvolvimento, que ocorre dez anos depois da anterior, na Etiópia, em 2015. ANG/Lusa

 

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Sociedade/Presidente do Serviço Nacional da Proteção Civil sem meios para apoiar vítimas de calamidades naturais

Bissau 30 Jun 25 (ANG) – O Presidente do Serviço Nacional da Proteção Civil alertou , domingo, que a instituição que dirige se depara com falta de meios para responder, de forma eficaz, às solicitações das vítimas das calamidades naturais que afetam o país sobretudo durante a época chuvosa.

Malam Djaura falava à Rádio Sol Mansi(RSM) à margem da cerimónia de entrega de materiais de combate aos incêndios à população do sector de Catió, região de Tombali, sul do país.

Os materiais entregues são  catanas, enxadas, pás, luvas, mascarás, e foram doados pelo Programa Alimentar Mundial (PAM).

Aquele responsável disse que a ajuda foi recebida com satisfação tendo  recomendado o seu bom uso pelos beneficiários.

Djaura sublinhou a necessidade urgente de um apoio mais efectivo por parte do Governo, afirmando que os recursos atualmente disponíveis não permitem uma intervenção em situação de emergência.

Segundo a RSM que cita dados apurados na instituição, só no inicio da presente época chuvosa, mais de 300 casas foram danificadas por ventos fortes em várias localidades do país.ANG/MSC/ÂC//SG

 

Espanha/ONG Repórteres Sem Fronteiras acusa Israel de atacar jornalistas

Bissau, 30 Jun 25 (ANG) - O diretor-geral da organização não-governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Thibaut Bruttin, considerou hoje um insulto que Israel chame "terroristas" aos jornalistas que mata na Faixa de Gaza e classificou alegadas provas apresentadas pelo exército como "totalmente absurdas".

Numa entrevista dada à agência de notícias espanhola EFE, hoje publicada, o líder da ONG de defesa dos jornalistas de todo o mundo adiantou ter analisado algumas das provas que foram fornecidas por Israel, considerando que não fazem sentido.

Segundo Bruttin, embora o exército israelita tente repetidamente "apresentá-los como terroristas", muitos dos repórteres mortos em Gaza foram visados só por serem jornalistas.

Dos mais de 200 jornalistas mortos no enclave palestiniano desde o início da guerra, em outubro de 2023, a RSF acredita que "cerca de 50 casos" foram propositados.

"Os jornalistas são civis", sublinhou o diretor-geral da RSF, lembrando que não são vítimas colaterais do conflito.

Thibaut Bruttin denunciou ainda a dificuldade para retirar da região os jornalistas feridos e a necessitar de cuidados médicos.

Embora observe uma mudança nos meios de comunicação social em relação à responsabilidade das tropas israelitas em ataques a civis, lamenta que o exército israelita dissemine agora que a informação prestada pelos jornalistas é "propaganda total", enquanto antes, em geral, tentava envolver-se com a imprensa internacional de forma "muito responsável".

Sobre os efeitos do recente confronto entre Israel e o Irão, Bruttin destacou que em ambos os países há "muito pouco espaço" para a liberdade de imprensa, embora a níveis diferentes.

O diretor-geral da RSF condenou o ataque à sede da televisão estatal iraniana, mas também sublinhou que este canal "não é de todo um serviço público", mas sim uma fonte de propaganda.

"Estamos do lado do jornalismo que importa, realizado de acordo com os princípios da honestidade e da realidade, e não é o caso da televisão estatal iraniana", disse.

Por isso, afirmou na mesma entrevista que a sua principal prioridade no Irão é "garantir que a informação sai do país e garantir a segurança dos jornalistas atualmente detidos", lembrando que Israel bombardeou a prisão de Evin, onde estão detidos ativistas políticos e jornalistas.

No caso de Israel, Bruttin alertou para o endurecimento da regulamentação dos 'media' que está a ser desenvolvida pelo atual Governo, liderado por Benjamin Netanyahu.

De acordo com o responsável da RSF, muitos órgãos de comunicação social israelitas seguem as ordens das autoridades militares e implementam a censura, restando muito poucos independentes a desafiar "corajosamente" esta postura.ANG/Lusa

 

Vaticano/"Matar pessoas à fome é forma muito barata de fazer guerra", condena Papa

Bissau, 30 Jun 25 (ANG) - O Papa Leão XIV criticou hoje o uso da fome como arma de guerra numa mensagem à 44.ª conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que está a decorrer em Roma. 



"Estamos a assistir com desespero ao uso iníquo da fome como arma de guerra. Matar pessoas à fome é uma forma muito barata de fazer guerra", afirmou o pontífice de naturalidade norte-americana.

Na mensagem, o Papa não se referiu especificamente à situação em Gaza ou à guerra entre Israel e o Hamas.

Leão XIV acrescentou que a Igreja Católica apoia "todas as iniciativas para pôr fim à indignação da fome no mundo" e observou o impacto do conflito na segurança alimentar.

"Hoje, quando a maioria dos conflitos não é travada por exércitos regulares, mas por grupos de civis armados com poucos recursos, queimando terras e roubando gado, bloquear a ajuda humanitária é uma tática cada vez mais utilizada por aqueles que procuram controlar populações inteiras desarmadas", afirmou.

"Assim, neste tipo de conflito, os primeiros alvos militares tornam-se as redes de abastecimento de água e as vias de comunicação. Os agricultores são incapazes de vender os seus produtos em ambientes ameaçados pela violência, e a inflação dispara", sublinhou Leão XIV.

Para o Papa, esta situação leva a que um grande número de pessoas sucumba ao flagelo da fome e morra, "com a circunstância agravante de que, enquanto os civis definham na miséria, os líderes políticos enriquecem com os lucros do conflito".

"As crises políticas, os conflitos armados e a turbulência económica desempenham um papel central no agravamento da crise alimentar, dificultando a ajuda humanitária e comprometendo a produção agrícola local, negando assim não só o acesso aos alimentos, mas também o direito a uma vida digna e com oportunidades", frisou.

Segundo o Sumo Pontífice, será um "erro fatal não curar as feridas e as fraturas causadas por anos de egoísmo e superficialidade".

Da mesma forma, prosseguiu, sem paz e estabilidade, "não será possível garantir sistemas agrícolas e alimentares resilientes, nem assegurar um abastecimento alimentar saudável, acessível e sustentável para todos".ANG/Lusa

 

          Irão/Presidente do Irão critica comportamento do chefe da AIEA

Bissau, 30 Jun 25 (ANG) - presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, justificou hoje o rompimento da cooperação do Irão com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) com "a conduta injustificada, não construtiva e destrutiva" do chefe da agência da ONU.

 

"A opinião do Governo, da Assembleia Consultiva Islâmica e da nação iraniana é que o diretor-geral da AIEA não agiu de forma imparcial em relação ao programa nuclear do nosso país", disse Pezeshkian.

Segundo um comunicado do gabinete do Presidente do Irão, Pezeshkian fez os comentários sobre o chefe da AIEA, Rafael Grossi, durante uma conversa telefónica que manteve no domingo à noite com o homólogo francês, Emmanuel Macron.

Pezeshkian disse a Macron que a recente decisão do parlamento iraniano de romper a cooperação com a AIEA "é uma resposta natural à conduta injustificada, não construtiva e destrutiva" que atribuiu a Grossi.

O Presidente iraniano acusou Grossi de "fornecer relatórios falsos sobre o programa nuclear" do Irão e de não ter condenado os recentes ataques de Israel e dos Estados Unidos contra as instalações nucleares da República Islâmica.

"Este comportamento não é de forma alguma aceitável para nós", afirmou, citado pela agência noticiosa oficial iraniana IRNA.

Israel lançou uma ofensiva contra o Irão em 13 de junho, com ataques contra instalações nucleares e militares que causaram a morte de altos comandos das forças armadas e de vários cientistas do programa nuclear.

As autoridades israelitas justificaram a ofensiva com a alegação de que o Irão estava prestes a conseguir uma bomba atómica, o que Teerão negou, afirmando que o programa nuclear do país se destinava a fins civis, nomeadamente a produção de energia.

Oito dias depois, os Estados Unidos atacaram as centrais nucleares Fordo, Natanz e Isfahan.

O Irão anunciou hoje que os ataques, que cessaram entretanto, causaram mais de 900 mortos.

Pezeshkian reafirmou que o Irão não tenciona construir armas nucleares e que os ataques de que foi alvo ocorreram quando participava em negociações com os Estados Unidos.

"O que é ainda mais lamentável é que, em vez de denunciarem e condenarem, os defensores dos direitos humanos e do direito internacional tentaram justificar esta ação desumana e ilegal do regime sionista e dos Estados Unidos", afirmou.

Pezeshkian levantou a questão de saber por que razão Israel, que não é membro do Tratado de Não-Proliferação (TNP), ao contrário do Irão, não é alvo de inspeções e relatórios da AIEA por ter armamento nuclear.

Questionou ainda que garantia terá o Irão de que as instalações nucleares do país não voltarão a ser atacadas mesmo que volte a cooperar com a AIEA, uma agência da ONU com sede em Viena, a capital da Áustria.

Pezeshkian referiu que o Irão quer resolver as questões apenas através da diplomacia e disse esperar que as organizações internacionais como a AIEA trabalhem para a paz, segundo a IRNA.

A agência oficial iraniana noticiou também que Macron disse a Pezeshkian que a França foi um dos primeiros países a condenar os ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, e defendeu a continuação da cooperação de Teerão com a AIEA. ANG/Lusa

 

  Espanha/Funcionária de limpeza de Barcelona morre durante onda de calor

Bissau, 30 Jun 25 (ANG) - Uma funcionaria de limpeza da Câmara Municipal de Barcelona, em Espanha, morreu este domingo, na sequência de uma onda de calor.

Montserrat A., de 51 anos, perdeu a vida no sábado, no fim do seu turno de trabalho, e numa altura em que, à semelhança de Portugal, se registam temperaturas elevadas e calor extremo no país vizinho.

A autarquia de Barcelona já confirmou o sucedido, noticia o El Pais, embora não tenha confirmado ainda as causas da morte, que estão a ser investigadas.

O meio espanhol refere que a autópsia determinará se a morte da mulher está relacionado com o episódio de altas temperaturas ou se com outro motivo.

O incidente aconteceu na noite de sábado. A vítima mortal tinha estado, nas horas antes, a cumprir mais um turno de trabalho na zona de Ciutat Vella, entre as 14h e as 21 horas. Ao chegar a casa, reporta a RTVE, "caiu fulminada" e já nada havia a fazer para salvar a sua vida, embora tenha sido assistida com rapidez pelos serviços de emergência. 

Segundo o sindicato do trabalho, a mulher teria estado a trabalhar no período de maior calor do dia. Porém, executou o trabalho em ruas que estão maioritariamente à sombra.

Na sábado, após a morte da mulher, os seus familiares dirigiram-se até à sede da empresa para a qual trabalhava. Trata-se da FCC, uma das quatro empresas de limpeza contratados pela cidade de Barcelona.

Os familiares pediram explicações sobre o sucedido mas acabaram por regressar a casa sem respostas.

Entretanto o responsável do comité da empresa de limpeza, Ramon Cebrián, indicou que os trabalhadores têm um protocolo que devem ativar em dias em que está muito calor. Este estabelece que nestes dias, os funcionários, perante uma situação de stress ou calor, devem “entrar em lugares frescos, beber líquidos, e ligar para as emergências médicas ou para o seu encarregado, dado que são pessoas que trabalham sozinhas”. Mais informa que nenhum dos trabalhadores acionou este protocolo no dia em que morreu Montserrat.

Entretanto, Luis Lampurdanes, secretário da UGT da Catalunha, sindicato responsável pela defesa dos direitos laborais, revelou que a mulher era funcionária da empresa FCC há vários anos e que se lhe desconhecia algum problema de saúde.

Uma vaga de calor está a manter em alerta grande parte do sul da Europa, com temperaturas acima dos 40 graus Celsius, invulgarmente elevadas em muitas zonas, mesmo no verão. Espera-se que a situação se prolongue durante esta semana. 

Em algumas zonas de Portugal, Espanha, Itália e Grécia, as temperaturas mínimas não descerão abaixo dos 30 graus mesmo durante a noite, o que levou as autoridades a encerrar escolas e a emitir avisos de saúde para as pessoas vulneráveis.

A temperatura mais elevada registada no domingo em Portugal foi de 46,6º Celsius em Mora, distrito de Évora, um valor próximo do máximo absoluto no país, em 01 agosto de 2003, então 47,3 graus na Amareleja (Beja), segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

Em Espanha, hoje, por exemplo, está ativado um alerta amarelo com a indicação de que a temperatura máxima será, em média, de 34ºC e que a temperatura mínima registada durante a noite será significativamente mais alta do que o normal. ANG/Lusa