Venezuela/Dois meses após
os terramotos , famílias ainda buscam por parentes desaparecidos em La Guaira
Bissau, 24 Ago 26 (ANG) - Nesta
segunda-feira (24), o terramoto duplo que devastou o estado de La Guaira, na
Venezuela, completa dois meses.
Nas áreas mais afetadas, sobraram pilhas de
concreto e entulho. O movimento diminuiu, mas algumas localidades ainda mantêm
operações de busca por vítimas que permanecem soterradas sob os escombros.
Até o momento, o governo venezuelano
indica que a tragédia deixou aproximadamente 6.500 mortos.
Em Caraballeda, um dos municípios mais
atingidos pelos sismos de magnitude 7,2 e 7,5, famílias observavam, neste
domingo (23), debaixo das sombras das barracas posicionadas às margens das
montanhas de concreto que restaram dos edifícios que desabaram, o andamento dos
trabalhos.
“Estou buscando minha irmã”, disse Deisy
Rodríguez, que há dois meses deixou de procurar emprego para tentar encontrar
Carmen Rodríguez, uma das tantas desaparecidas que não são contabilizadas pelos
números oficiais divulgados pelo governo Venezuelano.
“Eu venho para cá todos os dias. Chego
às seis da manhã e fico até umas seis da tarde. É terrível, mas vou ficar aqui
até conseguir o corpo da minha irmã”, relata Deisy.
Não se sabe ao certo quantos corpos
ainda permanecem debaixo dos escombros. Neste domingo, Hernán José Paredes,
trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, tentava
quebrar o concreto para acessar uma possível vítima.
Ao seu lado, agentes do serviço
funerário venezuelano, vestidos com macacão de proteção descartável, aguardavam
a remoção de um corpo encontrado mais cedo.
Para José Paredes, que diz estar
trabalhando nas operações de busca e resgate desde o início da tragédia, os
trabalhos de remoção dos corpos podem durar meses. “Vai levar tempo. Aqui se
está retirando laje por laje.
Se a gente entrar com máquina, não vai
ser possível reconhecer os corpos”, disse o trabalhador que contou já ter
extraído nove corpos de vítimas da tragédia.
Nem todos os corpos localizados, no
entanto, são identificados pelas famílias das vítimas.
Na semana passada, os corpos de 40
crianças e adolescentes que estavam no necrotério improvisado montado em uma
zona portuária de La Guaira foram encaminhados ao Cemitério da Esperança, onde
foram sepultados junto a outras vítimas não identificadas.
Todas as lápides contêm informações que
podem ajudar possíveis familiares a reconhecer os corpos posteriormente.
O volume de escombros deixado pelos
terramotos de 24 de Junho em La Guaira chega a 2,1 milhões de toneladas,
segundo estimativa do ministro do Ecossocialismo, Nelson Rodríguez. A remoção e
o processamento desse material poderiam levar cerca de um ano.
“Estimamos que pode ser cerca de um ano
de trabalho, de classificação, de trituração, para reduzir o volume [dos
escombros]. Cada vez que trituramos reduzimos o volume em cerca de 80%. Fazemos
essa estimativa de um ano para poder acabar [todo o trabalho]”, afirmou
Rodríguez, em entrevista ao canal estatal VTV, na semana passada.
Segundo o ministro, em 57 dias de
operação, mais de 500 mil toneladas foram retiradas dos locais dos
desabamentos. Desse total, cerca de 40 mil foram trituradas. A operação recolhe
atualmente entre 280 e 300 toneladas de escombros por dia.
Onde as
operações de extração de vítimas já terminaram, resta o silêncio e montanhas de
concreto. A paisagem é irreconhecível.
Nas primeiras
semanas após os terramotos, esses locais eram ocupados por familiares em busca
de notícias, equipes de resgate e, depois, máquinas pesadas que retiravam os
escombros.
Com o fim das operações, também diminuiu
a presença de voluntários e de equipes de assistência. Muitos voluntários que
iam diariamente para essas áreas deixaram de aparecer. Até alguns pontos
administrados por agências da ONU, onde havia distribuição diária de alimentos,
foram desmobilizados.
Famílias
que vivem em regiões mais afastadas dos locais dos desabamentos caminhavam
todos os dias até os pontos de distribuição de alimentos. Desde os terramotos,
parte dos moradores está sem emprego e passou a depender das doações. Com a
redução da ajuda, a dificuldade agora é outra: encontrar o que comer. ANG/RFI