Peru/Centenas de peruanos são
atraídos por falsas ofertas de trabalho na Rússia e acabam na guerra na Ucrânia
Bissau, 12 Ago 26 (ANG) - A Rússia recruta soldados do
outro lado do mundo, inclusive na América Latina e muitas vezes atraídos por
falsas ofertas de emprego, esses imigrantes acabam nas trincheiras.
Mais de 400 peruanos foram recrutados pelo Exército
russo para lutar na Ucrânia.
À primeira vista, a oferta era
tentadora: empregos na Rússia como operário, agente de segurança ou cozinheiro,
com remuneração entre US$ 4 mil e US$ 5 mil (entre R$ 20 mil e R$ 25 mil na
cotação atual) e bónus que poderiam chegar a US$ 20 mil (mais de R$ 100 mil).
Para muitos jovens peruanos, a proposta
representava a chance de mudar de vida. No Peru, um trabalhador com menos de 25
anos ganha, em média, o equivalente a US$ 350 (R$ 1.800) por mês, segundo dados
oficiais de 2024.
“Tudo
foi feito pelo WhatsApp. Não foi presencial, não foi oficial”, relata Maria
Pachas, irmã de um peruano que foi para a Rússia, ao jornal El Comercio “Disseram-lhes
para não contar que iam para lá, mas sim que viajavam a lazer”, acrescenta.
Foi assim que a Rússia recrutou centenas de peruanos para enviá-los à frente de guerra. As denúncias das famílias desses jovens, presos na armadilha, mencionam intermediários que atuavam sob pseudónimos, como "Falcon" ou "Kraken", além de cidadãos mexicanos, colombianos e peruanos.
Uma vez no destino, veio a desilusão
para quem caiu na armadilha. Segundo relatos das famílias, foram confiscados
passaportes, documentos de identidade e celulares logo após obrigarem esses
cidadãos a assinar, sem tradução, um documento em russo.
“Disseram-lhes que todos fariam o
serviço militar obrigatório na Rússia. Meu marido não fala russo, mas
forçaram-no a assinar”, lamenta Yovana Muñoz, esposa de um dos peruanos
recrutados.
Algumas famílias chegam a mencionar
dívidas de US$ 16 mil ou US$ 20 mil referentes a supostos custos de mudança,
que os peruanos teriam de pagar por meio de seu serviço no Exército russo. As
famílias que prestam depoimentos no Peru, aliás, preferem manter o anonimato
por medo de represálias em território nacional.
Ainda assim, alguns conseguem, em raras
ocasiões, se comunicar com seus parentes. Na linha de frente, eles descrevem um
verdadeiro inferno, como relata Yovana Muñoz sobre o marido: “Atiraram nele e o
deixaram por morto. Ferido, ele caminhou até um pequeno centro de saúde na
Ucrânia. Ele me diz que quer voltar ao Peru, porque essa experiência foi uma
tortura.”
Segundo o Ministério das Relações
Exteriores do Peru, que acaba de obter o repatriamento de quatro cidadãos que
viajaram para a Rússia, essa armadilha já teria atingido cerca de 459 peruanos.
Entre eles, 11 teriam morrido, 114 estariam desaparecidos e três foram
capturados pelo Exército ucraniano.
A diplomacia peruana também publicou um
comunicado pedindo que a população não aceite ofertas de emprego no exterior
sem verificar a identidade do empregador, as condições contratuais e as funções
a serem exercidas.
Diante
dadimensão que esses recrutamentos vêm assumindo desde o início de 2026,
as famílias dos peruanos que partiram para a Rússia pedem ajuda ao Ministério
das Relações Exteriores para proteger seus parentes.
O caso também está sendo investigado como tráfico qualificado de pessoas. O Ministério da Justiça do Peru informou, em abril, que começou a oferecer apoio jurídico às famílias de cidadãos peruanos mortos ou feridos em zonas de conflito. ANG/RFI

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