Reino Unido/Referendo do
Brexit completa 10 anos, em meio a nova crise política no Reino Unido
Bissau, 23 Jun 26 (ANG) - A votação pela
saída do Reino Unido da União Europeia completa uma década nesta terça-feira
(23), em meio à renúncia de mais um primeiro-ministro britânico.
Dez anos depois, o cenário político
continua tumultuoso: o país teve seis chefes de governo nesse período.
Após a
vitória histórica dos trabalhistas em 2024, que marcou o retorno do partido ao
poder com a promessa de restaurar a normalidade Keit Starmer-hoje um dos
líderes mais impopulares do país- abre caminho para uma possível renovação
interna no partido.
O nome mais cotado para ocupar o cargo de
primeiro-ministro é o de Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, um político
carismático e que muitos acreditam estar mais alinhado aos problemas
enfrentados.
Ele é
apontado como único capaz de conter a ascendência do arquiteto do divórcio do
Reino Unido com a União Europeia, Nigel Farage, líder do Reform UK.
Farage
comanda o avanço da extrema direita e causa apreensão tanto em conservadores
moderados quanto em liberais, com a pauta anti-imigratória, que continua sendo o
ponto central da agenda política que motivou o Brexit.
Ainda
assim, uma pesquisa recente da consultoria Ipsos indica uma maudança de humor:
Quase 60% dos britânicos votariam hoje pelo retorno ao bloco europeu em um novo
referendo.
O sentimento é diferente entre residentes da
Inglaterra, do País de Gales e da Escócia. Uma pesquisa do YouGov indicou que
entre os escoceses a insatisfação com o Brexit sobe para 75%.
Durante o período em que vigorou o
acordo de livre circulação de mercadorias e pessoas, o número de europeus
vivendo no Reino Unido subiu substancialmente. Com a aprovação do Brexit – que
muita gente acreditou ser o preço a se pagar para erguer muros nas fronteiras e
melhorar a economia –, o número de imigrantes, no entanto, continuou a aumentar.
Sem os europeus, as universidades
passaram a recrutar estudantes internacionais de outras partes do mundo, muitos
deles acompanhados de suas famílias. O sistema público de saúde também
precisava – e ainda precisa – de mão de obra estrangeira para dar conta do
serviço.
O governo britânico concedeu vistos
humanitários a ucranianos e cidadãos de Hong Kong. Os conservadores apertaram
as regras de imigração, e o fluxo de entradas e saídas foi controlado, mas
esses dados não estão diretamente relacionados ao Brexit.
Conflitos ao redor do mundo, além das
crises climática e económica no pós-Covid, forçaram muitos migrantes sem
documentação, especialmente da África e da Ásia, a enfrentar a travessia
perigosa do Canal da Mancha em embarcações precárias, chegando à Inglaterra
para pedir asilo político.
Dez anos depois da votação, a questão
migratória continua a dividir o país e alimenta a ascensão do partido Reform
UK, de Nigel Farage.
A previsão pós-Brexit era catastrófica,
e é importante também levar em conta o impacto das guerras, da tarifação do
presidente norte-americano, Donald Trump, e da pandemia. O país não chegou a
mergulhar numa recessão, mas está mais pobre – ou menos rico – do que antes.
A economia encolheu cerca de 6%, segundo
o Banco Central da Inglaterra, enquanto os investimentos caíram 18%.
A União Europeia continua, de longe, a
ser o principal parceiro comercial do Reino Unido, embora agora em condições
menos favoráveis desde a saída do bloco, com barreiras alfandegárias,
exigências sanitárias e maior regulação.
A promessa de autonomia para negociar
com quem bem entendesse resultou em acordos de livre comércio com Índia,
Austrália e Nova Zelândia, do outro lado do mundo, mas não foi suficiente para
compensar a perda de dinamismo nas trocas com os vizinhos europeus.
Durante a última campanha eleitoral, que
levou à vitória histórica dos trabalhistas em 2024, e ao longo dos anos
recentes, a centro-esquerda do primeiro-ministro Keir Starmer evitou tocar no
tema do Brexit – em parte porque muitos de seus eleitores, sobretudo em cidades
pós-industriais, votaram pela saída do bloco.
Com o crescimento do partido Reform, de
Nigel Farage, Starmer passou a adotar um discurso mais duro sobre imigração e
chegou a afirmar que, sem controle das fronteiras, o Reino Unido se tornaria
uma “ilha de estranhos”.
A declaração gerou críticas, e o premiê
recuou – tarde demais. Uma parcela significativa dos eleitores trabalhistas,
decepcionados com políticas sociais consideradas mais alinhadas à direita,
migrou para o Partido Verde ou até mesmo para o Reform, de extrema direita, em
busca de algo novo.
Resta
saber qual será a política migratória adotada por seu possível sucessor, Andy
Burnham. Embora tenha se posicionado contra a saída do Reino Unido da União
Europeia, ele foi eleito em um reduto que votou a favor no referendo.
Com a
percepção crescente de que o Brexit foi um péssimo negócio para o país,o
governo britânico tem buscado uma reaproximação com a Europa continental.
Um exemplo concreto era a cúpula marcada
para 22 de julho, que deveria tentar fechar um novo acordo sanitário e um
programa de mobilidade para jovens voltarem a estudar e trabalhar entre o Reino
Unido e a União Europeia. Com a renúncia de Starmer, o encontro foi
temporariamente adiado, nesta terça-feira, até a confirmação do novo chefe de
governo britânico.ANG/RFI