França/Protestos estudantis se
tornam ‘movimento de violência urbana’, diz primeiro-ministro francês
Bissau, 16 Out 26 (ANG) -
O primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu afirmou nesta quinta-feira
(15) que a mobilização de estudantes do ensino médio na França estava se
transformando em um “movimento de violência urbana”.
Ele teme novos episódios
violentos durante as manifestações previstas para sábado (18), contra a alta do
custo de vida, convocadas por várias organizações.
Após várias semanas de mobilização e bloqueios nos
estabelecimentos de ensino, a violência se intensificou nos últimos dias, na
opinião do premiê.
“Tememos violência? Sim. Está claro que não conseguimos ter uma
manifestação neste país” sem que “movimentos violentos da ultraesquerda,
principalmente, e às vezes da ultradireita se infiltrem nos atos”, afirmou.
O premiê denunciou o que
considerou uma “incitação à violência absolutamente estarrecedora” em alguns
locais. Sébastien Lecornu mencionou, entre outros episódios, “disparos de
morteiros dentro de escolas” e “invasões”.
Segundo ele, esses atos
são um “insulto aos estudantes” que buscam expressar sua “angústia” e
“insatisfação” ou “fazer reivindicações”.
“Há um cansaço que paira
sobre o país”, disse o premiê, acrescentando que a França “vive uma espécie de
crise permanente, com guerras, incertezas sobre o poder de compra e inflação”.
Na opinião de Sébastien Lecornu, “alguns
movimentos políticos querem se apropriar desse cansaço para obter dividendos
eleitorais”, em uma alusão ao partido de esquerda radical França Insubmissa.
O governo acusa a legenda de
“instrumentalizar” o movimento dos estudantes do ensino médio.
Algumas escolas
francesas continuavam de portas fechadas nesta quinta. Segundo a Secretaria de
Segurança Pública, “cerca de 20 estudantes” da Faculdade de Administração HEC
(École des Hautes Études Commerciales), conhecida pelo seu elitismo, também
manifestaram apoio aos estudantes do ensino médio, em uma adesão considerada
inédita.
Na manhã desta quinta, o ministro da Educação, Édouard Geffray,
visitou o colégio Les Iris, em Lormont, perto de Bordeaux, no sudoeste do país,
depredado na quinta-feira passada. A visita foi marcada por um forte
dispositivo de segurança.
Os prejuízos foram estimados pela região em pelo menos € 250 mil
(cerca de R$ 1,4 milhão). “O diálogo existe e já produziu resultados, mas as
pessoas que fazem isso não passam de criminosos. Mantenham-se firmes!”,
declarou o ministro, antes de agradecer aos funcionários que “salvaram jovens”,
mas “também adultos”.
Nesta quinta, ele volta
a discutir com os representantes das organizações de estudantes do ensino médio
problemas que envolvem a infraestrutura escolar, a plataforma Parcursup de
acesso ao ensino superior e a carga horária.
O encontro é realizado
por videoconferência.
“Esperamos medidas concretas”, lembrou Pierre Sourzat,
representante da Les Lycéens!, lamentando ter recebido apenas “migalhas” até
agora.
Já o representante da Renouveau lycéen, Nathanaël Combary
(também filiado ao partido Renaissance, do presidente francês Emmanuel Macron),
havia comemorado “alguns avanços” após o último encontro no ministério.
Pouco depois da reunião anterior, na quinta-feira, 8 de Outubro,
foi anunciado a mudança de 3.000 professores efetivos substitutos, além da
contratação de temporários. “Dessas 3.000 pessoas, quase dois terços já foram
designados”, afirmou o ministro nesta quinta.
“Estamos nos organizando
para resolver a imensa maioria dos casos, especialmente nosestabelecimentos com
dificuldades específicas. Eram 114 na quinta-feira passada, 47 nesta manhã e,
normalmente, não haverá mais nenhum quando as aulas forem retomadas depois das
férias” [entre 17 de outubro e 2 de Novembro], afirmou.
O governo disse estar disposto a trabalhar no acompanhamento dos
estudantes durante o processo de orientação no ensino médio e em mudanças na
plataforma Parcoursup, mas se recusa a acabar com o sistema atual. Medidas
concretas “serão anunciadas até o fim de Outubro”, reiterou Édouard Geffray.
Várias cidades francesas continuam
registando protestos nesta quinta. Em Lyon e sua região metropolitana, 13
escolas e três universidades estavam bloqueadas. Em Toulouse, no sudoeste, as
manifestações também continuaram no colégio Berthelot.
Em Rennes, no norte do país, os
bloqueios continuavam no colégio Zola, onde um incêndio em uma lixeira foi
apagado no início da manhã na avenida Jean Janvier, em frente ao estabelecimento,
próximo ao centro da cidade.
Em
Tours, no centro-oeste, onde um estudante perdeu a visão de um olho no fim de
setembro durante as manifestações, as escolas de ensino médio permanecerão
fechadas até o recesso escolar, que começa no sábado.
Em Nancy, no nordeste, uma escola de
ensino médio foi fechada e seu diretor foi colocado sob proteção depois que
foram recebidas “ameaças de violência feitas por escrito”, segundo a reitoria.
Os diretores das escolas francesas
também foram convocados por seu principal sindicato a realizar nesta quinta uma
“operação portas fechadas”, que consiste em atender apenas situações urgentes
para demonstrar que estão “cansados”.
Iniciado em uma escola dos arredores de
Paris em 17 de setembro, o movimento dos estudantes do ensino médio se espalhou
pela França, com o apoio de organizações estudantis e sindicais.
Desde o início do movimento, um terço das
3.700 escolas de ensino médio francesas “nunca foi afetado” pelas mobilizações,
segundo Édouard Geffray nesta quarta-feira.
O sindicato policial Alliance anunciou
na noite de quarta-feira que apresentará “uma queixa contra o Estado por
colocar em risco a vida de terceiros”.
A entidade denuncia “ordens
contraditórias” dadas aos policiais, que estariam “expostos à violência e
entregues à condenação pública” no contexto do movimento estudantil.
Desde o início dos protestos, “quase
900” policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior, assim como
mais de 200 estudantes do ensino médio e quase 150 funcionários da Educação. A
corregedoria da polícia abriu 36 investigações, quatro delas relacionadas a
“ferimentos mutilantes” e seis a “ferimentos significativos”.
O
governo aposta nas férias escolares para provocar a perda de força do
movimento, mas organizações de jovens convocaram seus integrantes a participar,
no sábado (13), da mobilização, que também terá a participação dos coletes
amarelos.
O movimento social que tomou conta da
França em 2018 e 2019 anunciou cerca de mil ações para sábado contra o alto
custo de vida, com o objetivo de “retomar as ruas”. Há semanas circulavam nas
redes sociais convocações para que os coletes amarelos, vestimenta que se
tornou símbolo do movimento surgido após a chegada do presidente Emmanuel
Macron ao poder, voltassem às ruas em 17 de Outubro.
Essa possível “convergência das lutas”,
temida pelas autoridades, ocorre em meio a fortes tensões sociais no país, com
a inflação em 3,1% nos 12 meses encerrados em Setembro, o maior nível desde Janeiro
de 2024, e com a queda do poder aquisitivo.
Um grupo na internet intitulado
“amarelos e jovens” convoca “coletes amarelos, geração Z, indignados,
agricultores, bombeiros, operários, professores, profissionais da saúde,
defensores do clima, moradores de bairros populares e aposentados” a unir suas
reivindicações.
“Não
houve uma articulação prévia com as outras lideranças para convocar a
manifestação, mas todos tivemos a mesma reação ao ver a violência policial
contra estudantes do ensino médio”, afirmou François Boulo, um dos representantes
dos coletes amarelos que convidam a população a protestar no sábado, assim como
outros nomes conhecidos do movimento, entre eles Jérôme Rodrigues, Priscillia
Ludosky e Maxime Nicolle.
No sábado, estão previstas manifestações
e bloqueios em cidades, barreiras que permitem apenas a passagem parcial de
veículos e concentrações em rotatórias, pontes, postos de combustível,
pedágios, estações ferroviárias, refinarias e depósitos de petróleo. Um mapa
registava, na manhã desta quinta-feira, mais de 1.000 ações em toda a França.
As autoridades, que esperam movimentos
sociais até a eleição presidencial, destacam o caráter bastante heterogéneo da
mobilização, mas contam com uma participação menor dos jovens devido ao início
das férias escolares.
ANG/RFI/Com agências