EUA/Como o acordo bilionário da
Meta vai mexer com a rotina online de adolescentes
Bissau, 27 Ago 26 (ANG) - O grupo Meta, dona do
Instagram e do Facebook, concordou em pagar mais de US$ 17 bilhões em indemnizações
financeiras, após ter sido acusado por quase 30 estados americanos em defesa da
saúde mental dos adolescentes.
O grupo afirma estar empenhado em mudar a sua
estratégia digital nos Estados Unidos, que consiste em captar a atenção dos
mais jovens e mantê-los nas plataformas o maior tempo possível.
O
acordo concluído na quarta-feira (26) com 51 estados e territórios
americanos visa enfrentar o vício dos jovens em redes sociais. Os principais
resultados dos processos entrarão em vigor apenas nessas jurisdições, após
serem validados por um juiz federal.
Vários
dispositivos de proteção, solicitados por profissionais de saúde, passarão a
ser adotados. Dentro de seis meses, as contas de jovens de 13 a 17 anos nos
territórios em questão serão bloqueadas da meia-noite às 6h (hora local), à
exceção das mensagens.
As
notificações serão silenciadas das 22h às 7h e durante o horário escolar.
Os adolescentes terão um limite de uso
de duas horas por dia no Instagram e no Facebook combinados. Mensagens e vídeos
longos, de pelo menos 22 minutos, não contam.
Filtros que imitam cirurgia estética
serão banidos e um feed não personalizado pelo algoritmo será oferecido em até
quatro meses. De acordo com a Meta, os adolescentes americanos passam em média
uma hora por dia no Instagram.
Se tivesse que escolher uma das medidas
planejadas pela Meta, Darja Djordjevic, psiquiatra e especialista em interações
em mídias digitais em Stanford, escolheria a de curtidas em publicações de
adolescentes. O Instagram irá desativar este sistema de validação para menores
de 18 anos, que tem efeitos profundos.
“Elas criam muita insegurança e
ansiedade, ligada à validação nas redes sociais das suas fotos e dos seus
comentários”, explica Darja Djordjevic. A psiquiatra ressalta que as curtidas –
ou não – também provocam depressão. “Eles estão sempre se comparando com os
outros e isso leva a efeitos depressivos.”
Darja Djordjevic insiste ainda na importância
de o feed ser preenchido com conteúdos adaptados à idade dos utilizadores –
medida que a Meta se recusa a tomar. “Precisamos muito moderar o algoritmo, que
deve ser muito diferente para um utilizador de 12 anos em relação ao
de um utilizador de 25 anos”, insiste a psiquiatra.
A Meta também tem um ano para
implementar um sistema de verificação de idade. Uma nova conta sem verificação
de idade após 14 dias será tratada como uma conta de adolescente.
Para menores de 13 anos, banidos da
plataforma por lei federal, a Meta deve presumir que a conta denunciada é de
criança, salvo prova em contrário, e desenvolver um modelo de detecção dentro
de um ano. A questão de saber se a Meta violou esta lei permanece sem
resposta: o acordo é “agnóstico” neste ponto, reconheceram os Estados na
audiência.
Este acordo se aplica apenas aos Estados
Unidos e, esclareceu a Meta, não afeta em nada outros lugares. Tampouco
cobre as milhares de reclamações de famílias e distritos escolares no Novo
México e na Flórida, que continuam com seus processos.
A decisão agora coloca sob pressão os
principais concorrentes da Meta: Snap, TikTok e YouTube. Se eles se submeterem
às mesmas obrigações – por acordo ou por lei, estado por estado –, o bloqueio
noturno se estenderá das 22h às 7h e o limite diário cairá para uma hora por
aplicativo, durante dez anos em vez de cinco.
Dos US$ 17 bilhões que a Meta está
disposta a pagar para encerrar os processos, US$ 5 bilhões dependem destes
“atores-chave da indústria” se alinharem pelo menos com os compromissos
assumidos pelo Facebook e o Instagram. Da mesma forma, restrições adicionais
para jovens de 13 a 17 anos (uma hora por dia por aplicativo) só entrarão em
vigor se seus concorrentes também as adotarem.
A pressão judicial é óbvia: “Tivemos
discussões com o TikTok sobre a nossa queixa”, disse um dos líderes da
coligação de estados, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, à imprensa
na quarta-feira. “Também temos mantido contato com outros membros da indústria,
mas não quero falar sobre o conteúdo”, limitou-se a dizer.
“Espero que Snapchat, TikTok e YouTube
leiam os sinais e cheguem a acordos semelhantes”, comentou a procuradora-geral
do Havaí, Anne Lopez.
A Meta, alvo número 1 no vasto litígio
contra as redes sociais nos Estados Unidos, exige agora que os seus
concorrentes sigam o seu exemplo: este quadro “só funcionará se todos os nossos
pares se juntarem a nós”, afirmou o seu diretor jurídico, C.J. Mahoney, pedindo
para o TikTok e o YouTube que o apliquem “sem demora”.
A investigação mostra, segundo Darja
Djordjevic, que as redes sociais também podem ser benéficas para os laços
sociais, mas desde que os utilizadores e as suas famílias assumam o controle.
ANG/RFI