China/Trump conclui visita sem avanços concretos no Golfo e mantém
pressão por acordo com o Irã
Bissau, 15 Mai 26 (ANG) - Ao encerrar uma visita de
dois dias a Pequim nesta sexta-feira (15), o presidente norte-americano, Donald
Trump, elevou o tom contra o Irã e disse estar “perdendo a paciência” com o
impasse nas negociações.
A declaração sintetiza o encontro com Xi Jinping:
embora EUA e China tenham alinhado posições mínimas sobre temas sensíveis, o
conflito no Golfo segue sem solução clara e com efeitos crescentes sobre a
economia, apesar dos acordos comerciais bilaterais robustos que Trump afirma
ter obtido.
“É uma visita histórica que ficará marcada”,
declarou Xi Jinping no segundo dia do giro de Donald Trump à China, nesta
sexta-feira (15). “Firmamos acordos comerciais excelentes, muito positivos para
os dois países”, disse Trump, sem dar mais detalhes, durante um novo encontro
com o presidente chinês em Zhongnanhai, complexo que abriga a cúpula do poder
na China, perto da Cidade Proibida, vasto complexo de palácios localizado
no centro de Pequim.
O presidente norte-americano deixou a
capital chinesa nesta sexta-feira no início da manhã.
Do lado chinês, Xi Jinping saudou a
criação, entre as duas potências rivais, de uma nova relação de
"estabilidade estratégica construtiva", tornada pública pelos
chineses na véspera, no primeiro dia da cúpula entre China e Estados Unidos.
Donald Trump afirma ter obtido vários
compromissos económicos importantes por parte da China.
O presidente norte-americano menciona,
entre eles, uma encomenda de 200 aviões Boeing de grande porte — a primeira
desse nível em quase dez anos —, embora menor do que a compra de 500 aeronaves
de corredor único 737 MAX e cerca de 100 aviões de grande porte (787 Dreamliner
e 777) mencionada pela imprensa há meses, além do aumento das aquisições
chinesas de soja, carne bovina, petróleo e outros produtos agrícolas dos
Estados Unidos.
Washington afirma que há negociações em
estágio avançado para ampliar o comércio de produtos sem caráter estratégico,
com potencial de alcançar várias dezenas de bilhões de dólares.
A
ideia é retomar e ampliar as trocas em áreas menos sensíveis, deixando de lado
setores onde há disputa tecnológica e militar mais acirrada. Ao mesmo tempo,
Estados Unidos e China tentam criar mecanismos para evitar uma nova escalada
comercial, após meses de tensões tarifárias.
Ainda
assim, um tema segue especialmente delicado: o das terras raras. Os
Estados Unidos reconhecem que houve avanço nas exportações chinesas desses
minerais estratégicos — fundamentais para baterias, semicondutores e a
indústria de defesa —, embora Pequim continue retardando a liberação de algumas
licenças.
Segundo
Trump, houve entendimento com o líder chinês de que Teerã não pode
desenvolver arma nuclear e precisa restabelecer a livre navegação no Estreito
de Ormuz, ponto estratégico por onde passa uma parcela expressiva do
petróleo consumido no mundo.
A crise
no local, agravada após ataques iniciados no fim de Fevereiro, praticamente
interrompeu o tráfego marítimo e provocou uma das maiores desorganizações
recentes no fornecimento global de energia.
A
convergência entre Washington e Pequim, no entanto, se limita a objetivos
gerais.A China evitou comentar diretaente o teor das conversas, mas deixou
claro seu desconforto com a escalada militar.
Em nota
oficial, o governo chinês afirmou que o conflito “não deveria ter ocorrido” e
que sua continuidade é injustificável — posição que reforça a aposta de Pequim
em uma saída negociada.
Apesar
disso, há sinais de acomodação estratégica. De acordo com a Casa Branca,Xi
Jinping se comprometeu a não fornecer equipamentos militares ao Irã e
demonstrou interesse em ampliar a compra de petróleo norte-americano. O
movimento é interpretado como uma tentativa de reduzir a dependência chinesa do
Estreito de Ormuz, hoje sujeito a interrupções e ameaças recorrentes.
Enquanto
as potências tentam preservar canais de diálogo, o cenário no Golfo segue
volátil. Um episódio recente — o ataque a um navio indiano transportando gado,
atingido nas proximidades deOmã e posteriormente desviado para território
iraniano — ilustra o nível de risco na região. Relatos de segurança marítima
indicam o uso de míssil ou drone, além da atuação de pessoas não autorizadas
que assumiram o controle da embarcação.
O
ambiente de insegurança alimenta o temor de novas interrupções no comércio
global de energia e pressiona governos a buscar rotas alternativas. Nos
Emirados Árabes Unidos, autoridades aceleraram planos para expandir a
capacidade de exportação por meio de um oleoduto ligado ao terminal de
Fujairah, fora da área crítica do estreito.
Os impactos económicos já são visíveis.
Mercados financeiros reagem com queda nas bolsas europeias e alta nos
rendimentos de títulos públicos, refletindo a expectativa de inflação mais
elevada. Investidores avaliam que o encarecimento da energia e a instabilidade
geopolítica podem forçar bancos centrais a adotar uma política monetária mais
dura.
Na Alemanha, maior economia da Europa, o
governo projeta uma desaceleração mais forte no segundo trimestre, depois de um
crescimento modesto no início do ano. O diagnóstico oficial aponta uma
combinação de preços mais altos, gargalos de abastecimento e perda de confiança
de empresas e consumidores.
No mercado de petróleo, a tendência é de
alta. A combinação entre oferta ameaçada e tensão geopolítica sustenta os
preços e reforça a percepção de risco prolongado. Ainda que o Irã sustente que
parte do fluxo marítimo foi mantida, o histórico recente de ataques e
apreensões mantém a cautela entre operadores.
No plano diplomático, cresce a pressão
internacional por um acordo. A China defende um cessar-fogo duradouro e atua
como possível mediadora indireta, enquanto os Estados Unidos endurecem o
discurso. Trump sinaliza menor disposição para concessões e cobra avanços
rápidos nas negociações, que contam com intermediação do Paquistão, mas seguem
travadas.
Ao mesmo tempo, o presidente
norte-americano relativizou pontos centrais do contencioso nuclear, sugerindo
que a recuperação do eventual estoque de urânio enriquecido iraniano teria mais
valor político do que impacto efetivo sobre a segurança — uma declaração que
indica margem para barganha, apesar do tom rígido adotado publicamente.
A crise
também se desdobra em outras frentes regionais. O Irã pressiona pelo encerramento definitivo dos
combates no Líbano, onde Israel mantém operações militares mesmo após o anúncio
de uma trégua paralela. Conversas recentes em Washington entre representantes
israelenses e libaneses foram classificadas como construtivas, mas ainda sem
resultados concretos.
Ao fim da passagem de Trump por Pequim,
o quadro que se desenha é o de uma tentativa de coordenação entre as duas
maiores potências globais diante de uma crise que afeta simultaneamente
segurança, energia e economia. Sem avanços decisivos, porém, o risco é de
prolongamento da instabilidade, com efeitos cada vez mais amplos e difíceis de
conter. ANG/RFI/ AFP