Suíça/OMS critica ofensiva de Trump
contra vacinas e alerta para riscos a crianças nos EUA
Bissau, 12 Ago 26 (ANG) - A Organização Mundial da Saúde
(OMS) manifestou preocupação nesta quarta-feira (12) com a nova ofensiva do
presidente dos EUA, Donald Trump, contra as recomendações vacinais adotadas há
décadas no país.
Em meio ao maior surto de sarampo registado em 35 anos
em território norte-americano, a entidade afirmou que as mudanças anunciadas
pela Casa Branca não se baseiam em evidências científicas consolidadas e
alertou que o adiamento das doses pode deixar milhões de crianças
desprotegidas.
A Organização Mundial da Saúde elevou o
tom nesta quarta-feira (12) contra as novas recomendações sobre vacinação
anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
A agência das Nações Unidas afirmou que
as alterações defendidas pelo governo norte-americano não estão alinhadas com o
conhecimento científico acumulado ao longo de décadas e podem comprometer a
proteção de crianças contra doenças evitáveis.
A reação ocorreu dois dias depois de
Trump assinar um decreto que propõe mudanças na forma como vacinas infantis são
administradas.
O texto recomenda, entre outras medidas,
ampliar o intervalo entre determinadas aplicações e separar imunizantes que
atualmente são oferecidos de forma combinada.
Ao
apresentar a medida na segunda-feira (10), o presidente voltou a mencionar o
autismo, tema frequentemente associado por setores antivacina à imunização
infantil, apesar da ausência de evidências científicas que sustentem essa
relação.
Para o diretor-geral da OMS, Tedros
Adhanom Ghebreyesus, decisões sobre vacinação devem permanecer ancoradas em
avaliações técnicas independentes. Em mensagem publicada na rede social X, ele
afirmou que políticas públicas nessa área precisam ser definidas a partir das
melhores evidências disponíveis, e não de considerações políticas.
Segundo Tedros, os calendários vacinais
atualmente adotados por diversos países são resultado de décadas de pesquisa,
monitoramento epidemiológico e revisão permanente de dados obtidos em
diferentes regiões do mundo.
Esses estudos, ressaltou o dirigente,
indicam com precisão os períodos em que as crianças estão mais vulneráveis a
determinadas doenças, os momentos em que as vacinas oferecem proteção mais
eficaz, a quantidade de doses necessária e quais imunizantes podem ser
administrados simultaneamente com segurança.
Um dos principais pontos de atrito entre
a comunidade científica e integrantes do governo Trump diz respeito à
associação entre vacinas e autismo.
Tedros reafirmou que as evidências
científicas disponíveis são inequívocas ao demonstrar a segurança dos
imunizantes, incluindo a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo,
caxumba e rubéola. Segundo ele, não existe relação causal entre a vacinação e o
desenvolvimento do transtorno.
A OMS já havia abordado a questão em
diversas ocasiões nos últimos anos.
Grandes estudos epidemiológicos
realizados em diferentes países tampouco identificaram ligação entre vacinas e
autismo, conclusão compartilhada pelas principais instituições médicas e
científicas do mundo.
Apesar disso, Trump e o secretário de
Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., seguem sugerindo que a hipótese merece
novas investigações.
Kennedy assumiu o comando do
Departamento de Saúde carregando um histórico de críticas aos programas de
imunização.
Desde que chegou ao cargo, promoveu uma
ampla revisão das políticas vacinais do país, incluindo imunizantes utilizados
há décadas e considerados fundamentais pelos órgãos de saúde pública.
As iniciativas incluem alterações no
calendário de vacinação infantil e cortes de financiamento para pesquisas
voltadas ao desenvolvimento de novos imunizantes.
As medidas provocaram forte reação de
associações médicas, pesquisadores e especialistas em saúde pública, que acusam
o governo de enfraquecer estratégias historicamente responsáveis pela redução
da mortalidade infantil.
As
discussões sobre vacinação ganham peso adicional porque ocorrem em um momento
particularmente delicado para os EUA.
O país
enfrenta atualmente seu pior surto de sarampo em 35 anos, fenómeno que
especialistas associam à queda da cobertura vacinal observada em diferentes
estados nos últimos anos.
Nesse contexto, o decreto assinado por
Trump recomenda especificamente que as vacinas contra sarampo, caxumba e
rubéola deixem de ser aplicadas em uma única injeção, prática amplamente
adotada por autoridades sanitárias internacionais. A proposta é que elas sejam
administradas separadamente.
Embora o texto tenha forte peso
político, o governo federal não possui autoridade para impor diretamente mudanças
nos programas estaduais de vacinação.
Na prática, a Casa Branca orienta os
estados a reverem suas exigências de imunização para matrícula e frequência de
estudantes em escolas.
O momento também é simbólico porque a
medida foi anunciada justamente quando milhões de crianças se preparam para
retornar às salas de aula após as férias de verão no hemisfério norte.
A disputa em torno da vacinação já havia
alcançado os tribunais anteriormente. Mais cedo neste ano, a Justiça
norte-americana suspendeu uma reformulação da política vacinal conduzida por
Robert F. Kennedy Jr., impondo limites à implementação de mudanças defendidas
pelo secretário de Saúde.
Ao mesmo tempo em que criticou o novo
direcionamento adotado pelo governo norte-americano, a OMS procurou transmitir
uma mensagem de tranquilidade às famílias.
Tedros afirmou que a preocupação dos
pais com a segurança dos filhos é legítima, mas ressaltou que a vacinação
continua sendo uma das ferramentas mais eficazes já desenvolvidas para prevenir
doenças graves e mortes evitáveis.
"O objetivo de todos os pais é
manter seus filhos em segurança, e as vacinas estão entre os instrumentos mais
poderosos para alcançar isso, ajudando a evitar doenças potencialmente
fatais", escreveu o diretor-geral da organização.
A declaração evidencia a crescente
distância entre as recomendações defendidas pela OMS e o rumo adotado pela
atual administração norte-americana. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, a
relação entre Washington e organismos multilaterais de saúde tornou-se mais
tensa, incluindo a decisão do presidente de retirar os EUA da organização.
Para a entidade, entretanto, a discussão
sobre vacinas permanece uma questão essencialmente científica.
Diante do avanço do sarampo e da
persistência de dúvidas alimentadas por movimentos antivacina, a OMS deixou
claro que pretende continuar defendendo os protocolos construídos a partir das
evidências acumuladas pela pesquisa médica internacional. ANG/RFI/AFP