EUA/ Onda de demissões no governo
Trump
Bissau, 06 Abr 26 (ANG) - Uma nova onda de demissões
abala o governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
Frequentemente motivada pelo desejo de vingança
pessoal do presidente americano, a saída de colaboradores faz parte de uma
campanha ideológica mais ampla para remover dos corredores do poder aqueles que
não aderem suficientemente ao projeto “MAGA" (Make America Great Again).
Depois
de Kristi Noem, Pam Bondi é a segunda figura proeminente do círculo íntimo do
presidente a cair. A procuradora-geral, equivalente à ministra da Justiça, foi
definitivamente demitida em 2 de abril. Criticada por sua atuação no caso
Jeffrey Epstein e incapaz de processar os opositores políticos indicados
por Donald Trump, ela se soma a uma longa lista de pessoas demitidas pelo
presidente americano.
Antes de Trump, seus antecessores também
realizaram demissões estratégicas, mas o bilionário levou essa prática ao
extremo, instaurando um sistema de clientelismo que visa substituir
os funcionários que deixam o cargo por apoiadores alinhados à sua
ideologia, observa Gabriel Solans, pesquisador em civilização americana na
Universidade Paris Cité.
Eleito pela primeira vez graças à imagem
de empresário dinâmico, Donald Trump não causou estranheza ao promover
demissões políticas. Neste segundo mandato, entretanto, ele “está muito mais
bem preparado”, salienta Gabriel Solans. “Há um desejo de vingar a
derrota de 2020, de se vingar totalmente dos democratas e daqueles dentro do
governo que possam não atender às suas exigências.”
As represálias começaram muito cedo. Já
em janeiro de 2025, Donald Trump mal havia assumido o cargo
quando demitiu mais de 10 advogados do Departamento de Justiça (DOJ), por
terem trabalhado com o ex-promotor Jack Smith em dois casos criminais contra
ele: um relacionado a suspeitas de uso indevido de documentos confidenciais e o
outro referente à sua suposta tentativa de reverter a derrota nas eleições de
2020.
Rapidamente, os funcionários do
Departamento de Justiça compreenderam que era melhor evitar controvérsias se
quisessem se manter no cargo após o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
As demissões de advogados continuaram
nos meses seguintes, sem que nenhuma razão clara fosse dada, e se estenderam ao
FBI, onde dezenas de agentes foram demitidos entre 2025 e 2026. Em fevereiro de
2026, a agência, chefiada por um leal apoiador de Trump, Kash Patel, anunciou a
saída de 12 agentes. Todos haviam investigado o caso dos documentos
confidenciais, segundo a BBC.
As demissões foram possíveis graças à
nomeação, para chefiar essas instituições, de "pessoas subservientes à sua
vontade, à sua agenda de vingança contra os democratas, que poderiam levar
adiante uma vingança politizando o Departamento de Justiça e o FBI",
afirma Gabriel Solans.
Apesar de toda a sua lealdade, Pam Bondi
não foi poupada. Atacada por sua gestão dos arquivos Epstein – muitos dos quais
foram publicados com erros de redação que revelaram os nomes de diversas
vítimas –, a chefe do Departamento de Justiça também acabou despedida. O
presidente também não escondeu a irritação com a falta de processos movidos
pelo Departamento de Justiça contra aqueles que ele considerava oponentes
políticos, revela a CBS.
A chefe do Departamento de Segurança
Interna (DHS), Kristi Noem, perdeu seu cargo um mês antes, em 5 de março. A
ex-governadora da Dakota do Sul já vinha sendo alvo de críticas internas há
algum tempo, segundo o Politico, principalmente em relação à gestão
controversa dos fundos do DHS.
Suas
declarações sobre Renée Good e Alex Pretti, assassinados por agentes do
ICE em Minneapolis, a quem ela chamou de “terroristas”, afetaram
profundamente a opinião pública. Uma audiência no Congresso, em 4 de março,
sobre sua gestão do Departamento de Segurança Interna selou seu destino
político.
Com a saída dela, Donald Trump está
pagando o preço por seu desejo de consolidar sua autoridade em todos os níveis
do governo, sem levar em consideração as qualificações das pessoas que escolhe.
Isso ficou evidente no recente ataque de hackers a uma das contas de e-mail de
Kash Patel.
As
demissões de funcionários considerados não alinhados ao movimento
MAGA atingem também as Forças Armadas. Nenhuma razão oficial foi dada
para a saída, na sexta-feira (3), do chefe do Estado-Maior do Exército, Randy
George, pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth.
A
decisão teria sido motivada pelo desejo de colocar alguém nessa posição
"capaz de implementar a visão do presidente Trump" e a do secretário
da Defesa, segundo a CBS.
O caso de Randy George se destaca porque
"a maioria das demissões de oficiais de alta patente ou das recusas de
promoção que ocorreram envolveram mulheres ou afroamericanos",
observa Tama Varma, pesquisadora da Brookings Institution em Washington, em
entrevista à RFI.
As demissões em massa afetaram
frequentemente oficiais militares mulheres de alta patente, como a
vice-almirante Shoshana Chatfield, a almirante Lisa Franchetti e a
comandante da Guarda Costeira Linda L. Fagan, dispensada menos de 24 horas após
o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em fevereiro de 2025, o chefe do
Estado-Maior Conjunto, Charles Q. Brown, um defensor da diversidade nas Forças
Armadas, considerado "progressista demais" por Pete Hegseth, também
foi removido do cargo.
Gabriel Solans vê essas demissões como
"uma mistura de extrema suspeita em relação a qualquer pessoa que possa
não estar implementando a agenda de Donald Trump, que possa representar
uma ameaça, e ideologia". A caça ao “wokismo" foi teorizada pela
Heritage Foundation, um think tank conservador radical que vem influenciando
Donald Trump desde sua derrota em 2020.
Antes da eleição presidencial de 2024, o
grupo elaborou um documento de mais de 900 páginas, o "Projeto 2025",
que serviria como um guia para o líder do MAGA, uma vez eleito. Seus leitores
descobriram que "inúmeras ferramentas executivas podem ser usadas por um
presidente conservador corajoso para [...] neutralizar e desmantelar os
guerreiros culturais woke que se infiltraram em todas as instituições
americanas".
Os autores também propõem explicar
"como demitir funcionários federais considerados 'irremovíveis'; como
fechar escritórios e departamentos corruptos e ineficientes" e "como
silenciar a propaganda woke em todos os níveis de governo".
Todas essas propostas foram
implementadas, pelo menos em parte, pela equipe presidencial desde que assumiu
o cargo. Mesmo antes do retorno de Donald Trump a Washington, sua equipe já
planejava ampliar o número de cargos dos quais um funcionário público poderia
ser demitido da noite para o dia, explica Gabriel Solans.
”Já existiam listas, compiladas por think
tanks, de pessoas consideradas pouco propensas a seguir a agenda de
Trump", acrescenta o pesquisador. ANG/RFI