Vaticano/Argélia, Camarões, Angola,
Guiné Equatorial: a primeira viagem do Papa Leão XIV a África
Bissau, 13 Abr 26 (ANG) - O Papa Leão XIV efectua, de 13 a 23 de
Abril, a sua primeira grande digressão internacional por quatro países de
África: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Diálogo com o islão, paz, respeito pelos recursos
naturais, combate às desigualdades, direitos humanos: a viagem, muito
aguardada, abordará temas variados, num contexto internacional marcado pela
guerra no Médio Oriente, onde a Santa Sé tenta influenciar a cena diplomática.
Com cerca de 18.000 quilómetros, 11
discursos, sete missas e uma dezena de cidades visitadas, esta digressão a um
ritmo frenético tem contornos de maratona para o Papa norte-americano de 70
anos.
África é o continente que regista o
maior crescimento de católicos no mundo, com 280 milhões de fiéis e uma forte
dinâmica espiritual. Mas a Igreja Católica enfrenta a concorrência das igrejas
pentecostais e de evangélicas. Trata-se de um continente rico em recursos
naturais, marcado por tensões e desigualdades políticas e económicas. Um tema
caro a Leão XIV, muito ligado à justiça social.
Em primeiro lugar, a Argélia (13-15 de Abril), um país 99%
muçulmano que recebe um Papa pela primeira vez. Leão XIV irá encontrar-se com a
pequena comunidade católica do país.
O diálogo inter-religioso estará no
centro desta etapa: Leão XIV visitará, nomeadamente, a Grande Mesquita de
Argel, prestará homenagem a figuras da memória argelina e reunir-se-á com o
presidente Abdelmadjid Tebboune.
Leão XIV deslocar-se-á também a Annaba
(leste), antiga Hipona, nos passos de Santo Agostinho, grande pensador da
cristandade cujo legado espiritual alimenta o seu pontificado.
O Sumo Pontífice vai, igualmente,
recolher-se em privado na capela dos 19 “mártires da Argélia”, padres e
religiosas assassinados durante a guerra civil (1992-2002), nomeadamente os
monges de Tibhirine.
Em entrevista
à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de
Saurimo (leste de Angola) e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São
Tomé e Príncipe (CEAST), sublinhou que a Igreja Católica assume uma dimensão
universal e inclusiva. “A Igreja Católica é universal. A Igreja Católica é para todos e está
aberta a todos”, destacando que o diálogo entre religiões faz parte da
própria identidade da Igreja: “este diálogo inter-religioso é um caminho que a
Igreja nunca desperdiçou e nunca pôs de lado”.
A visita à Argélia ganha, segundo o
arcebispo de Saurimo, um significado adicional pela ligação histórica e
espiritual a Santo Agostinho de Hipona, figura central do pensamento cristão e
referência para a ordem agostiniana a que o Papa pertence. “É uma das cidades
que o Papa logicamente visitará para realimentar-se da espiritualidade daquele
santo e assim poder animar o seu pastoreio”.
Para Dom José Manuel Imbamba, esta
ligação histórica reforça a dimensão espiritual da deslocação e sublinha a
continuidade da tradição cristã no território argelino. Ao mesmo tempo, a
presença do Papa num país de maioria muçulmana é vista como um gesto de
abertura e aproximação entre religiões. “A Igreja não esquece as minorias. A Igreja
está sempre pelas minorias, pelos mais desfavorecidos”.
Nos Camarões (15-18 de Abril), país bilingue e multiconfessional de
maioria cristã, que já recebeu três visitas papais, o Papa Leão XIV coloca a
sua viagem pastoral sob o signo da paz e da reconciliação, sobretudo em
Bamenda, uma das regiões anglófonas onde o conflito entre separatistas e o
Estado dura há 10 anos.
A etapa mais simbólica terá lugar a 16
de Abril, com a deslocação sob forte segurança a Bamenda, onde Leão XIV irà
proferir um discurso e celebrar uma missa.
Neste país onde cerca de 37% dos 30
milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e
gere uma vasta rede de hospitais, escolas e obras de caridade, uma alavanca de
influência que a Santa Sé pretende consolidar.
Antes de celebrar uma missa no estádio
de Douala, capital económica, bem como na capital Yaoundé, Leão XIV será
recebido pelo presidente Paul Biya, de 93 anos, um dos mais antigos chefes de
Estado do mundo.
O clero camaronês, que goza de alguma
influência na cena política, tem-se mostrado por vezes muito crítico em relação
ao presidente, no poder desde 1982.
Em Angola (18-21 de Abril), país lusófono onde o catolicismo está
profundamente enraizado, a visita deverá pôr em evidência as temáticas sociais
defendidas por Leão XIV: um país rico em petróleo e minerais, mas marcado por
profundas desigualdades, onde cerca de um terço da população vive abaixo do
limiar internacional de pobreza. Leão XIV deverá insistir na gestão equitativa
dos recursos e no combate à corrupção.
O Papa deslocar-se-á à capital Luanda,
nas margens do Oceano Atlântico, símbolo de contrastes onde coexistem bairros
de luxo e bairros de lata, bem como ao santuário mariano de Muxima, principal
local de peregrinação nacional, e ainda a Saurimo (leste).
Em entrevista
à RFI, o analista político Osvaldo Mboco,
sublinha que a deslocação do Papa Leão XIV a Angola, com passagem por Saurimo,
leste do país, é vista como um momento de forte simbolismo social e político,
para além da dimensão religiosa.
“Nós sabemos que a Igreja tem um papel muito
importante, que é primeiro, da pacificação dos espíritos e também um papel
importante na defesa dos pobres e dos oprimidos.”
A visita do Papa surge, assim, como uma
oportunidade para reforçar essa missão, sobretudo em territórios onde o
desenvolvimento económico não se traduz necessariamente em melhores condições
de vida para as populações. “É claro que o nível de desenvolvimento de Saurimo inspira cuidado e que
nos remete a uma reflexão da necessidade de continuarmos a trabalhar”,
afirmou.
Segundo Osvaldo Mboco, este problema não
é isolado. “Esta
realidade não é simplesmente ao nível de Saurimo, mas também em outras
províncias, como Cabinda, por exemplo, que é uma das localidades onde mais se
extrai petróleo”.
Para o analista, a presença do Papa
nestas zonas tem também um significado político e institucional. “A ida do Papa à
Saurimo, para além da comunidade católica que lá reside, também passa essa
mensagem da necessidade de melhor se trabalhar e melhor se estabelecer algumas
metas para o desenvolvimento e crescimento dessa mesma província.”
Por fim, na Guiné Equatorial (21-23 de Abril), que conta com cerca de 90% de
católicos, o Papa pretende apoiar os fiéis sem, no entanto, legitimar o regime
autoritário e repressivo no poder desde 1979.
Quarenta e quatro anos depois, Leão XIV
seguirá os passos de João Paulo II, o único Papa a ter pisado o solo deste
pequeno país da África Central, governado por Teodoro Obiang Nguema. Aqui o
Papa terá de manter um equilíbrio delicado: apoiar os fiéis sem, contudo, ser
visto como um apoio ao regime, frequentemente acusado de derivas autoritárias.
Na antiga capital Malabo, na ilha de
Bioko, Leão XIV encontrará representantes do mundo da cultura, bem como pessoal
e doentes de um hospital psiquiátrico. Deslocar-se-á igualmente ao reduto natal
do presidente Obiang, em Mongomo (leste).ANG/RFI