A resolução, que defende o fim do “bloqueio económico, comercial e
financeiro” a Havana, contou com 130 votos a favor (incluindo de Portugal), 30
contra e 25 abstenções, o apoio mais baixo de sempre apesar da aprovação clara.
Há um ano, a iniciativa cubana recebeu 165 votos a favor, sete
contra e 12 abstenções, sendo que, à data, este constituía o nível de apoio
mais baixo nos últimos 20 anos, pelo que o apoio à resolução proposta pela ilha
caribenha diminuiu significativamente.
A par dos Estados Unidos (EUA) e de Israel, que votaram contra o
texto em praticamente todas as ocasiões em que foi apresentado, a Colômbia, o
Equador e a Costa Rica também se opuseram à resolução, numa clara demonstração
da aproximação dos respetivos governos à administração do Presidente norte-americano,
Donald Trump.
A Colômbia tinha votado a favor em 2025, enquanto o Equador e a
Costa Rica se abstiveram nesse mesmo ano.
O Paraguai e a Argentina também votaram contra, tal como fizeram
no ano passado.
Outros países, como a Hungria, Marrocos, Ucrânia e os Emirados
Árabes Unidos, também rejeitaram a iniciativa.
O Chile, as Honduras e o Peru, cujos recém-nomeados chefes de
Estado mantêm boas relações com Trump e que, no ano passado, votaram a favor,
abstiveram-se desta vez.
A Venezuela, por sua vez, não participou na votação. O país tem o
seu direito de voto na Assembleia-Geral da ONU suspenso devido a atrasos no
pagamento das suas quotas, em aplicação do artigo 19.º da Carta das Nações
Unidas.
Este ano, a resolução incluía o encerramento do bloqueio ao
fornecimento de petróleo, imposto por Washington desde janeiro, após a captura
do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro.
O embaixador dos Estados Unidos junto da ONU, Mike Waltz, já
tinha sugerido no primeiro dia de debate sobre a resolução, na
terça-feira, que iriam verificar-se mudanças na votação da resolução.
Este foi o 34.º ano consecutivo em que foi debatido e votado na
Assembleia-Geral da ONU o bloqueio norte-americano contra a ilha.
Tradicionalmente, Portugal vota favoravelmente as resoluções
apresentadas por Cuba na ONU a exigir o fim do bloqueio.
Apesar do apoio internacional maioritário, as resoluções aprovadas
na Assembleia-Geral da ONU não têm caráter vinculativo nem coercivo para os
Estados-membros.
O Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reagiu ao resultado da
votação enaltecendo a “maioria contra o bloqueio”.
“É o triunfo da verdade face àqueles que apostam na mentira e na
chantagem para submeter toda uma nação a um castigo coletivo”, afirmou o chefe
de Estado nas redes sociais.
“Esta vitória de Cuba hoje na Assembleia-Geral das Nações Unidas é
uma vitória do heroico povo cubano, que não desiste perante o estrangulamento
económico, as ameaças e os abusos do governo dos EUA”, continuou o líder
cubano.
Na sede da ONU, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba,
Bruno Rodríguez, contestou os Estados Unidos, que negam a existência de um
bloqueio contra a ilha, e afirmou que o embargo norte-americano provoca
prejuízos económicos superiores a 22,9 milhões de dólares num único dia (cerca
de 20,5 milhões de euros, ao câmbio atual).
Rodríguez apresentou um contador em tempo real do impacto
económico que, segundo o Governo cubano, o embargo norte-americano provoca.
O contador começou a funcionar na terça-feira, coincidindo com o
início do debate na Assembleia-Geral sobre a resolução anual contra essas
sanções.
“O bloqueio mata e castiga silenciosamente a nossa população como
nunca antes”, declarou o ministro durante a intervenção.
Rodríguez tomou a palavra um dia após o ter feito Waltz, com
quem protagonizou uma discussão acalorada sem precedentes no plenário da
Assembleia-Geral.
Durante a sua intervenção, Waltz negou a existência de um bloqueio
norte-americano contra Havana e apelou aos Estados-membros para que rejeitassem
o texto apresentado por Cuba.
Rodríguez alertou que a administração Trump “desencadeou uma
onda de pressões, intimidação e chantagem” contra outros membros da ONU para
fazer com que o texto fosse rejeitado.
O chefe da diplomacia cubana classificou o embargo como “um ato de
guerra, de castigo coletivo e de genocídio” e lamentou as “consequências
extremamente graves” que recaíam sobre o seu povo.
“Os seus efeitos fazem-se sentir na mesa das famílias cubanas, na
cama de um doente, num parto ou numa sala de operações, na alimentação ou na
sala de aula de uma criança, na falta de eletricidade, água potável e
medicamentos, e nos preços elevados de bens indispensáveis à vida”, afirmou.
Entre outras coisas, denunciou que em Cuba faltam 70% dos
medicamentos da lista básica e que cerca de 100.000 pessoas, incluindo 12.000
crianças, aguardam uma cirurgia.
Tudo isto “como consequência do bloqueio”, frisou.
“O que Cuba exige é que a deixem em paz, que permitam ao povo
cubano viver em paz, resolver pacificamente os nossos próprios problemas e
encontrar soluções para as grandes dificuldades do mundo atual, livres de
qualquer agressão política, militar, cognitiva ou económica”, defendeu. ANG/Inforpress/Lusa