Cuba/Governo enfrenta crise que
coloca legado da Revolução à prova no centenário de Fidel Castro
Bissau, 14 Ago 26 (ANG) - No centenário do nascimento de
Fidel Castro, celebrado , quinta-feira, Cuba vive sob uma contradição: enquanto
o Partido Comunista celebra o líder que comandou a ilha por quase meio século,
o país enfrenta uma das mais graves crises de sua história recente.
Exposições, shows e conferências foram
organizados para marcar os 100 anos do nascimento de Fidel, morto em 2016. Mas,
fora das cerimónias oficiais, a realidade é marcada por apagões que podem durar
horas ou até dias, falta de alimentos e água, transporte público em colapso e
escassez de medicamentos.
A crise
também reacende uma discussão incómoda para os cubanos: o que permanece das
promessas sociais da Revolução e até que ponto seus problemas atuais são
consequência de pressões externas ou do próprio modelo económico e político
construído sob Fidel.
Antes de colocar um retrato de Castro na
janela de sua casa, em Havana, o eletricista Leonel Suárez, de 54 anos, beija a
imagem. Há mais de uma década, ele coleciona fotografias e objetos ligados à
Revolução e chama Fidel de “mestre”.
Suárez acredita que, se estivesse vivo,
o antigo líder saberia enfrentar a crise “com muita estratégia” e “dando duro
por seu povo”.
Mas a situação económica chegou a um
ponto em que até sua coleção virou fonte de renda. Quando um turista lhe
ofereceu US$ 100 por uma fotografia de Fidel, ele aceitou.
“É preciso viver”, diz.
Para
uma parte dos cubanos, Fidel ainda é lembrado como o líder que atravessou
algumas das maiores crises enfrentadas pela ilha: a invasão da Baía dos Porcos,
a crise dos mísseis, o embargo americano, tentativas de assassinato e o colapso
da União Soviética, que deixou Cuba sem seu principal aliado económico.
“Fidel já não está aqui, e ninguém tem
as capacidades que Fidel tinha”, afirma Rogelio Valdivia, de 54 anos, em sua
oficina na Havana Velha, o centro histórico da capital cubana.
Valdivia nasceu durante a Revolução e
atribui a ela parte de sua trajetória pessoal. Nas paredes da oficina, entre
ferramentas e rachaduras, mantém uma espécie de santuário dedicado a Fidel.
A presença física do antigo líder,
porém, vem desaparecendo das ruas.
Após sua morte, uma lei proibiu a
construção de monumentos em sua homenagem e o uso de seu nome para instituições
públicas. Os grandes painéis com seu rosto também foram desaparecendo,
deteriorados pelo tempo.
O culto oficial à imagem de Fidel
permanece, mas já não ocupa o mesmo espaço no quotidiano.
A crise atinge justamente uma geração
que durante décadas associou a Revolução a conquistas sociais.
Ángela Gutiérrez, de 86 anos, pertence a
esse grupo. Ela cresceu sob Fidel e se beneficiou do sistema público de saúde e
educação. Hoje, diz estar “decepcionada” com os rumos do país.
Depois de percorrer barracas de
alimentos sem conseguir comprar o que precisava, reclama dos preços e dos
apagões.
“Por que cortam tanto a luz?”,
questiona. “Estão acabando com a vida das pessoas.”
O contraste é central para entender a
crise cubana. Durante décadas, o governo ofereceu serviços sociais e proteção
econômica em troca de disciplina política e pouca abertura para a oposição.
Esse pacto social foi uma das bases da estabilidade do regime.
Agora, porém, o Estado enfrenta
dificuldades crescentes para cumprir sua parte desse acordo. O problema aparece
no cotidiano: energia elétrica instável, falta de combustível, alimentos caros,
hospitais com falta de medicamentos e transporte público insuficiente.
A crise económica não é nova. Ela se
aprofundou depois da pandemia, com a queda do turismo e a escassez de divisas,
e ganhou novo impulso após a reforma monetária de 2021, que contribuiu para uma
forte aceleração da inflação.
As novas medidas de Washington
aumentaram a pressão, especialmente sobre o fornecimento de combustível. Mas
atribuir a crise exclusivamente ao embargo americano deixa de fora problemas
que já existiam antes do agravamento recente das sanções.
Desde 1959, a economia cubana foi
organizada em torno de forte controle estatal, nacionalização dos principais
setores produtivos e restrições à iniciativa privada.
O modelo permitiu ao governo controlar
recursos estratégicos e sustentar programas sociais, mas também criou uma
economia pouco produtiva, dependente de parceiros externos e com limitada
capacidade de adaptação.
A dependência ficou evidente após o fim
da União Soviética, no início dos anos 1990. Décadas depois, Cuba continua
enfrentando dificuldades para gerar divisas e produzir internamente bens
básicos.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o
açúcar. A indústria que durante séculos esteve no centro da economia cubana
entrou em declínio acelerado. A produção, que chegou a cerca de 8 milhões de
toneladas no final dos anos 1980, caiu para níveis historicamente baixos nas
décadas seguintes.
Ao mesmo tempo, Havana tentou substituir
parte dessa receita pelo turismo e pela exportação de serviços profissionais,
especialmente médicos enviados para trabalhar no exterior, como no Brasil.
O turismo chegou a se tornar uma das
principais fontes de moeda estrangeira do país. Mas a atividade também se
mostrou vulnerável à pandemia, à deterioração da infraestrutura e às restrições
impostas pelos Estados Unidos.
O resultado é uma economia com pouca
capacidade de gerar crescimento, baixa disponibilidade de moeda estrangeira e
dificuldade para financiar investimentos justamente nos setores que mais
precisam de modernização.
É nesse cenário que os sucessores de
Fidel são colocados à prova.
Miguel
Díaz-Canel assumiu a Presidência em 2018 e tornou-se primeiro-secretário
do Partido Comunista em 2021, quando Raúl Castro deixou o comando da legenda.
A questão agora é se a atual liderança
conseguirá reformar a economia sem abrir mão do controle político que sustenta
o sistema. Esse é o principal dilema.
Para recuperar a produção e atrair
investimentos, Cuba precisaria ampliar o espaço para empresas privadas, flexibilizar
mercados, modernizar sua infraestrutura e criar condições mais favoráveis para
o investimento.
Mas uma abertura económica também pode
reduzir a dependência da população em relação ao Estado e criar novos centros
de poder económico e social. Para um regime construído em torno do monopólio
político do Partido Comunista, essa possibilidade representa um risco.
O resultado é um círculo vicioso: o
governo precisa de reformas para recuperar a economia, mas teme que reformas
profundas enfraqueçam o sistema político. Enquanto isso, a deterioração
econômica aumenta a pressão sobre o próprio pacto social que sustentou o
regime.
É nesse ponto que as duas interpretações
sobre o legado de Fidel se encontram.
Manuel Cuesta, historiador de 63 anos e
opositor político, pertence ao grupo que deixou de enxergar Castro como o
“redentor” que conheceu na juventude.
Segundo ele, a distância entre as promessas da Revolução e a
realidade cubana fez com que Fidel passasse, para muitos, de símbolo de
esperança a “responsável original por esta catástrofe nacional”.
Hassan Pérez, historiador e ex-dirigente estudantil que
trabalhou próximo a Fidel, reconhece que o centenário ocorre em um dos momentos
mais difíceis da história recente da ilha. Para ele, o pacto social criado pela
Revolução “se deteriorou” nos últimos anos. Ainda assim, a figura de Fidel
permanece relevante.
Mildred Barreto, de 66 anos, continua chamando-o de “nosso
comandante”. Mas, quando fala da vida atual, resume a mudança em uma frase: “A
gente passa por muitas dificuldades. Com nosso comandante, não.”
O centenário de Fidel Castro expõe, assim, uma disputa que vai
além da memória de um líder. Para seus admiradores, a crise mostra a falta de
uma liderança capaz de enfrentar adversidades como Fidel fazia.
Para seus críticos, ela é
justamente o resultado de um sistema económico e político criado sob seu
comando e mantido por seus sucessores.
A pergunta que fica para Cuba não é apenas se Fidel ainda vive
na memória dos cubanos. É se o modelo que ele deixou consegue sobreviver à
crise, ou se a própria crise obrigará seus sucessores a fazer as reformas que o
regime adiou durante décadas. ANG/RFI/Com
agências