Bissau,
28 Out 26(ANG) - Lula Inácio da Silva assumirá um quarto mandato com um
país dividido pela votação apertada, e com um Congresso conservador, uma vez
que o Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, tem a maioria dos assentos no
Senado e na Câmara dos Deputados.
Para
o futuro, e com os efeitos dos escândalos do Banco Master e da polarização no
país, defende uma reforma no Judiciário: mandato para juiz do Supremo Tribunal
Federal (STF) brasileiro e alteração na forma de indicá-los ao cargo.
O
‘petista’ espera ainda, este ano, aprovar a Proposta de Emenda Constitucional
(PEC) da Segurança Pública que cria regimes penais mais severos, e reformula as
designações das entidades federativas e dos órgãos no combate ao crime
organizado.
Há
poucos dias, num sinal ao campo conservador, passou a defender também a
diminuição da responsabilidade penal para menores de 16 anos, mas somente para
crimes hediondos.
Maior
nome do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva passou as últimas semanas
a dizer que o povo brasileiro teria de fazer uma escolha "entre democracia
e soberania e, do outro lado, barbárie, negacionismo e retrocesso".
O
‘petista’ governou no seu terceiro mandato (2022-2026) com uma base frágil no
Congresso Nacional e usou como moeda de troca ministérios e cargos
estratégicos, além de fazer negociações via Orçamento federal, a partir das
emendas parlamentares.
Entre
as conquistas do “Lula 3” estão a aprovação de Reforma Tributária e a redução
da jornada de trabalho semanal, com dois dias de descanso.
Também
acumulou derrotas, a maior delas a rejeição do nome indicado ao Supremo
Tribunal Federal brasileiro, pelo Senado, um feito inédito em mais de 130 anos.
Ao
longo desse mantado, declarou que está a reconstruir o Brasil, após acusar o
bolsonarismo de destruir pontes diplomáticas e políticas públicas, além de
acusá-lo de negligente pela não regulamentação das “bets” e vício da população
nos casinos online.
Mesmo
muito impopular entre os grandes empresários do agronegócio, e com a promessa
de governar para todos, Lula elevou para valores recorde o Plano Safra,
principal programa de financiamento do agronegócio brasileiro.
O
líder de esquerda também lançou vários programas sociais no seu terceiro
mandato, como incentivos financeiros para estudantes, renegociação e perdão de
dívidas da população e pequenos empresários.
Por
elevar os gastos públicos e pelos "pacotes de bondades" foi muito
criticado por economistas e analistas do mercado financeiro, que apontam como
consequência pressão inflacionária e juros alto.
No
cenário internacional, o mandato “Lula 3” foi marcado pela retoma da diplomacia
presidencial, quando passou a propagar o país em fóruns mundiais e agendas
bilaterais com autoridades internacionais dizendo que "O Brasil estava de
volta".
Defensor
do multilateralismo, visitou Estados Unidos, China, países da Europa e do Médio
Oriente para abrir mercados e estreitar relações diplomáticas, em agendas que
ficaram marcadas pelo humor, simpatia e informalidade com que se referia aos
seus homólogos.
Crítico
dos conflitos liderados por Israel e EUA, também visou o Conselho de Segurança
da ONU, que apelidou de ineficiente e omisso.
Lula
também colheu derrotas, ao fracassar na tentativa de criar um grupo da paz para
acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e fazer declarações polémicas
sobre o conflito.
Na
relação com os países vizinhos, retomou relações diplomáticas com a Venezuela,
encerradas por Bolsonaro, e criou desgaste interno ao defender Nicolás Maduro,
que depois criticou o ‘petista’, após o Governo brasileiro pedir transparência
nas eleições venezuelanas de 2024.
Com
o regresso de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, as relações diplomáticas
entre Brasília e Washington degradaram-se com as tentativas de interferência do
Presidente dos EUA na política interna do Brasil durante o julgamento que levou
à condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
A
Casa Branca e o Palácio do Planalto tiveram uma série de embates após
Washington sobretaxar produtos brasileiros como forma de retaliação e por os
EUA classificarem as duas maiores fações criminosas do Brasil como organizações
terroristas.
Com
o discurso de defesa da soberania nacional, Lula da Silva e a esquerda
brasileira passaram a usar as cores da bandeira do Brasil, como forma de
resgatar símbolos "sequestrados pelo bolsonarismo".
Vários
escândalos marcaram o mandato “Lula 3”, em que um ministro foi demitido por
assédio sexual, outro que passou a ser investigado pela Polícia Federal por
suspeita de corrupção quando deputado federal, e demitiu um aliado histórico da
chefia do Ministério da Previdência Social no âmbito do escândalo dos descontos
indevidos de reformados e pensionistas.
A
"Fraude do INSS", que ocorreu de 2019 a 2024, atingiu a oposição,
governantes, políticos de vários partidos, funcionários públicos, lobistas,
sindicatos, entidades representativas e bancos.
O
petista passou a dizer que "uma quadrilha se instaurou" no órgão
federal, e, embora executivos da sua Administração tenham sido presos, que foi
sob o seu governo que o esquema criminoso, que, diz, começou na gestão Jair
Bolsonaro, foi descoberto e desmantelado.
Lula
também viu o escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro
por fraude no sistema financeiro, não apenas atingir Flávio Bolsonaro e
políticos influentes do chamado "Centrão", mas respingar na imagem de
aliados e do seu Governo.
A
teia de contactos e relações do então banqueiro Daniel Vorcaro, pivô da crise e
atualmente preso, atingiu alguns juízes do STF, com conversas suspeitas e
negócios com familiares desses magistrados.
Lula
também sofre desgaste com o facto de o seu filho mais velho, conhecido como
Lulinha, ser alvo de três inquéritos da Polícia Federal por suposto tráfico de
influência dentro do Governo. ANG/Inforpress/Lusa