EUA/ ONU adota resolução que
reforça obrigações climáticas dos países
Bissau, 21 Mai 26 (ANG) - A Assembleia Geral da ONU
adotou na quarta-feira (20) uma resolução que reforça as obrigações climáticas
dos países.
O texto, adotado por 141 votos a favor, 8 contra
(incluindo Estados Unidos, Israel, Irã, Rússia e Arábia Saudita) e 28
abstenções, "é uma poderosa proclamação do direito internacional, da
justiça climática, da ciência e da responsabilidade dos Estados em proteger as
populações da crescente crise climática", afirmou o secretário-geral da
ONU, António Guterres.
Ofuscada
por guerras e altos preços do petróleo, a luta por ações climáticas está
ganhando terreno na esfera jurídica. Liderada por Vanuatu, uma pequena nação
insular do Pacífico, a resolução sobre as responsabilidades climáticas dos
Estados foi adotada.
A
resolução endossa o parecer consultivo histórico emitido no ano passado pelo
Tribunal Internacional de Justiça(TIJ), sobre a responsabilidade dos Estados em
respeitar seus compromissos climáticos.
"Sabemos
que alguns prefeririam que esta Assembleia dissesse menos, ou nada",
observou Odo Tevi, embaixador de Vanuatu na ONU, e um dos principais defensores
da justiça climática, antes da votação. “Os danos são reais e já estão
sendo causados às ilhas e áreas costeiras baixas, às comunidades que
enfrentam secas e quebras de safra, àqueles cujos lares, meios de subsistência
e cultura estão sendo afetados por forças que não desencadearam",
enfatizou.
Em 23 de julho de 2025, após dois anos
de audiências com mais de 100 Estados dispostos a apresentar seus pontos de
vista, os juízes da mais alta corte do mundo emitiram, por unanimidade, um
parecer consultivo robusto e detalhado, que superou as expectativas.
Os Estados têm "obrigações
legais" de agir em relação às mudanças climáticas, uma vez que sua
preservação protege os direitos humanos e a habitabilidade do planeta.
O não cumprimento dessas obrigações é
"ilegal", advertiu o Tribunal Internacional de Justiça, e pode levar
a processos judiciais e indemnizações. Nesse sentido, os Estados também são
obrigados a regulamentar as atividades de agentes privados dentro de sua
jurisdição.
Os pareceres consultivos do TIJ, em
virtude de seu valor jurídico e autoridade moral, servem como referência legal
em disputas nacionais ou internacionais, ou entre comunidades locais e
empresas. Mas Vanuatu, que luta por sua sobrevivência, quis ir além.
Na Assembleia Geral da ONU, a questão
fundamental era se os Estados estavam cumprindo as exigências estabelecidas
pelo tribunal.
A resolução, defendida desde janeiro
pela pequena nação insular do Pacífico, juntamente com um pequeno grupo de países
diversos (Países Baixos, Quénia, Serra Leoa, Colômbia, Barbados, Ilhas
Marshall, Micronésia, Palau, Jamaica, Filipinas e Burkina Faso), “acolhe” o
parecer do Tribunal Internacional de Justiça, que descreveu como uma
“contribuição de grande autoridade”.
O
texto de quatro páginas “exorta todos os Estados a honrarem suas obrigações
perante o direito internacional” para proteger o clima.
“Este resultado é de suma importância
para a credibilidade do direito internacional e do sistema multilateral”,
afirmou Odo Tevi.
Falando em nome dos Pequenos Estados
Insulares em Desenvolvimento, o embaixador de Fiji, Filipo Tarakinikini, também
enfatizou a importância do texto: “Quando falamos de uma ameaça existencial,
não estamos falando metaforicamente; estamos falando com base na experiência
vivida. Esta é uma afirmação de sobrevivência – nos níveis jurídico, cultural e
civilizacional”, salientou.
“Apelamos por um compromisso concreto de
solidariedade, traduzido em financiamento sustentável para adaptação, proteção
dos direitos marítimos e, quando apropriado, realocações.”
Diversas organizações da sociedade civil
reagiram logo após a votação. “Neste contexto global de escalada da violência e
ataques implacáveis ao multilateralismo e ao Estado de Direito, este momento
é excepcional”, disse à RFI Nikki Reisch, diretora de programas climáticos do
Centro de Direito Ambiental Internacional, uma ONG de advogados especializados.
“A maioria global se recusa a permitir que um punhado de estados ricos em
petróleo sequestre essa agenda.”
Após
a conferência sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis na
Colômbia, a resolução enfatiza as medidas necessárias para limitar o
aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais: “a eliminação gradual dos
combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa para alcançar a
neutralidade de carbono até 2050, de acordo com os dados científicos, e a
eliminação gradual dos subsídios ineficientes aos combustíveis fósseis o mais
rápido possível”.
O segundo objetivo deste texto era
tornar operacional o arcabouço jurídico para a ação climática dos Estados. A
resolução visa garantir que as políticas nacionais estejam em conformidade com
as obrigações legais.
Como era de se esperar, foi justamente
essa seção, que atribui a responsabilidade aos Estados, que desencadeou o
impasse. Foi nesse ponto que o texto foi diluído.
A versão inicial incluía a criação de um
"registo internacional" de perdas e danos económicos e não económicos
causados pelas mudanças climáticas. Com base na coleta de depoimentos e dados,
ele serviria para documentar e quantificar os danos em todo o mundo.
O texto
adotado, entretanto, não menciona este aspeto,rejeitado pelos países
desenvolvidos, incluindo a União Europeia, que avaliam que o registo abriria
caminho para solicitações de reparações históricas. A resolução destaca a
expressão "reparações integrais aos Estados lesados", utilizada pelo
TIJ.
Os Estados Unidos exigiram, desde o
início, o abandono completo do projeto. Em uma declaração antes da votação, a representante
especial adjunto dos EUA na ONU considerou a resolução "muito
problemática" e se recusou a endossar sua "autoridade".
O texto solicita que o secretário-geral
da ONU apresente "mecanismos" para garantir o "cumprimento
integral de todas as obrigações" e que identifique "falhas" por
parte dos Estados. A última cláusula prevê um acompanhamento anual perante a
Assembleia Geral. Esse ponto também foi contestado, sem sucesso.
Assim como o parecer consultivo do TIJ,
a resolução não é juridicamente vinculativa, mas carrega o peso simbólico de
ser universal. “Este sucesso reflete a urgência e o crescente consenso
científico, jurídico e, cada vez mais, político sobre a necessidade e os
benefícios de acelerar a transição para um mundo livre de combustíveis fósseis”,
analisa Nikki Reisch.
ANG/RFI/AFP