Venezuela/Socorristas correm contra o tempo para salvar
últimos sobreviventes de terramotos
Bissau, 29 Jun 26 (ANG) - Mais de 72 horas após os tremores de magnitude
7,2 e 7,5 que atingiram o norte da Venezuela na quarta-feira (24), equipes de
busca e resgate de pelo menos 17 países atuam em um país em crise, com um
sistema de saúde em estado precário.
O tempo é crucial para encontrar
sobreviventes: os socorristas sabem que a probabilidade de encontrar pessoas
com vida diminui a cada dia.
No
norte do país, os tremores deixaram um cenário de devastação, com inúmeros
prédios desabados, especialmente em La Guaira. É ali que o gramado do principal
estádio de beisebol abriga, desde sexta-feira (26),equipes de resgate do mundo inteiro.
Suíça,
Colômbia, Alemanha, Espanha: em campo, falam-se todas as línguas, e as Nações
Unidas coordenam os trabalhos.
“Não
podemos esquecer que as pessoas já estão há muito tempo sob os escombros. Com o
calor que faz, há todos os problemas de desidratação, entre outros. Estamos
realmente correndo contra o tempo”, lembra Fabien Walterio, chefe das operações
da equipe suíça.
Para apoiar esse trabalho, uma pista do aeroporto
de Caracas foi reaberta para receber aviões americanos que transportam ajuda
humanitária.
“Com a chegada de equipes vindas de Miami, os
Estados Unidos contam agora com cerca de 250 socorristas civis especializados
mobilizados na Venezuela”, informou o Departamento de Estado americano na rede
X.
“Em princípio, agora os corpos já não
apresentam sinais de vida, mas, graças a Deus, às vezes ainda conseguimos
encontrar sobreviventes”, afirmou um socorrista salvadorenho em Playa Grande,
em La Guaira, cidade litorânea vizinha a Caracas.
Nas
proximidades, um menino de 11 anos foi milagrosamente retirado com vida dos
escombros, em Caraballeda. "Neste momento, cada vida é fonte de
esperança para a Venezuela”, escreveu durante a noite na rede X a presidente
interina da Venezuela,Delcy Rodriguez, ao compartilhar um vídeo do resgate.
Na véspera, a alegria
tomou conta de La Guaira quando moradores salvaram um bebé. Em um vídeo
publicado nas redes sociais, um homem se emociona às lágrimas enquanto segura a
criança nos braços.
Por enquanto, o
último balanço indica 1.430 mortos na tragédia, mais de 3,2 mil feridos e mais
de 50 mil desaparecidos, segundo autoridades e a ONU. A organização alerta que
esses números devem “aumentar consideravelmente”.
Vários estrangeiros estão
entre as vítimas dos terramotos na Venezuela. O balanço inclui 28 portugueses
ou luso-descendentes, além de 85 desaparecidos, ao menos nove espanhóis (e 152
desaparecidos), dois brasileiros, sete chineses, um chileno, um uruguaio e um
ítalo-venezuelano. Autoridades desses países afirmam prestar assistência
consular às famílias.
Apesar da mobilização crescente, a chegada das equipes de resgate atrasou.
“O trajeto de Caracas até aqui foi interminável. O Google Maps indica 2h30, mas
levamos 7h30. O caos foi causado por pessoas que queriam ajudar e, agora,
vemos que a ordem voltou. Há uma espécie de normalidade se restabelecendo”,
continua Fabien Walterio.
Paralelamente, a
indignação da população cresce. No local, moradores denunciam a falta de apoio
ou até a ausência do governo nas operações de resgate. A presidente Delcy
Rodríguez foi vaiada na sexta-feira perto de um prédio desabado em um bairro de
alto padrão de Caracas.
Voluntários
venezuelanos, que chegaram com pás para tentar salvar vidas, tiveram no sábado
o acesso negado à área mais afetada.
Como consequência,
uma fila enorme se formava diante do Poliedro, a sala de espetáculos onde o
governo distribui autorizações para voluntários que desejam acessar a área
atingida, enquanto máquinas começam a retirar os escombros. Os danos são
estimados em cerca de US$ 7 bilhões, o equivalente a 6% do PIB, segundo o
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Diante da indignação
popular com a gestão da crise, Delcy Rodríguez destacou e agradeceu a ajuda
internacional. Vinte e quatro países enviaram 521 toneladas de equipamentos,
mais de 2.700 socorristas e 86 equipes com cães treinados para localizar
vítimas, detalhou.
Quase sete milhões de
pessoas foram afetadas pelos dois terramotos, estimaram as Nações Unidas no
sábado.
A Venezuela é um país
com risco sísmico, embora nenhum grande terramoto tenha sido registado desde
1997. ANG/RFI