Turquia/Autoridades ampliam repressão
e prendem ativistas LGBTQIA+ em operação nacional por 'valores familiares'
Bissau, 14 Set 26 (ANG) - O governo turco prendeu
dezenas de pessoas e realizou buscas em seis associações LGBTQIA+ durante uma
operação nacional apresentada pelo governo como “defesa da família”.
A ação, parte da campanha “Minha família está segura”,
ocorreu em 12 províncias e incluiu bloqueio de sites e contas de organizações
de direitos.
No domingo (13), entidades denunciaram que a ofensiva
representa discriminação estatal e aprofundamento da repressão à sociedade
civil.
A
Turquia intensificou, neste fim de semana, uma operação nacional contra
organizações LGBTQIA+, com a prisão de 26 pessoas e a realização de buscas em
sedes de seis associações.
A ação,
conduzida em 12 províncias, foi apresentada pelo governo como parte da campanha
“Minha família está segura”, que pretende reforçar valores familiares e
combater o que autoridades classificam como “obscenidade” e “prostituição”.
A
ofensiva ocorre em um contexto decrescente pressão estatal sobre grupos ligados à defesa de direitos e à
diversidade sexual.
O gabinete do procurador-geral de
Istambul informou que as operações miraram 38 suspeitos e resultaram na
apreensão de drogas, equipamentos digitais, bebidas alcoólicas contrabandeadas
e uma arma de fogo.
A ação, segundo o órgão, integra
investigações sobre suposta influência indevida sobre menores em questões de
orientação sexual e identidade de gênero.
“Há indícios de que crianças e
adolescentes estão sendo expostos a conteúdos inadequados”, afirmou o gabinete
em comunicado.
A associação Kaos GL, sediada em Ancara,
contestou os números oficiais e afirmou que ao menos 50 ativistas foram
detidos, incluindo mais de dez pessoas levadas sob custódia após buscas
policiais em suas residências.
“As autoridades bloquearam o acesso a
dezenas de sites e contas em redes sociais ligados a organizações LGBTQIA+,
militantes e defensores de direitos”, declarou a entidade.
O grupo tem sido alvo frequente de ações
policiais desde que o governo intensificou o discurso contra movimentos
LGBTQIA+ nos últimos anos.
A campanha “Minha família está segura”
foi lançada enquanto o presidente Recep Tayyip Erdogan promove a chamada
“década da família e da população”, iniciativa que supostamente busca enfrentar
a queda da taxa de natalidade e o envelhecimento demográfico.
O governo tem associado a defesa da
família a medidas de restrição contra grupos LGBTQIA+, ampliando o uso de
operações policiais e bloqueios digitais.
“O verdadeiro nome desta operação não é
‘Minha família está segura’; trata-se de discriminação de Estado, de uma
política do medo e do desmonte da sociedade civil”, afirmou a Associação Turca
de Direitos Humanos em publicação no X.
Organizações
internacionais de direitos humanos têm acusado o governo turco de adotar
políticas cada vez mais restritivas contra a comunidade LGBTQIA+, combinando
endurecimento do discurso oficial, proibições de eventos e ações policiais.
A
repressão ganhou força após manifestações que ocorreram em diferentes cidades
do país nos últimos anos, frequentemente dispersadas com violência.
A
Turquia, que já sediou marchas do orgulho de grande porte, passou a proibir
desfiles e reuniões públicas relacionadas ao tema.
O ministro da Justiça, Akin Gurlek,
afirmou que as investigações coordenadas pelos procuradores de Istambul,
Ancara, Izmir, Aydin e Mersin resultaram em processos contra 162 suspeitos,
nove associações e 13 empresas distribuídas por 15 províncias.
“Estamos comprometidos em proteger a
estrutura familiar e combater práticas ilegais”, disse o ministro.
A amplitude da operação indica que o
governo pretende manter a pressão sobre organizações civis, ampliando o alcance
das investigações.
A repressão contra grupos LGBTQIA+ na
Turquia tem se intensificado desde meados da década passada, acompanhando
mudanças no discurso oficial e na estratégia política do governo.
Erdogan e aliados passaram a associar
movimentos de diversidade sexual a ameaças à família e à moral pública, criando
ambiente favorável a ações policiais e restrições administrativas.
O bloqueio de sites e perfis em redes
sociais tornou-se prática recorrente, afetando a comunicação de organizações
que atuam na defesa de direitos.
A campanha “Minha família está segura”
insere-se nesse contexto mais amplo, combinando operações policiais,
investigações digitais e discursos que reforçam a ideia de proteção da família
tradicional. Críticos afirmam que a iniciativa busca consolidar apoio entre
setores conservadores e ampliar o controle estatal sobre a sociedade civil.
“É uma política de intimidação que tenta
silenciar vozes dissidentes”, declarou um ativista que pediu anonimato por
segurança.
A
repressão também ocorre em meio a tensões políticas internas e a debates sobre
direitos civis no país.
A
Turquia, que já foi vista como referência regional em políticas de inclusão,
tem enfrentado críticas internacionais porretrocesos em direitos, especialmente
após a saída da Convenção de Istambul, tratado europeu de combate à violência
contra mulheres.
A
ofensiva contra grupos LGBTQIA+ é interpretada como parte dessa mudança de
orientação.
Saiba o que significa a sigla LGBTQIA+
·
L — Lésbicas: mulheres que se relacionam afetiva
e/ou sexualmente com outras mulheres.
·
G — Gays: homens que se relacionam afetiva e/ou
sexualmente com outros homens.
·
B — Bissexuais: pessoas que se relacionam com mais
de um género.
·
T — Transgéneros: pessoas cuja identidade de
gênero difere do sexo atribuído no nascimento.
·
Q — Queer: quem não se encaixa em categorias
tradicionais de género e sexualidade.
·
I — Intersexo: pessoas com variações corporais que
não se enquadram nas definições típicas de masculino ou feminino.
·
A — Assexuais: pessoas com pouca ou nenhuma
atração sexual.
·
+ — Outras identidades: inclui pansexuais, não
binárias, demissexuais e outras do espectro.
As operações recentes ampliam o alcance
da repressão ao envolver múltiplas províncias e diferentes tipos de
organizações, incluindo associações culturais e empresas.
A
justificativa oficial, centrada na proteção de menores e na defesa da família,
tem sido contestada por entidades que afirmam que não há evidências que
sustentem as acusações.
“É uma tentativa de criminalizar
identidades e movimentos sociais”, afirmou a Associação Turca de Direitos
Humanos.
O impacto sobre a sociedade civil é
significativo, com ativistas relatando medo, autocensura e dificuldades para
manter atividades básicas.
O
bloqueio de sites e perfis impede a divulgação de informações e campanhas,
enquanto as prisões e buscas domiciliares criam ambiente de insegurança. A
repressão também afeta organizações que prestam apoio jurídico e psicológico a
pessoas LGBTQ+, dificultando o acesso a serviços essenciais.
A coordenação entre diferentes
procuradorias indica que o governo pretende manter a campanha por longo
período.
A participação de órgãos de Istambul,
Ancara, Izmir, Aydin e Mersin demonstra que a repressão não se limita a grandes
centros urbanos, alcançando regiões diversas do país.
O número de suspeitos e entidades
investigadas sugere que novas operações podem ocorrer nas próximas semanas.
O discurso oficial, centrado na proteção
da família, tem sido reforçado por ministros e parlamentares aliados ao
governo. A narrativa busca legitimar ações policiais e ampliar apoio entre
setores conservadores, especialmente em regiões onde o governo mantém forte base
eleitoral.
A campanha também se insere em debates
sobre políticas demográficas, com o governo defendendo medidas para aumentar a
natalidade e reforçar valores tradicionais.
Críticos afirmam que a repressão
compromete direitos fundamentais e enfraquece a sociedade civil, criando
ambiente de medo e insegurança. Organizações internacionais têm pedido que a
Turquia revise suas políticas e garanta proteção a minorias sexuais.
A resposta do governo, porém, indica que
a campanha deve continuar, com novas investigações e operações previstas.
A ofensiva contra grupos LGBTQ+ reforça
a tendência de endurecimento político no país, marcada por restrições a
manifestações, controle sobre meios de comunicação e pressão sobre organizações
independentes.
A campanha “Minha família está segura”
tornou-se símbolo dessa estratégia, combinando discurso moralizante e ações
policiais de grande escala. ANG/RFI/AFP