França/Guerra no
Oriente Médio é oportunidade para Rússia no comércio de petróleo e gás
Bissau, 11 Mar 26 (ANG) - Enquanto os
ataques contra o Irã continuam, o mundo se preocupa com seus impactos económicos,
especialmente por conta da produção de petróleo, gás e fertilizantes no Oriente
Médio. Donald Trump ameaçou atacar o país com mais força caso o fornecimento
seja afetado.
Como resposta, o Irã prometeu que nenhuma gota
do óleo vai deixar a região "até segunda ordem". Por outro lado, a
Rússia acompanha de perto os embates, interessada nos insumos e em driblar
sanções impostas pelos EUA e Europa.
Em sua
primeira entrevista coletiva oficial desde o início dos ataques ao Irã, o
presidente norte-americano, Donald Trump foi enfático ao falar sobre
o abastecimento mundial de petróleo.
“Enquanto prosseguimos com a Operação
'Epic Fury' (Fúria Épica), também estamos focados em manter o fluxo de energia
e petróleo para o mundo. Eu não vou permitir que um regime terrorista mantenha
o mundo como refém e tente interromper o fornecimento global de petróleo. Se o
Irã fizer algo nesse sentido, será atingido com muito mais força. Vou eliminar
os alvos mais fáceis tão rapidamente que eles nunca vão conseguir se recuperar.
Jamais”.
A fala do presidente americano gerou
forte reação da Guarda Revolucionária iraniana. O exército ideológico do Irã
deixou claro que vai continuar a controlar totalmente o Estreito de Ormuz, por
onde passa um quinto da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito,
o GNL.
Com o trecho bloqueado – já que o Irã
promete atacar os navios que tentarem passar pelo local – quem se aproveita do
cenário conturbado é a Rússia, que vai voltar a vender petróleo para a Índia. O
diretor do Observatório franco-russo em Moscou, Arnaud Dubien, qvê
oportunidades para o país com a guerra no Oriente Médio.
"A curto prazo há os
hidrocarbonetos, o petróleo de fato. E o último cenário é a isenção
concedida pelos Estados Unidos à Índia, para que ela possa compensar os
volumes perdidos no Oriente Médio com petróleo russo. E isso cai muito bem
tanto para os russos quanto para os indianos, porque havia numerosos
petroleiros ancorados ao largo da costa indiana esperando
compradores. Assim, o petróleo russo estava disponível e será vendido com
descontos menores do que aqueles praticados há algumas semanas. Isso mostra, no
fim das contas, a perfeita complementaridade entre os interesses indianos e
russos, e talvez a inutilidade das intenções americanas de enfraquecer esse
vínculo", disse.
Segundo o especialista, "a Rússia
vai conseguir escoar o petróleo que estava tendo dificuldade de vender e vai
fazê-lo em melhores condições financeiras, porque os preços aumentaram. Eles
passaram de US$ 60 o barril de Brent no início do ano para cerca de US$ 85
hoje".
Arnaud Dubien acrescenta que a guerra no
Oriente Médio também mexe com o cenário de importações e exportações do GNL. O
gás natural liquefeito é exportado principalmente pelo Catar, responsável por
cerca de 20% do comércio mundial do produto.
Os ataques ao Irã, também devem
fortalecer a cooperação entre a Rússia e a China.
"Existe
um oleoduto que liga a Sibéria Oriental à China há cerca de quinze anos. Desde
2019, existe também um gasoduto chamado Força da Sibéria. A China, além disso,
compra GNL russo, inclusive GNL sujeito a sanções. Em Moscou, muitos
acreditam que os chineses vão rever sua política de abastecimento e reavaliar
os riscos. Hoje, o fornecimento vindo da Rússia é considerado o
menos arriscado e provavelmente o mais barato. Não há fronteira marítima entre
a Rússia e a China, e ninguém imagina que a Rússia vá cortar o fornecimento de
energia para a China" destacou o especialist
Ele lembrou do projeto do gasoduto
Força da Sibéria II, uma infraestrutura planejada há cerca de dez anos e que
deverá transportar volumes importantes. Serão "cerca de 50 bilhões de
metros cúbicos de gás por ano", calcula.
"Hoje, muitos acreditam que esse
projeto finalmente será realizado nos próximos cinco ou seis anos. Ele não
permitirá à Gazprom compensar totalmente a perda do mercado europeu, mas vai
consolidar essa aliança energética entre Rússia e China por décadas e
décadas", finalizou.
Desde o
início da guerra no oriente Médio, os preços do petróleo e do gás têm variado
intensamente, provocando forte instabilidade nas bolsas de valores pelo mundo.
Diante da perspectiva de prolongamento do conflito, o barril chegou a quase
US$120 essa semana e as bolsas despescaram. Analistas preveem que a
volatilidade vai continuar nos mercados, refletindo as incertezas, as
declarações contraditórias e os próximos ataques e invasões.ANG/RFI