França/Relatório expõe racismo
estrutural enfrentado por jovens imigrantes e negros
Bissau, 27 Fev 26 (ANG) - Um relatório publicado quinta-feira (26), na França, revela que um
quarto dos jovens imigrantes, descendentes de imigrantes ou nascidos no
exterior sofreu discriminação com base na cor da pele, origem ou nacionalidade
nos últimos cinco anos, inclusive em instituições do Estado, como escolas e
universidades.
Segundo o documento, essas discriminações são
“cumulativas e estr
uturais” e devem ser tratadas como prioridade pelo Estado.
De acordo com o relatório Jeunesses
et discriminations fondées sur l’origine: répondre à l’impératif d’égalité (Juventude
e discriminação com base nas origens: respondendo ao imperativo da igualdade,
em tradução livre), elaborado pela Defensória dos Direitos – autoridade
administrativa independente que tem entre suas funções combater discriminações
e o racismo institucional – as ocorrências aparecem em diferentes momentos
da vida: na escola, no ensino superior, no acesso à moradia, ao emprego, à
saúde e nas interações com instituições públicas.
A análise se apoia em queixas formais
recebidas pela instituição, além de relatos de jovens afetados e de
profissionais que os acompanham (educadores, trabalhadores sociais etc.).
Também foram utilizados dados estatísticos disponíveis, análises qualitativas
de práticas discriminatórias e exemplos de casos reais relatados.
O relatório, de 103 páginas, salienta
que as discriminações começam já na infância, pois a escola é permeada por
elas, “frequentemente inconscientes e sistémicas”. Elas se manifestam pela
falta de mixidade social, escolhas de orientação influenciadas pela origem,
estigmatização e até violências físicas.
O documento reconhece que as
discriminações na escola, na França, “parecem ser um tabu”. Segundo o
relatório, “a escola francesa se inscreve historicamente em uma perspectiva de
igualdade herdada da tradição republicana, que exige neutralidade,
universalidade e tratamento idêntico para todos os alunos”.
Porém, “o reconhecimento das
discriminações confronta essa concepção ideal da escola francesa. (...) Ao
limitar a discriminação a atos individuais e isolados, em vez de compreendê-la
como parte de um fenómeno sistémico, essa interpretação tende a permanecer
focada em estudantes ou em alguns poucos funcionários, apresentados como
exceções raras e lamentáveis”, explica o documento.
“Frequentemente me confundiam com outras
meninas negras na sala de aula e presumiam que eu tinha laços familiares com
outros alunos negros, quando isso não era verdade”, diz o testemunho de uma
jovem de 21 anos citado no relatório.
“Uma professora de francês, na décima série,
nos disse sem rodeios para não continuarmos os estudos gerais (recomendando os
profissionalizantes) porque éramos estrangeiros e nunca teríamos sucesso, mesmo
depois de eu lhe dizer que meu sonho era ser piloto e que minha amiga queria
ser advogada”, relata outra jovem de 19 anos.
Os atos
racistas tiveram um aumento acentuado nas escolas, passando de 870 casos
relatados em 2022–2023 para 1.960 em 2023–2024 (+125%), diz o documento.
No ensino superior, as discriminações
não diminuem e podem inclusive piorar, devido à estrutura que privilegia a
autonomia e tem menos intervenções educacionais. De acordo com o
relatório, as políticas de combate às discriminações até existem, mas seu
impacto é limitado.
Os jovens enfrentam barreiras já no
acesso aos cursos universitários, e as desigualdades persistem no cotidiano,
afetando a integração, a construção de uma rede social e as oportunidades.
“Na minha universidade, no segundo ano,
alguns dos meus colegas franceses alegaram que não queriam estar no mesmo grupo
que eu e outros estudantes negros porque não queriam se misturar connosco, e
isso sem qualquer consequência, diante de professores que nos obrigavam a nos
virar sozinhos na formação dos grupos”, relata uma jovem de 22 anos.
A importância do diploma para a inserção
profissional na França agrava o problema, salienta o relatório. Posteriormente,
jovens imigrantes ou descendentes de imigrantes são confrontados com
recusas discriminatórias desde a busca por estágios até o mercado de trabalho.
Esse acúmulo afeta oportunidades económicas e trajetórias profissionais
As
barreiras também são significativas no acesso à habitação, um dos campos onde a
discriminação é mais documentada na França.
Ela
ocorre em várias fases da locação: na triagem dos candidatos, na escolha dos
bairros e nas práticas de agentes imobiliários e proprietários.
“Com perfis económicos estritamente
equivalentes (dois funcionários públicos, um percebido como francês e o outro
como norte-africano), candidatos de minorias recebem significativamente menos
ofertas de visitas ou propostas de aluguel”, diz o relatório.
“Embora uma candidatura financeiramente sólida
possa reduzir a extensão das disparidades, ela não é suficiente para eliminar o
tratamento diferenciado”, complementa.
Os casos mais frequentemente relatados
dizem respeito a proprietários ou agentes imobiliários que, ao se depararem com
um candidato negro ou de origem estrangeira, anunciam repentinamente que o
imóvel já está alugado e se recusam a mostrá-lo.
Muitos jovens descrevem mudanças
imediatas de atitude durante o encontro presencial: tom mais ríspido, frieza
repentina, comentários intrusivos ou condescendentes. Esse tipo de situação
acaba levando jovens a adotar estratégias para evitar discriminação durante a
análise da candidatura – como não enviar foto, mudar o nome ou ocultar o local
de residência.
As mesmas estratégias são frequentemente
usadas na elaboração do currículo e no mercado profissional.
O relatório sublinha que essa
discriminação tem impactos múltiplos na vida social e profissional destes
jovens.
O
relatório inclui um capítulo específico sobre saúde: há obstáculos
discriminatórios no acesso ao sistema de cuidados.
A taxa de negligência em relação à saúde, que
está em ascensão na população em geral, é particularmente alta entre os jovens:
74% dos jovens de 18 a 24 anos relataram ter deixado de procurar atendimento
médico nos últimos 12 meses.
No caso
dos imigrantes, descendentes de imigrantes e negros, preconceitos e
estereótipos influenciam comportamentos e práticas de profissionais de saúde,
resultando em desigualdades e deterioração dos cuidados e da saúde, especialmente
quando se trata de mulheres.
“Tive muitas experiências desagradáveis
com profissionais de saúde. Primeiro, desde muito jovem, com meu clínico geral,
que constantemente minimizava minha dor e prescrevia medicamentos genéricos
para se livrar de mim.
Finalmente, aos 25 anos, fui
diagnosticada com uma doença autoimune no estômago, depois de trocar de clínico
e lutar para ser levada a sério”, relata uma jovem de 25 anos.
Embora os jovens sejam o segmento da
população que mais reconhece e denuncia a discriminação, são também os que
menos conhecem seus direitos de recurso.
“Para essa faixa etária, marcada por múltiplas
fragilidades e vulnerabilidades, a discriminação tende a corroer não apenas
suas trajetórias de vida, mas também seu senso de pertencimento, sua confiança
nas instituições e na promessa republicana, que são o alicerce de nossa coesão
social”, lamenta o documento, que também apresenta recomendações.
Entre elas estão: tornar obrigatórias as
formações sobre preconceitos raciais destinadas a professores e profissionais,
reavaliar o sistema de alocação escolar para reduzir a segregação, intensificar
ações de sensibilização no mercado imobiliário e melhorar a medição e o
acompanhamento das denúncias. ANG/RFI