França/África e o
desafio da auto-suficiência em combustíveis até 2030
Bissau, 07 Out
26(ANG) – A África poderá alcançar a auto-suficiência em combustíveis até 2030,
segundo o empresário nigeriano Aliko Dangote.
O empresário,
que inaugurou, no final de Setembro, uma nova unidade de processamento de
petróleo no Quénia, defende que o continente tem condições para reduzir
significativamente a dependência das importações de combustíveis.
Para o
economista angolano Carlos Rosado, a meta é ambiciosa, mas pode ser alcançada.
O especialista considera que, com investimentos em infra-estruturas e
logística, o continente africano poderá tornar-se praticamente autónomo na produção
de combustíveis.
África conseguirá tornar-se
auto-suficiente em combustíveis até 2030 ou a falta de capacidade de refinação
continuará a obrigar o continente a depender das importações?
Com estas refinarias da Nigéria, já
temos 700.000 barris e, para expandir a do Quénia, também são mais 700.000
barris. Em Angola temos em perspectiva mais três refinarias. Angola será
auto-suficiente e a Nigéria também já será auto-suficiente. Agora vamos ver,
relativamente aos outros países, como é que vai acontecer. Mas eu diria que, de
facto, 2030 é uma meta bastante ambiciosa.
Mas ainda há vários desafios, e
refiro-me às questões logísticas e à falta de infra-estruturas?
Pois, justamente. A própria construção
da refinaria é um desafio, embora tenha corrido relativamente bem Aliko
Dangote. Angola, por exemplo, tem a refinaria do Lobito, a maior delas, com
200.000 barris de petróleo, que há muitos anos está em construção. Em Angola,
pelo menos em projecto, tem havido avanços e recuos. Portanto, construir uma
refinaria leva sempre algum tempo.
Temos uma refinaria que está a ser
construída em duas fases, de 100.000 barris, e temos 30.000 em Cabinda, que
estamos a construir. Também temos enfrentado vários problemas com as
infra-estruturas e a falta de financiamento.
Mas, repito, temos que ser ambiciosos
quanto ao petróleo, seja em produção, sejam descobertas para satisfazer as
necessidades. A África também está empenhada em transformar as matérias-primas
no continente e, portanto, [isso aplica-se também ao petróleo].
Vários
especialistas defendem a necessidade de produzir combustíveis mais competitivos
face aos produtos importados. O grande problema é que o continente vende o
petróleo bruto a um baixo preço e depois vai comprá-lo a um preço superior,
quando é transformado…
O baixo preço também não existe, porque
o preço do petróleo é internacional. Agora, o que está aqui em causa,
efectivamente, é que nós exportamos o petróleo sem qualquer valor acrescentado.
E, portanto, se nós, se África, refinar o petróleo, o valor acrescentado que
fica no país, em África, fará com que o balanço das divisas também seja
positivo, porque, se se refina aqui, a margem que ia para o estrangeiro, para
as refinarias estrangeiras, fica em África.
É o caso concreto de Angola. Angola
precisa de mais ou menos 150.000 barris por dia, com o nível de desenvolvimento
actual. Nós só refinamos 50.000, um bocadinho menos, mas à volta de um terço do
que Angola precisa.
E, portanto, isto já acontece há anos.
Temos essa capacidade de refinar para satisfazer a procura interna, mas também
para exportar para outros países vizinhos. Naturalmente que as infra-estruturas
são um desafio, mas essa, creio eu, que deve ser a ambição e que, finalmente,
as lideranças africanas estão a perceber: efectivamente, precisamos de
transformar as matérias-primas em África. E o petróleo será, naturalmente, a
primeira delas.
Claro que sim. Veio criar essa urgência
e veio criar a oportunidade. Nós estávamos, enfim, ainda antes, talvez, da
crise do Médio Oriente, com a subida de Trump ao poder, perante uma questão da
transição energética que foi, de alguma maneira, repensada.
A guerra na Ucrânia e as sanções à
Rússia, digamos, puseram um bocadinho em causa a transição energética, quando
já se falava de acabar com os carros a gasolina e a diesel. E, portanto, a
transição energética sofreu um forte revés.
África vai precisar de combustíveis
durante muito, muito tempo. E, portanto, além da urgência para África por causa
da guerra no Irão, há também uma oportunidade para África no negócio da
refinação.
Agora, é preciso dizer também que a
refinação é um negócio complicado. Portanto, construir refinarias por construir
refinarias não me parece que deva ser esse o objectivo, porque elas têm,
naturalmente, que ser eficientes, têm que respeitar o ambiente. A qualidade dos
produtos refinados também tem que ser boa e cumprir as melhores práticas
internacionais.
Mas, sem dúvida nenhuma, a guerra no
Médio Oriente abriu uma oportunidade para África, não apenas para a
auto-suficiência, mas também para a exportação. O que é, naturalmente, por
exemplo, o caso de Angola.
Como disse, nós produzimos 1 milhão de
barris por dia. E as refinarias, todas as existentes e em projecto, são 450.000
barris. Portanto, nós só precisamos de um terço da capacidade de refinação e
vamos seguramente exportar para os países vizinhos.
Há projectos de pipeline, inclusivamente
a possibilidade de os países vizinhos serem eles próprios accionistas de, pelo
menos, uma refinaria em Angola. E, portanto, há essa possibilidade. A meta é
ambiciosa, mas o mundo é feito de ambição.
Mas isso também mostra que os
combustíveis fósseis, como o petróleo, ainda têm um papel importante no sistema
energético de muitos países africanos. Isto mostra que África ainda não está
preparada para abrir mão dos combustíveis fósseis?
Eu acho que nem África, nem o mundo
inteiro. O anúncio da morte do petróleo creio que foi um bocado precipitado. A
divisa de Trump é “drill, baby, drill”, não é? Portanto, a transição
energética foi posta em “espera”.
Mas África claramente não está
[preparada]. África está mais atrasada, embora nós vamos adoptar as melhores
práticas. Toda a gente concorda com isso, mas também África está muito longe de
preencher a sua quota de poluição.
A poluição não é o problema dos
combustíveis fósseis em África. São outros países: os Estados Unidos, a Europa
e a China. Nós ainda não preenchemos a nossa quota de poluição e, portanto, eu
acredito mesmo que, mesmo que corra bem, a transição energética vai durar ainda
algum tempo. Portanto, temos, enfim, muito tempo ainda pela frente para
rentabilizar as refinarias que vêm aí. ANG/RFI