Mongólia/COP17 aberta sob alerta global: desertificação já ameaça até a França
Bissau, 18 Ago 26 (ANG) - Enquanto a 17ª Conferência
das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) é
aberta nesta segunda-feira (17) na Mongólia, um tema que durante décadas
pareceu distante da Europa ganha as manchetes francesas: a degradação dos
solos.
Após uma sequência de ondas de calor e uma seca histórica neste verão, a França vê avançar um fenómeno geralmente associado ao Sahel africano ou à Ásia Central, mas que agora também preocupa agricultores e cientistas europeus.
Menos
conhecida do que as conferências da ONU sobre clima e biodiversidade, a COP sobre
desertificação reúne governos, pesquisadores e organizações internacionais até
28 de agosto para discutir como restaurar terras degradadas e frear a perda da
fertilidade do solo, considerada uma das maiores ameaças à segurança alimentar
global.
"A desertificação não é apenas um problema dos desertos", resume à RFI o pesquisador emérito Jean-Luc Chotte, do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), presidente do Comité Científico Francês sobre Desertificação (CSFD) e participante das negociações internacionais sobre o tema.
Segundo ele, o fenómeno está diretamente
relacionado à forma como os seres humanos utilizam a terra. "A degradação
dos solos deve-se principalmente ao uso inadequado da terra pelas atividades
humanas", afirma.
A discussão ganha força em um momento
crítico para a agricultura francesa. Nesta segunda-feira, o jornal Le
Monde destaca os impactos da seca sobre a produção agrícola do país. A
publicação relata quedas significativas na colheita de hortaliças e cereais,
escassez de pastagens para o gado e dificuldades inéditas enfrentadas pelos
produtores.
Entre as culturas mais afetadas estão
cenouras, cuja produção caiu cerca de 30%, além de alfaces, alhos-porós e
outros legumes que tiveram o crescimento interrompido pelas altas temperaturas.
Os solos excessivamente secos e compactados também dificultam a retirada de
batatas e outros tubérculos.
O cenário é resultado de uma combinação
explosiva entre temperaturas elevadas, escassez de chuvas e degradação do solo,
fatores que se reforçam mutuamente.
Um dos pontos frequentemente mal
compreendidos é a diferença entre aridez e seca.
De acordo com Jean-Luc Chotte, a
aridez é uma característica climática permanente. Ela define regiões onde a
evapotranspiração potencial supera amplamente a precipitação média ao longo dos
anos.
Já a seca é um fenômeno temporário,
caracterizado por um período excepcional de falta de água. Ela pode ocorrer
mesmo em regiões tradicionalmente úmidas e está associada à redução das chuvas,
temperaturas elevadas, ventos fortes e diminuição da água disponível nos solos,
rios e reservatórios.
Em outras palavras, uma região árida
convive naturalmente com pouca água; uma região afetada por seca enfrenta uma
situação anormal de escassez hídrica.
A
desertificação se manifesta de diferentes formas. Em áreas áridas, os
sinais físicos são facilmente observáveis: solos endurecidos que não conseguem
absorver água, erosão causada pelo vento, vegetação amarelada, redução da
cobertura vegetal e queda da produtividade agrícola.
Mas há um elemento menos visível e
igualmente importante.
"Quando se cava o solo,
praticamente não se encontra vida. As raízes se tornam superficiais e os
processos biológicos desaparecem", explica Chotte.
Os cientistas consideram o solo um
organismo vivo. Bilhões de microrganismos, fungos e pequenos invertebrados
garantem a reciclagem de nutrientes, a infiltração da água e a armazenagem de
carbono. Quando esse sistema entra em colapso, a fertilidade diminui
progressivamente.
A gravidade da situação levou a França a
solicitar oficialmente, durante a COP16 realizada em 2024, sua inclusão na
lista de países afetados pela desertificação da Convenção das Nações
Unidas.
A decisão foi baseada em estudos
conduzidos pelo Comité Científico sobre Desertificação, pela infraestrutura de
pesquisa DataTerra e pela ONG Nitidae.
Inicialmente, os pesquisadores
analisaram apenas áreas da França metropolitana com clima árido, semiárido ou
subúmido seco, concentradas principalmente no litoral mediterrâneo. Embora
representem menos de 2% do território nacional, essas regiões já apresentavam
sinais claros de degradação.
Em seguida, foram aplicados ao conjunto
do país três indicadores utilizados pela ONU: mudanças no uso da terra,
evolução da produtividade e estoques de carbono nos solos. O resultado mostrou
que 3% do território francês já pode ser considerado degradado de acordo com os
critérios internacionais.
No entanto, os especialistas consideram
que esses indicadores não captam toda a complexidade do problema. Quando outros
fatores são incluídos, como erosão hídrica e eólica, perda de biodiversidade,
contaminação por metais pesados, salinização e deslizamentos de terra, o
diagnóstico torna-se muito mais preocupante: cerca de 77% dos solos franceses
apresentam algum grau de degradação.
O jornal Le Figaro ressalta
que entre dois terços e três quartos das terras do país já estariam degradadas,
um quadro que até poucos anos atrás era associado sobretudo a regiões
vulneráveis da África e da Ásia.
Para Chotte, a principal causa da
desertificação continua sendo a pressão excessiva exercida sobre os
ecossistemas.
Entre as práticas que aceleram a
degradação estão a aração intensiva, a monocultura, a utilização excessiva de
fertilizantes químicos e a redução da matéria orgânica nos solos.
O mesmo ocorre na pecuária quando a
quantidade de animais ultrapassa a capacidade natural das pastagens.
"As mudanças climáticas amplificam
esse processo", explica o pesquisador. Com temperaturas mais elevadas,
aumenta a evapotranspiração. Ao mesmo tempo, as chuvas tornam-se mais
irregulares e mais violentas. Diante dessas dificuldades, muitos agricultores
intensificam ainda mais a produção para garantir renda e abastecimento,
alimentando um círculo vicioso de degradação.
Outro aspecto crucial é o papel dos
solos no combate ao aquecimento global. Eles constituem o maior reservatório
terrestre de carbono do planeta. Quando degradados, perdem a capacidade de
armazenar carbono e contribuem para o agravamento das mudanças
climáticas.
Apesar do diagnóstico alarmante,
especialistas defendem que a recuperação dos solos é possível.
Entre as medidas consideradas mais
eficazes estão a rotação de culturas, a redução da mobilização do solo, a
integração de árvores nas áreas agrícolas por meio da agrofloresta e a
preservação da mobilidade tradicional dos criadores de gado em regiões
áridas.
O jornal económico Les Echos destaca
um projeto-piloto desenvolvido no sudeste da França baseado na chamada
"hidrologia regenerativa". O objetivo é desacelerar o escoamento da
água da chuva para favorecer sua infiltração no solo.
A estratégia ajuda a reduzir a erosão,
aumenta a retenção de humidade e fortalece a resiliência das paisagens diante
das secas cada vez mais frequentes.
Para os participantes da COP17, essa
adaptação tornou-se uma questão urgente. Segundo Jean-Luc Chotte, o
desafio não é apenas proteger a produtividade agrícola, mas preservar um
recurso fundamental para a vida no planeta.
"O solo é a base da nossa
alimentação, da biodiversidade e do equilíbrio climático. Quando o degradamos,
comprometemos simultaneamente esses três pilares", alerta.
Na Mongólia, país marcado por vastas
áreas semiáridas e pelo avanço da degradação das terras, os debates que começam
nesta segunda-feira terão justamente essa missão: transformar a proteção dos
solos em uma prioridade global, antes que a desertificação deixe de ser uma
ameaça distante para se tornar uma realidade irreversível em cada vez mais
regiões do planeta.
ANG/RFI

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