segunda-feira, 18 de maio de 2026

São Tomé e Príncipe/Faleceu a grande poetisa e jornalista são-tomense Conceição Deus Lima

Bissau, 18 Mai 26(ANG) - Faleceu na manha de Sábado,  em São Tomé a jornalista e poetisa são-tomense Conceição Deus Lima, aos 64 anos. De acordo com os familiares, a poetisa sentiu-se mal logo pela manhã e foi levada para o hospital Ayres de Menezes onde acabou por falecer.

Grande nome do jornalismo, tendo trabalhado para órgãos de referência, Conceição Deus Lima deixou também uma vasta obra de poesia, tendo sido nomeadamente uma das fundadoras da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses.

Nascida em 08 de Dezembro de 1961 em Santana, na Ilha de São Tomé, Conceição Deus Lima revelou muito cedo inclinação para a poesia, tendo sido aos dezoito anos uma das mais jovens participantes na sexta conferência de escritores afro-asiáticos em Angola, em 1979. A seguir, a poetisa estudou jornalismo em Portugal e seguiu para Londres onde se formou em Estudos Africanos no prestigioso King's College em paralelo com os seus primeiros passos como jornalista na BBC.

Fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses, Conceição Lima exerceu cargos de responsabilidade na Rádio, Televisão e na imprensa escrita. Em 1993, depois da abertura multipartidária no arquipélago, fundou o extinto semanário 'O País Hoje', e mais tarde, em 2021, foi nomeada coordenadora nacional, para São Tomé e Príncipe, do Movimento Poético Mundial.

Para a historiadora e amiga da escritora, Inocência Mata, partiu um grande nome, uma voz livre e independente, uma pessoa que procurava a perfeição.

"Éramos muito amigas, ela era muito envolvida em vários aspectos da vida do país, sobretudo a vida cultural do país, muito atenta à vida política que não dava descanso a ninguém. A vida política do país era um inferno e então isso incomodava toda a gente. Também incomodava a Conceição. Ela era muito excessiva em tudo. Mesmo nas relações, ela era muito excessiva em tudo, mas era uma questão de temperamento", começa por contar a historiadora.

"Para além de eu ser estudiosa da poesia dela, ela dizia sempre 'tu que melhor conheces a minha poesia do que eu', tinha o privilégio de ler os livros antes de serem publicados. Ela mandava-me para eu dar a opinião. Eu lembrava-lhe sempre aquela afirmação de Raul Pompeia 'a crítica não ajuda a fazer obras de arte. Ajuda a compreendê-las'. Mas enfim, ela mandava-me sempre as coisas que escrevia. Era uma poetisa portentosa. (...) A São tinha o sentido de perfeição. Ela dizia muitas vezes 'Eu gostava de ser como a Ana Paula Tavares'. Porque a Ana Paula escreve de uma vez. Mas São corrigia muito. Ela fazia muitas correcções. Muitas vezes. Eu, por exemplo, quando escrevi um ensaio sobre 'O país de Akendenguê', eu apercebi-me quando o livro foi publicado e eu já tinha o livro, ela já me tinha enviado, quando o livro foi publicado, eu vi que estava muito diferente daquilo que ela me tinha enviado, que ela corrige muito. Era uma pessoa que tentava chegar à perfeição", diz Inocência Mata.

Para a estudiosa são-tomense, a forma de homenagear e recordar a escritora será "Conhecer a sua poesia, estudar a sua poesia, pensar que, na verdade, a sua poesia vai perdurar porque realmente é um dos nomes maiores que vai estar ao lado de Francisco Tenreiro, Alda Espírito Santo, cuja Comissão para a organização das Comemorações do Centenário, ela era uma figura importante, dinamizava os estudantes das escolas e fazia esse papel muito bem".

"Vamos recordá-la, sobretudo, pensando naquilo que representa a sua poesia. Vamos ter que continuar, como nós continuamos quando figuras muito importantes morrem. Continuar o seu trabalho e, sobretudo, o seu trabalho em prol de um jornalismo livre. Foi também um grande combate dela. Um jornalismo livre que não era possível fazer-se em São Tomé e Príncipe. Uma das razões pelas quais, na verdade, sobretudo há uns dez anos a esta parte, foi muito perseguida por um governo simplesmente porque se recusou a fazer aquilo que o primeiro-ministro queria. E realmente, ela afirmou-se como jornalista e, obviamente, como poetisa. E eu acho que é assim que nós vamos ter de continuar a lembrar Conceição Lima no jornalismo, na literatura e também na sua afirmação cívica", Inocência Mata, estudiosa e amiga da poetisa.

Reagindo igualmente à morte de Conceição Deus Lima, o Presidente são-tomense considerou  Conceição Deus Lima foi “uma das mais altas e luminosas vozes da cultura” do arquipélago e sublinhou que “a sua partida representa uma perda irreparável para a Cultura, para a Literatura e para a Nação são-tomense”.

No mesmo sentido, o Sindicato de Jornalistas São-tomense (SJS) considerou hoje que o jornalismo do arquipélago "ficou mais pobre" e que a escritora fez muito “para o crescimento do jornalismo de São Tomé e Príncipe”, mas partiu “numa altura em que não vê o sonho concretizado”, porque, segundo o sindicato, a classe está “bastante fragilizada”.

Em Portugal, a Editorial Caminho que publicou as suas obras, sublinhou igualmente que "foi com enorme tristeza" que recebeu a notícia da morte da autora.

Nome sonante da literatura são-tomense, Conceição Deus Lima foi nomeadamente autora de 'A Dolorosa Raiz do Micondó' (2006), 'O útero da casa' (2004), 'O país de Akendenguê' (2011) ou ainda 'O Mundo Visto do Meio' (2023), e foi a escritora do seu país mais traduzida pelo mundo fora, com livros designadamente em alemão, árabe, espanhol, francês, italiano e inglês.ANG/RFI

 

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