EUA/ONU declara escravidão de africanos como 'o
crime mais grave contra a humanidade'
Bissau, 26 Mar 26 (ANG) - A Assembleia
Geral da ONU declarou na quarta-feira (25) a escravidão do povo africano como
"o crime mais grave contra a humanidade", uma reparação defendida por
Gana.
O governo ganês lidera essa pauta
junto à entidade e espera um pedido de desculpas, além de tentar abrir caminho
para um processo de "justiça restaurativa".
O presidente de Gana, John Mahama, principal
defensor da União Africana por reparações relacionadas ao tráfico
transatlântico de escravizados, compareceu à sede das Nações Unidas para apoiar
a votação. Ele classificou a decisão como "histórica".
"Hoje, estamos reunidos aqui solenemente
e em solidariedade para proclamar a verdade e continuar o caminho rumo à cura e
à justiça restaurativa (...) A adoção desta resolução também serve como uma
salvaguarda contra o esquecimento", declarou Mahama durante a Assembleia
Geral.
Na
terça-feira (24), ele já havia criticado as políticas atuais que estão
"normalizando lentamente o apagamento", particularmente nos
Estados Unidos, onde "livros sobre o assunto são proibidos em escolas e
bibliotecas públicas".
A resolução foi
adotada sob aplausos com 123 votos a favor, três contra (Estados Unidos,
Israel, Argentina) e 52 abstenções (entre elas o Reino Unido e os
Estados-membros da União Europeia).
O texto declarou
"o tráfico de africanos escravizados e a escravização racializada de
africanos como o crime mais grave contra a humanidade", condenando esta
"injustiça desumana e persistente cometida contra a humanidade".
Esta conclusão
destaca a dimensão do fenômeno, a sua duração, a sua brutalidade, a sua
natureza sistêmica e as suas consequências, ainda hoje visíveis num mundo onde
os africanos e os afrodescendentes sofrem com a "discriminação racial e
com o neocolonialismo".
"Para justificar
o injustificável, os defensores e beneficiários da escravatura construíram uma
ideologia racista, transformando o preconceito em pseudociência", insistiu
o Secretário-Geral da ONU, António Guterres. E as "feridas"
infligidas por esta "ordem mundial perversa" ainda são
"profundas".
Portanto, é
necessário "expor a mentira da supremacia branca" e "trabalhar
pela verdade, justiça e reparações", argumentou Guterres.
A resolução também
apela aos Estados para que se envolvam em um processo de justiça que repare os
erros do passado, incluindo pedidos formais de desculpas, compensação para os
descendentes das vítimas, políticas de combate ao racismo e a restituição de
bens culturais e espirituais saqueados.
“Os responsáveis pelo
tráfico transatlântico de escravizados são conhecidos — os europeus, os Estados
Unidos — e esperamos que todos apresentem pedidos formais de desculpas à
África”, e não “pedidos de desculpas tímidas como alguns apresentaram no
passado”, declarou o ministro das Relações Exteriores de Gana, Samuel Okudzeto
Ablakwa, à AFP na terça-feira, acusando alguns dos
responsáveis de “se recusarem a reconhecer os seus crimes”.
Os Estados Unidos
justificaram o seu voto contra a resolução alegando que consideraram o texto
“altamente problemático”.
“Os EUA não
reconhecem o direito legal à reparação por injustiças históricas que não eram
ilegais ao abrigo do direito internacional na época em que ocorreram”, explicou
o seu representante, Dan Negrea, acusando também o texto de criar uma
“competição” entre crimes.
Argumentos
semelhantes foram apresentados pelos países da União Europeia e pelo Reino
Unido, que, embora tenham enfatizado a monstruosidade da escravidão, se
abstiveram na votação.
Com essa resolução,
"corre-se o risco de colocar tragédias históricas umas contra as outras,
tragédias que não devem ser comparadas, exceto à custa da memória das
vítimas", explicou o representante francês, Sylvain Fournel, argumentando
também contra o "esquecimento e o apagamento".
Essa crítica de
criação de uma hierarquia foi rejeitada e rebatida pelo ministro das Relações
Exteriores de Gana.
"Não estamos
hierarquizando o sofrimento. Não estamos dizendo que o nosso sofrimento é mais
valioso que o seu", resume Samuel Okudzeto.
"O que estamos dizendo é que, quando se observa todas as atrocidades que ocorreram na história da humanidade, nenhuma foi tão sistêmica, tão duradoura, com mais de 300 anos e com consequências tão permanentes", conclui. ANG/RFI/AFP

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