EUA/Comité da ONU defende reparações por escravidão e colonização da África
Bissau, 01 Set 26 (ANG) - O Comité para a Eliminação
da Discriminação Racial (CERD
) da ONU afirmou nesta segunda-feira (31) que
Estados que participaram do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e da
colonização da África devem adotar medidas reparatórias, incluindo compensação
financeira, para enfrentar os danos decorrentes.
A posição consta de diretrizes emitidas
pelo CERD, órgão composto por 18 especialistas independentes responsável por
monitorar a implementação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação Racial.
O texto, aprovado na semana passada e
publicado apenas nesta segunda-feira, pode constituir uma nova ferramenta para
embasar reivindicações de reparação. Trata-se de "um momento
decisivo", disse à AFP Pela Boker-Wilson, membro do comité.
Responsável por monitorar a implementação
da Convenção sobre Discriminação Racial pelos 182 Estados-Partes, o CERD propôs
uma nova interpretação desse tratado.
Entre os signatários da convenção estão
Estados Unidos, Reino Unido, França, Portugal e outros países envolvidos no
tráfico de escravizados. O Brasil a assinou em 7 de março de 1966 e a ratificou
em 27 de março de 1968.
Segundo a ONU, cerca de 15 milhões de
africanos foram levados à força para as Américas entre os séculos XVI e XIX, e
seus descendentes ainda enfrentam desigualdades e discriminação.
"Enfrentar a justiça histórica não
pode ser dissociado da luta contra a discriminação racial contemporânea",
afirmou Boker-Wilson, advogada liberiana especializada em direitos humanos que
participou do comité e da elaboração do documento.
Ela acredita que a nova interpretação
introduz "uma mudança de paradigma" na forma como a justiça
restaurativa é concebida, transformando-a de uma simples responsabilidade
histórica em uma obrigação jurídica.
Essa
nova análise surge após a Assembleia Geral da ONU ter adotado, em março, uma
resolução histórica que reconhece o tráfico transatlântico de escravizados como
“o crime mais grave contra a humanidade” , apesar da oposição dos Estados
Unidos e de alguns países europeus.
O tráfico transatlântico de escravizados "distorceu as relações económicas globais ao distribuir riquezas acumuladas injustamente entre sociedades e fronteiras, criando uma responsabilidade compartilhada por seus efeitos duradouros", afirma o documento.
O texto lembra que os Estados estão
obrigados pela convenção a "adotar medidas especiais para eliminar o
racismo estrutural e as desigualdades decorrentes do tráfico transatlântico de
escravizados".
Também ressalta a obrigação dos Estados
de garantir que "tribunais nacionais competentes e outras instituições
estatais possam conceder e fazer cumprir formas adequadas de reparação e que
pessoas de ascendência africana tenham acesso efetivo aos procedimentos
pertinentes".
Do ensino fundamental à universidade, o
documento recomenda "investigar o tráfico transatlântico de escravizados e
revelar toda a verdade".
A questão da reparação às vítimas da
escravidão é polémica. Embora a maioria dos Estados envolvidos concorde com
medidas simbólicas ou comemorativas, eles relutam em abordar a delicada questão
das reparações financeiras ou materiais.
A
pesquisadora, professora e especialista brasileira em tráfico negreiro no
oceano Atlântico Ana Lúcia Araújo ressalta que "nenhuma antiga
sociedade escravista pagou reparações às pessoas anteriormente escravizadas nas
décadas seguintes à emancipação (...) Pelo contrário, quase todas pagaram
indenizações aos antigos proprietários de escravizados".
O Haiti oferece um exemplo notável. Em troca do reconhecimento de sua independência pelo rei Carlos X, a antiga colónia francesa concordou, em 1825, em pagar uma indemnização de 150 milhões de francos-ouro aos antigos proprietários de terras e de escravizados.
A quantia acabou sendo reduzida para 90
milhões. Para cumprir essa obrigação, a jovem república caribenha, fundada por
ex-escravizados, teve de se endividar com bancos franceses, e a quitação dessa
"dívida dupla" levaria várias décadas.
Em 2025, o presidente francês Emmanuel
Macron iniciou um processo de memória em relação a essa questão, embora sem
abordar claramente a possibilidade de reparações financeiras.
No final de 2022, o então
primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, seguido pelo rei Willem-Alexander,
pediu desculpas pelo papel de seu país na escravidão. Também foi anunciado um
fundo plurianual de 200 milhões de euros destinado a iniciativas sociais.
Na ausência de compromissos concretos
por parte dos Estados, várias instituições e organizações estão tomando a
iniciativa.
A Igreja da Inglaterra pediu desculpas
por seus vínculos históricos com a escravidão e comprometeu-se, em 2023, a
criar um fundo plurianual de 100 milhões de libras esterlinas (aproximadamente
116 milhões de euros) para investir em comunidades afetadas pelo legado da
escravidão. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento.
O mercado de seguros Lloyd's of London
comprometeu-se, em 2023, a investir 52 milhões de libras (60 milhões de euros)
ao longo de pelo menos dez anos para combater a desigualdade racial.
Nos Estados Unidos, a cidade de
Evanston, em Illinois, optou por abordar a questão das reparações por meio do
combate à discriminação habitacional contra sua população negra.
Segundo a imprensa local, mais de US$ 6
milhões (5,3 milhões de euros) foram distribuídos a moradores elegíveis desde
2021 como parte desse projeto que, embora enfrente desafios jurídicos, continua
em andamento. ANG/RFI/Com agências

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