Suíça/Peritos de defesa recomendam autonomia à Europa face à "nova ordem" de Trump
Bissau, 11 Fev 26 (ANG) - Peritos da Conferência de Segurança de Munique (MSC), que decorre entre sexta-feira e domingo, recomendaram à Europa uma aposta rápida em áreas como a defesa aérea por estar "criticamente dependente" dos Estados Unidos.
A era em que a Europa podia confiar nos
Estados Unidos como um garante de segurança inquestionável terminou. Os líderes
europeus devem aceitar esta realidade e agir em conformidade",
justificaram os peritos no relatório de segurança da MSC.
Intitulado "Sob Destruição", o documento divulgado esta semana constitui o ponto de partida das discussões na conferência anual na cidade alemã entre líderes europeus e americanos.
O que está a ser
destruído, segundo os peritos, é a ordem internacional de que os Estados Unidos
foram um dos principais arquitetos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
1945.
O responsável pela
"demolição" é Donald Trump, que tem seguidores, e a "obra"
está em curso desde que iniciou o segundo mandato presidencial, em 20 de
janeiro de 2025, depois da primeira experiência na Casa Branca (2017-2021).
Para descrever a
ação do magnata ligado ao imobiliário, os peritos recorreram a termos como
"golpes de marreta", "escavadoras, bolas de demolição e
motosserra", uma ferramenta popularizada pelo Presidente argentino, Javier
Milei, aliado de Trump.
A capa do relatório
e o vídeo de promoção da conferência exibem um elefante e, no lançamento da
conferência, os promotores justificaram que decidiram abordar diretamente o
"elefante na sala".
Os Estados Unidos,
sob a presidência do líder dos republicanos, o partido do elefante,
"desrespeitam algumas das normas mais básicas do sistema pós-1945",
como a integridade territorial e a proibição da ameaça ou do uso da força,
denunciaram.
Exemplificaram com
a insistência de Trump em adquirir a Gronelândia ou o uso de força contra alvos
no Iraque, Irão, Nigéria, Somália, Síria, Venezuela e Iémen.
Tudo isto durante o
primeiro ano de mandato, assinalaram.
No relatório,
usaram expressões como "ansiedade de abandono" ou "a Europa
entre a negação e a aceitação" para descrever um ano de alguma
desorientação europeia - e até mesmo global - na forma de lidar com a América
de Trump.
"Os líderes
europeus evitaram, durante muito tempo, críticas abertas às políticas
norte-americanas. Em vez disso, seguiram uma estratégia dual: lutar para manter
Washington envolvido a quase qualquer custo, enquanto se preparam
cautelosamente para uma maior autonomia", afirmaram.
No caso da Ucrânia,
referiram que a "coligação dos voluntários" de mais de 30 parceiros
europeus assumiu a responsabilidade de coordenar a ajuda militar e financeira,
e de preparar garantias de segurança para o pós-cessar-fogo.
Mas tais esforços
"também expuseram a fraqueza estratégica duradoura da Europa: uma forte
dependência da liderança dos Estados Unidos e a falta de uma visão independente
e coerente para gerir a Rússia e moldar uma paz duradoura na Ucrânia".
Para os autores do
relatório, a abordagem de Washington à segurança europeia "é agora vista
como instável, oscilando entre garantias, condicionalidades e coerção",
pelo que a Europa tenta não hostilizar em demasia enquanto se prepara".
"A longo
prazo, isto exigirá não só aumentos sustentados nos gastos de defesa, mas
também um acordo rápido sobre prioridades de capacidades partilhadas",
consideraram.
Destacaram como
áreas mais críticas, por mais dependentes dos Estados Unidos, as da defesa
aérea, de mísseis a drones, ou ainda de transporte estratégico, informações e
capacidades cibernéticas.
Defenderam ainda
que os governos europeus devem reforçar a preparação civil e desenvolver
medidas coordenadas para "detetar, combater e dissuadir proativamente a
campanha híbrida" da Rússia.
Na região do
Indo-Pacífico, a "pax americana" também tem estado em causa, com
Trump a exigir aos aliados tradicionais mais gastos em defesa e a usar as
tarifas aduaneiras como arma de coerção.
"A China é já
o centro de gravidade económico da região", afirmaram os peritos da MSC.
Os autores
referiram que muitos intervenientes regionais, como o Japão, a Coreia do Sul ou
Taiwan, "responderam a esta mudança de poder e ao agravamento do cenário
de segurança" intensificando os próprios esforços de defesa.
Outra consequência
da "política de demolição" é o fim das regras que estiveram na base
da criação da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A administração
Trump argumentou que o sistema multilateral permitiu que parceiros comerciais
"se aproveitassem" e que rivais, especialmente a China,
"utilizassem práticas desleais para minar a base industrial
norte-americana".
Como resultado,
Washington impôs tarifas sobre quase todos os parceiros comerciais, incluindo
aliados próximos, para forçar a renegociação de acordos bilaterais sob termos
mais favoráveis.
"A utilização
da coerção económica --- através de ameaças de acesso ao mercado e sanções financeiras
--- tornou-se o principal instrumento da política externa económica
norte-americana", afirmaram os peritos.
Destacaram também
que os cortes orçamentais no apoio norte-americano ao desenvolvimento estão já
a afetar populações em muitos países de baixo e médio rendimento.
"A
incapacidade de responder a desastres e à pobreza extrema nos países do Sul
Global alimenta a instabilidade política e os fluxos migratórios
descontrolados", alertaram.
Os peritos da
Conferência de Munique não estão certos de que a destruição da ordem
internacional seja substituída por políticas que aumentem a segurança, a
prosperidade e a liberdade das pessoas.
Receiam mesmo uma
nova ordem com base no mundo dos negócios, dos interesses privados e em regiões
dominadas por potências regionais, em vez de regras e normas internacionais.
"Ironicamente,
este seria um mundo que privilegia os ricos e poderosos, e não aqueles que
depositaram esperanças na política de demolição", advertiram. ANG/Lusa

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