ONU/Fim de tratado Novo START
entre EUA e Rússia traz temores de nova era de proliferação nuclear
Bissau, 05 Fev 26 (ANG) - O mundo entrou em uma nova
fase de incerteza nuclear nesta quinta-feira (5), com a expiração oficial do
tratado Novo START.
Pela primeira vez em mais de meio
século, as duas potências que detêm mais de 80% das ogivas nucleares do planeta
não possuem limites vinculantes para seus arsenais estratégicos.
O secretário-geral da ONU, António
Guterres, descreveu o fim do pacto como um "momento grave para a paz e a
segurança internacionais", alertando que a dissolução ocorre em um período
muito delicado.
“Essa dissolução de décadas de conquistas
não poderia ocorrer em pior momento — o risco do uso de armas nucleares está em
seu nível mais alto em décadas”, alertou António Guterres em um comunicado.
Guterres fez um apelo para que
Washington e Moscou retornem à mesa de negociações sem demora para estabelecer
um novo quadro sucessor que garanta a estabilidade global.
Firmado
originalmente em 2010, o Novo START impunha limites rigorosos de 1.550 ogivas
estratégicas implantadas e 800 lançadores e bombardeiros pesados para cada
lado, contando com mecanismos de verificação mútua. No entanto, a eficácia do
tratado já estava severamente comprometida desde 2023, quando as inspeções
foram suspensas em decorrência da ofensiva russa em grande escala na Ucrânia.
Em setembro de 2025, o presidente russo,
Vladimir Putin, chegou a propor uma prorrogação de um ano, que foi vista como
uma boa ideia pelo presidente americano, Donald Trump, na época, mas os Estados
Unidos acabaram por não dar seguimento à proposta.
Na quarta-feira, véspera da expiração, o
governo russo declarou formalmente que não se sentia mais vinculado a qualquer
obrigação ou declaração recíproca prevista no tratado. Apesar disso, em
conversa com o líder chinês Xi Jinping, Putin enfatizou que a Rússia agirá de
maneira ponderada e responsável diante da nova situação. O assessor diplomático
russo, Yuri Ushakov, afirmou que o país permanece aberto a buscar vias de
negociação para assegurar a estabilidade estratégica.
Do lado
americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, indicou que qualquer novo
acordo de controle de armas no século XXI deve obrigatoriamente incluir a
China. Segundo Rubio, o arsenal considerável e em rápida expansão de Pequim torna
impossível um controle eficaz que envolva apenas russos e americanos.
A comunidade internacional reagiu com
forte preocupação ao vácuo jurídico deixado pelo fim do tratado. O papa Leão
XIV fez um apelo raro e urgente para que as potências não abandonem os
instrumentos de controle sem garantir um acompanhamento efetivo, exortando os
líderes a substituírem a lógica do medo e da desconfiança por uma ética
compartilhada para evitar uma nova corrida armamentista.
Na Europa, a França atribuiu a responsabilidade pelo retrocesso das normas internacionais à Rússia, alertando para o desaparecimento de qualquer limite sobre os maiores arsenais nucleares do mundo. Enquanto isso, a coalizão de ONGs ICAN pediu que Washington e Moscou respeitem os limites do tratado expirado enquanto negociam um novo quadro regulatório. ANG/RFI

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