quarta-feira, 3 de junho de 2026

Ucrânia/Drones ucranianos atingem São Petersburgo em abertura de fórum económico na cidade natal de Putin

Bissau, 03 Jun 26 (ANG) - Drones ucranianos atingiram São Petersburgo nesta quarta-feira (3), no dia de abertura do principal fórum económico da Rússia, provocando incêndio em terminal petrolífero, interrupção de voos e forte impacto simbólico.

O ataque durou mais de 5 horas, segundo autoridades locais, e ocorreu após bombardeios russos na Ucrânia que deixaram ao menos 23 mortos, sinalizando uma virada estratégica na guerra em território russo.

Às 9h18 pelo horário local (3h18 no horário de Brasília), um alerta enviado aos celulares dos moradores anunciou o “fim da ameaça de drones no território”, encerrando uma operação que se estendeu por mais de cinco horas e meia e atingiu simultaneamente instalações energéticas e militares na cidade onde ocorre o principal fórum económico da Rússia.

A sequência dos acontecimentos mostra que cerca de duas horas antes dessa mensagem, canais locais já difundiam imagens registadas por moradores com várias colunas densas de fumaça subindo na zona portuária. O elemento mais visível da ofensiva foi o incêndio em um terminal petrolífero estratégico na região do mar Báltico, localizado a menos de vinte quilómetros do local que recebe as delegações internacionais. 

O ataque, no entanto, não se limitou a esse alvo. Segundo autoridades ucranianas, drones também atingiram um navio de guerra em manutenção na base naval de Kronstadt, situada em uma ilha próxima à cidade e associada à frota russa do Báltico. A embarcação foi identificada por Kiev como a fragata “Boiky”, embora a extensão dos danos não tenha sido confirmada de forma independente. 

Autoridades russas confirmaram que infraestruturas foram atingidas em diferentes distritos urbanos, sem detalhar a natureza exata de todos os alvos. O governador Aleksandr Beglov informou que várias instalações foram danificadas e que houve feridos, mas sem registo de mortos na cidade. 

A operação contou com grande volume de drones. Autoridades regionais indicaram a interceptação de 59 aeronaves não tripuladas apenas na região de Leningrado, enquanto o Ministério da Defesa russo afirmou que 354 drones foram abatidos durante a noite em diferentes áreas do país, evidenciando a dimensão coordenada da ofensiva.

Registos divulgados nas redes sociais mostram moradores filmando drones sobrevoando bairros enquanto sistemas de defesa antiaérea eram acionados. Em algumas dessas imagens, um drone continua em trajetória mesmo sob disparos, o que sugere limitações na capacidade de interceptação em determinados pontos da cidade.

O ataque ocorreu poucas horas antes da abertura do Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, evento anual que reúne lideranças políticas e empresariais e que historicamente foi a principal plataforma russa de atração de capital estrangeiro. Cerca de 20 mil participantes de mais de 100 países são esperados nesta edição.  

O presidente Vladimir Putin deve discursar na sexta-feira (5), em uma apresentação considerada central para a estratégia política e económica do Kremlin. A área do evento recebeu reforço de segurança, embora não haja indicação de que drones tenham se aproximado diretamente do centro de convenções.

A cena registada na manhã desta quarta-feira evidencia o contraste entre a tentativa de projeção institucional e o contexto militar. Do centro histórico da cidade, uma nuvem de fumaça era visível enquanto explosões eram ouvidas, inclusive por participantes que já haviam chegado para o fórum.

Entre os convidados de maior destaque estão autoridades sauditas, incluindo o ministro da Energia, Abdulaziz bin Salman. A lista inclui ainda um conjunto heterogéneo de participantes estrangeiros, entre eles o ator norte-americano Steven Seagal, conhecido por sua proximidade com o governo russo.

Outro nome citado pelo Kremlin é Rodney Mims Cook Jr, indicado pelo presidente norte-americano Donald Trump para dirigir a comissão responsável por projetos  arquitetónicos federais nos Estados Unidos, sendo apontado como o primeiro representante em exercício daquele país presente no evento desde 2018.

Também constam entre os participantes figuras públicas e políticas de diferentes países, refletindo o novo perfil do fórum após a redução significativa da presença de lideranças europeias desde o início da guerra em larga escala.

O aeroporto internacional Pulkovo, localizado a cerca de vinte quilómetros do centro da cidade, precisou restringir temporariamente suas operações durante a noite. 

Mais de 30 voos foram cancelados ou sofreram atrasos, segundo relatos de veículos locais, e conexões entre Moscou e São Petersburgo continuaram afetadas no início da manhã, demonstrando o impacto direto da ofensiva sobre a mobilidade aérea na região.

Além das operações aéreas, houve relatos de interrupções na conectividade, com usuários registando dificuldades no acesso à internet móvel durante o período do ataque, o que ampliou o alcance dos efeitos sobre a rotina da população.

A dimensão simbólica do episódio é reforçada pelo histórico recente. No mês anterior, ameaças semelhantes com drones já haviam alterado a realização do desfile militar de 9 de Maio em Moscou, quando autoridades optaram por reduzir a exibição de equipamentos militares por razões de segurança.

O padrão indica uma mudança progressiva no ambiente interno russo, com eventos institucionais sendo diretamente afetados pela capacidade ucraniana de realizar ataques em profundidade no território adversário.

O ataque ocorre em um momento de intensificação das hostilidades entre Rússia e Ucrânia. Na véspera,uma ofensiva russa de grande escala com mísseis e drones resultou na morte de pelo menos 23 pessoas em território ucraniano. 

Em outro episódio relacionado, autoridades instaladas pela Rússia no leste da Ucrânia relataram a morte de civis após um drone atingir um ônibus que fazia a ligação entre Moscou e a cidade de Simferopol, na Crimeia anexada, evidenciando a multiplicidade de frentes ativas no conflito.

O Kremlin reagiu afirmando que continuará a responder com ataques sistemáticos contra a Ucrânia, reiterando a estratégia de pressão militar contínua. 

Do lado de Kiev, a ofensiva em São Petersburgo foi apresentada como parte de uma política de alcance ampliado, voltada a atingir alvos estratégicos fora da linha de frente. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que o plano está sendo executado de acordo com os objetivos estabelecidos, relacionando diretamente essas ações ao esforço de pressionar Moscou.

A capacidade de atingir instalações situadas a mais de mil quilómetros da fronteira confirma uma evolução técnica e operacional relevante no uso de drones, ampliando a área de risco no interior do território russo e alterando a dinâmica da guerra.

Ao mesmo tempo, o episódio levanta questionamentos dentro da própria Rússia sobre a eficácia de seus sistemas de defesa aérea, tema que passou a ganhar maior visibilidade à medida que ataques desse tipo se tornaram mais frequentes e mais próximos de centros urbanos estratégicos. ANG/RFI

 

 

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