Turquia/Cúpula da Otan
discute guerras no Irã e na Ucrânia
Com a presença de Donald Trump
confirmada, os aliados discutirão temas como o aumento dos investimentos em
defesa, as consequências da guerra com o Irã, a segurança no Estreito de Ormuz
e os próximos passos no conflito da Ucrânia.
Apesar de ser uma reunião entre aliados, a expectativa é de que
a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) seja marcada por
disputas diplomáticas. Donald Trump diverge da maioria dos países-membros em
praticamente todos os temas do encontro.
O presidente americano já era um crítico declarado da Otan antes
mesmo de voltar à Casa Branca, mas essa relação ficou ainda mais delicada após
a guerra com o Irã.
Durante o conflito, países da aliança se recusaram a enviar
reforços ou oferecer apoio logístico aos Estados Unidos e a Israel. Os aliados
negaram o uso de suas bases aéreas e demonstraram resistência em participar das
operações militares para reabrir e patrulhar o Estreito de Ormuz.
A expectativa é que Trump volte a pressionar pelo aumento dos
investimentos em defesa. Na cúpula do ano passado, os membros da Otan chegaram
a um acordo para elevar esse financiamento para 5% do Produto Interno Bruto
(PIB), sendo uma parte destinada à defesa tradicional e outra à infraestrutura
e capacidades relacionadas.
Mas, segundo Matt Whitaker, embaixador dos Estados Unidos na
Otan, muitos aliados ainda estão atrasados nesse compromisso. Na visão
americana, a relação dentro da aliança não é equilibrada e a presença do
contingente militar dos Estados Unidos na Europa também deve entrar nas
discussões.
Trump tem mencionado repetidamente a possibilidade de deixar a
Otan. O governo dos EUA também fala em uma profunda transformação da
aliança. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, mencionou uma
"OTAN 3.0", um termo que alimenta questionamentos nas capitais
europeias.
Em uma tentativa de preparar o terreno para a cúpula e reduzir
as tensões, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, visitou a Casa Branca.
Na ocasião, afirmou que a Otan está entrando em uma nova fase, centrada em uma
maior responsabilidade europeia, mas mantendo o engajamento dos Estados Unidos.
Outro ponto de atenção nos bastidores da
cúpula será o encontro entre Donald Trump e a primeira-ministra italiana,
Giorgia Meloni.
Até pouco tempo atrás, os dois líderes
eram considerados próximos por causa da semelhança ideológica, e Meloni era
vista como uma das principais interlocutoras europeias do governo republicano.
Mas a relação se deteriorou após a
decisão da Itália de negar aos Estados Unidos o uso da base aérea na Sicília
como apoio durante a guerra com o Irã.
Trump afirmou que Meloni tem baixa
popularidade na Itália por ter recusado ajudar os Estados Unidos e chegou a
dizer que a primeira-ministra teria implorado por uma foto ao lado dele.
Meloni respondeu dizendo que esses
ataques eram "constantes e gratuitos" e afirmou que sua proximidade
com Trump certamente não ajudou sua imagem política.
Uma pesquisa realizada em abril mostrou
que 35% dos italianos tinham uma visão favorável da primeira-ministra, enquanto
57% tinham uma visão negativa.
O encontro em Ancara será o primeiro
entre os dois líderes desde o início da troca pública de críticas.
A posição de Trump é conhecida: o presidente
americano queria mais apoio dos parceiros durante o conflito.
Já a maioria dos países europeus avalia que
Washington tentou arrastar a aliança para uma guerra que não era de interesse
dos demais membros e que ainda provocou impactos económicos globais com a alta
do preço do petróleo.
Por enquanto, o cessar-fogo foi
restabelecido e o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz será gradualmente
retomado.
O
objetivo dos aliados agora busca transformar essa trégua temporária em um
acordo permanente, evitando uma nova crise energética, além de debater uma
estratégia para garantir a segurança da passagem pelo estreito.
Trump, por outro lado, afirmou que
pretende chegar a um acordo com o Irã, mas voltou a ameaçar uma ação militar ao
dizer que, caso isso não aconteça, os Estados Unidos "teriam que terminar
o trabalho".
A guerra na Ucrânia também estará no
centro das discussões da cúpula. Existe um grupo, principalmente formado por
países europeus, que pretende manter o apoio financeiro, político e logístico à
Ucrânia pelo tempo que for necessário.
Trump, no entanto, mantém como
prioridade encerrar rapidamente o conflito. O presidente americano deve
pressionar por um acordo durante o encontro bilateral que terá com o presidente
ucraniano, Volodymyr Zelensky, em Ancara.
Nesta semana, Trump e o presidente
russo, Vladimir Putin, também concordaram em conversar por telefone, embora a
data da ligação ainda não tenha sido definida.
O presidente americano afirmou
recentemente que uma solução para a guerra está mais próxima do que muitos
imaginam, mas não apresentou detalhes.
A expectativa é que a busca por um
acordo para o conflito continue sendo um dos principais pontos de tensão entre
Washington e os aliados europeus.
Como país anfitrião da cúpula, a Turquia
pretende usar o evento para reiterar sua importância estratégica. Com o segundo
maior exército da Otan, depois do dos Estados Unidos, Ancara ocupa um lugar
central na estrutura militar da aliança.
Sua posição geográfica, na encruzilhada
da Europa, do Oriente Médio e do Mar Negro, a torna um ator indispensável.
O presidente Recep Tayyip Erdoğan vem
buscando um delicado equilíbrio há vários anos. Seu país fornece apoio militar
à Ucrânia, ao mesmo tempo que mantém um diálogo estreito com a Rússia, com quem
nunca rompeu relações diplomáticas.
Essa capacidade de dialogar com ambos os
lados permite que o país mantenha uma influência significativa em importantes
questões internacionais. Trump também mantém uma relação de trabalho
relativamente tranquila com o presidente turco, o que pode facilitar certas
trocas de informações durante a cúpula. ANG/RFI

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