Colômbia/Conferência reunirá países dispostos a planejar a saída
dos combustíveis fósseis
Bissau, 17 Abr 26 (ANG) - Os países dispostos a avançar rumo a um mundo com menos petróleo encontram-se a partir da próxima semana na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano.
Será a primeira vez que eles se reúnem
desde o lançamento de um debate internacional sobre o afastamento dos
combustíveis fósseis na COP30, em Belém.
Há
quase três anos, os 195 participantes da COP28, em Dubai, chegaram a um acordo
histórico sobre a necessidade de uma transição “para longe” dos fósseis,
principais causadores das mudanças climáticas. Mas desde então, na prática, o assunto
desapareceu dos principais fóruns internacionais que poderiam encaminhar
alternativas para esse tema complexo.
A iniciativa do Brasil em abrir esta conversa em Belém acabou bloqueando a última Conferência do Clima das Nações Unidas. Menos da metade dos países queria ver avanços, e um número semelhante forçava no sentido contrário. A Colômbia, então, anunciou a intenção de promover uma reunião internacional, com o apoio da Holanda.
Todas as economias dependem, em maior ou menor medida, do petróleo, do carvão e do gás. As guerras na Ucrânia e, mais ainda, no Oriente Médio, evidenciam os riscos estruturais dessa dependência – e tornam a transição ainda mais urgente, inclusive do ponto de vista económico.
“O fato de a gente ter essa dificuldade multilateral neste momento dá mais peso a tentativas de começar com os dispostos. A ideia de Santa Marta é começar com aquela coalizão de 24 países que assinaram a Declaração da Colômbia em Belém, e 84 países se disseram dispostos a debater um mapa do caminho, e envolver esses países em compromissos de descarbonização, traçar os seus mapas do caminho nacionais”, explica Cláudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima (OC).
“A ideia é tentar crescer esse círculo
de países até que o barulho feito em torno dessa agenda se torne incontornável
e o ruído cresça tanto que não deixe ninguém dormir nem em Moscou, nem em Riad,
nem em Washington”, complementa.
Até agora, 50 países confirmaram
presença, entre eles Brasil, México, França, Noruega, Reino Unido e Angola,
além da Comissão Europeia e centenas de organizações da sociedade civil e
organismos de governo. Em recente coletiva de imprensa, a ministra do Meio
Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, disse que o encontro de 24 a 29 de
abril quer abordar os caminhos para os países buscarem soberania energética, ao
mesmo tempo em que se afastam do petróleo, do carvão e do gás.
“Como podemos balancear a dependência de
petróleo nas nossas matrizes energéticas, incluindo o consumo, para que elas
sejam mais limpas e que possamos organizar a eliminação das fontes fósseis?”,
afirmou a ministra. “Outro ponto é sobre o multilateralismo e como vamos criar
novas cooperações para essa agenda.”
A produção
e o consumo das fontes fósseis são responsáveis por mais de 70% das
emissões globais de gases de efeito estufa, que causam o aquecimento global.
Países como Tuvalu, arquipélago do Pacífico, esperam que o encontro na Colômbia
seja um primeiro passo para que as nações “possam escolher as pessoas em vez
dos recursos do petróleo”.
“Nós não temos mais tempo para os
debates abstratos que acabam apenas em palavras. Em Tuvalu, o oceano está na
nossa porta. Já estamos adaptando as nossas zonas costeiras e realocando
comunidades mais para dentro, em terra”, declarou Maina Talia, ministro do Meio
Ambiente de Tuvalu. “Acho que já tentamos os processos da ONU há tantas COPs:
foram 30, que para nós, sempre falharam. A Conferência de Santa Marta, ao
afrontar essa questão, traz muita esperança para os países mais impactados pelo
aquecimento global.”
A
presidência brasileira da COP30 – que exerce o mandato até a realização do
próximo evento, em Novembro, na Turquia – vai participar da reunião em Santa
Marta. O embaixador André Corrêa do Lago assumiu o compromisso de apresentar um
mapa do caminho global para a transição longe dos fósseis ao longo deste ano.
Os brasileiros têm realizado uma série de consultas com países e organismos internacionais para consolidar a proposta.
“Brasil e Colômbia estão liderando do
ponto de vista político, e a China liderando do ponto de vista tecnológico e
económico. O Sul Global cansou de esperar as soluções que nunca vieram do Norte
e está tomando a iniciativa de liderar esse processo, embora alguns dos
principais bloqueadores de ambição climática estejam no Sul Global”, salientou
Angelo, do OC.
A maioria dos participantes da reunião
em Santa Marta ainda não definiu os seus mapas do caminho nacionais para sair
dos fósseis, a começar pelo Brasil. Em Dezembro, o presidente Luís Inácio Lula
da Silva deu 60 dias para quatro ministérios – Fazenda, Meio Ambiente,
Minas e Energia e Casa Civil – chegarem a um projeto, que até agora não
apareceu. ANG/RFI

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