Angola/ Papa Leão XIV
adverte para injustiça que corrompe corações e para comércio supersticioso
Bissau, 21Abr 26(ANG.) - O Papa Leão XIV apelou hoje, em Saurimo, no Leste de Angola, à fé em Cristo, alertando que “quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”.
“Com
efeito, hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos,
explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza. Quando a injustiça
corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”, declarou,
na homília que está a proferir na missa que reúne milhares de pessoas na
esplanada de Saurimo.
Leão
XIV, que se referiu ao “comércio supersticioso, no qual Deus se torna um ídolo
que se procura apenas quando nos serve e enquanto nos serve”, salientou que
Cristo “não rejeita esta procura insincera, mas incentiva a sua conversão”.
“Não
manda embora a multidão, mas convida todos a examinar o que palpita no nosso
coração. Cristo chama-nos à liberdade: não quer servos nem clientes, mas
procura irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser. Para corresponder
com fé a este amor, não basta ouvir falar de Jesus: é preciso acolher o sentido
das suas palavras. Nem basta sequer ver o que Jesus faz: é preciso seguir e
imitar a sua iniciativa”, apelou.
A
Igreja Católica angolana tem manifestado a sua preocupação com o crescimento de
rituais associados a superstições, questão muito presente no Leste de Angola,
região onde a evangelização cristã foi mais tardia.
“Até
os mais belos dons do Senhor, que cuida sempre do seu povo, se tornam então uma
exigência, um prémio ou uma chantagem, e são mal compreendidos precisamente por
quem os recebe. O relato evangélico faz-nos, portanto, compreender que existem
motivos errados para procurar Cristo, sobretudo quando é considerado um guru ou
um amuleto da sorte”, advertiu.
O
Papa citou o Evangelho – “Vós procurais-me, não por terdes visto sinais
miraculosos, mas porque comestes dos pães e vos saciastes” – para afirmar que
Cristo pergunta se é procurado “por gratidão ou por interesse, por cálculo ou
por amor”.
Falando
em português, Leão XIV afirmou que o que o trouxe até aqui, para estar com a
população de Saurimo, foi a “Boa Nova, o Evangelho que corre como sangue nas
veias”.
“Não
viemos ao mundo para morrer. Não nascemos para nos tornarmos escravos nem da
corrupção da carne, nem da corrupção da alma: toda a forma de opressão,
violência, exploração e mentira nega a ressurreição de Cristo, dom supremo da
nossa liberdade. Na verdade, esta libertação do mal e da morte não acontece
apenas no fim dos tempos, mas na história de todos os dias”, declarou.
A
celebração da missa foi o último ato do Papa em Saurimo, onde chegou cerca das
09:00, tendo-se, de seguida, deslocado ao Centro de Idosos em Muanguene e
visitado a Sé Catedral da capital da Lunda Sul.
Leão
XIV foi o único dos três Papas que visitaram Angola – João Paulo II, em 1992, e
Bento XVI, em 2009 – a deslocar-se à zona Leste do país, aquela que teve uma
evangelização mais tardia e onde o catolicismo tem menor impacto junto da
população.
A
igreja tem denunciado as gritantes desigualdades, numa região rica em recursos,
sobretudo diamantes, e marcada por elevadas taxas de desemprego e
analfabetismo.
No
lar de idosos, Leão XIV recebeu uma estatueta do Pensador – Samanhonga, que, em
chokwe significa “Pensamento do Coração”, a mesma imagem que está nas camisolas
das mulheres que o aguardavam no aeroporto e que integram o coro que entoou os
cânticos durante a missa.
Vestidas
com panos africanos alusivos à Igreja Católica em Angola, têm inscritas na
t-shirt a expressão chokwé que significa Bem-Vindo a Saurimo – Tambwokeno Um
Saurimo – a imagem de Mwana Po (mulher jovem) e os tradicionais batuques
chokwe, que, lamentaram à Lusa, ficaram de fora da celebração.
Numa
cidade que não se enfeitou para receber o Papa, a festa aconteceu no recinto
onde se realizou a missa, com milhares de pessoas, protegidas do sol por
chapéus de chuva, saudaram efusivamente Leão XIV, que percorreu o recinto no
papamóvel.
Leão
XIV parte ao princípio da tarde para Luanda, onde fará o último discurso em
Angola, num encontro com bispos e religiosos, partindo na terça-feira de manhã
para Malabo, na Guiné Equatorial, onde termina a visita pastoral a África que
se iniciou na Argélia e incluiu também os Camarões.
ANG/Inforpress/Lusa

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