EUA/Israel e Líbano
se preparam para negociações diretas e sob forte tensão em Washington
Bissau, 14 Abr 26 8ANG) - Representantes
libaneses e israelenses se reúnem nesta terça‑feira (14) em Washington, sob
mediação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, para a primeira rodada
de negociações diretas de paz entre os dois países em décadas.
O momento pode marcar a história do
Oriente Médio e abrir caminho o estabelecimento de relações diplomáticas entre
Israel e Líbano. No entanto, o clima é de tensão: na véspera, o líder do
Hezbollah, Naim Qassem, pediu o cancelamento do encontro, classificando a
iniciativa de “capitulação”.
Pela
primeira vez desde os anos 1980 representantes oficiais do Líbano e de Israel
estarão frente a frente. Paralelamente, as forças israelenses e o Hezbollah
continuam se enfrentando em uma guerra que matou mais de dois mil libaneses,
deslocando mais de um milhão de pessoas.
Nesta primeira rodada de negociações em
Washington, Israel será representado pelo embaixador no país, Yechiel Leiter. O
Líbano será representado pela embaixadora nos Estados Unidos, Nada Hamadeh
Moawad.
A delegação dos Estados Unidos será
liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio. O grupo ainda conta com a
participação do embaixador americano no Líbano, Michel Issa, e o funcionário do
Departamento de Estado Mike Needham.
Segundo fontes citadas pelo portal
israelense Ynet, a estratégia do país é “conduzir negociações com o
Líbano como se o Hezbollah não existisse e seguir com as operações militares
contra o Hezbollah como se não houvesse negociações de paz”.
O foco
das vponversas é o desarmamento do grupo xiita libanês. Segundo informações
apuradas pela RFI, oficiais
israelenses têm pouca expectativa de que o governo do Líbano tenha capacidade
ou obtenha sucesso prático nesta missão.
Ao mesmo tempo, o regime iraniano,
principal aliado do Hezbollah, deixa claro que se opõe a este processo. Ali
Akbar Velayati, assessor do líder supremo do Irã, declarou nas redes sociais
que o primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, "deveria saber que ignorar o
papel singular da resistência e do heroico Hezbollah vai expor o Líbano a
riscos de segurança irreparáveis".
"A estabilidade do Líbano depende
exclusivamente da coesão entre o governo e a resistência", declarou Akbar.
Em resposta ao fracasso das negociações
entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad, no Paquistão, uma fonte oficial do
governo libanês declarou ao jornal Nida al-Watan: "A questão
não afetará as negociações diretas entre o Líbano e Israel em Washington".
Segundo esta fonte, "a presidência
do Líbano e o primeiro-ministro libanês conseguiram separar a questão libanesa
da iraniana e impediram que seus destinos se entrelaçassem. O Irã não terá
permissão para intervir e retomar o controle da situação no Líbano".
O governo libanês tem buscado se afastar
do Hezbollah, o que pode facilitar algum tipo de acordo com Israel, apesar do
ceticismo das autoridades israelenses.
O chefe
do Estado-Maior do Exército de Israel, Eyal Zamir, garante que não há
cessar-fogo no Líbano.O posicionamento é apoiado pelo primeiro-ministro
israelenses, Benjamin Netanyahu, e seu ministro da Defesa, Israel Katz.
As declarações podem ter relação também
com questões internas de Israel. A população do norte do país mostra
insatisfação com o gerenciamento da guerra pelo governo.
Uma pesquisa realizada com os moradores
da cidade de Haifa e dos distritos do norte – aqueles mais afetados pelos
confrontos com o Hezbollah – mostra que 70% dão uma nota “ruim” ao governo em
relação à guerra. Apenas um quarto faz uma avaliação favorável.
Os moradores do norte do país
representam cerca de 25% da população de Israel e seu poder político é estimado
em 35 das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense.
Ao mesmo tempo, depois de ataques
intensos contra o Líbano na última semana, Netanyahu determinou moderação, após
sofrer grande pressão internacional, inclusive por parte do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump.
Após a grande destruição causada pelos
ataques israelenses em Beirute, com a morte de centenas civis, agora, ao
contrário das semanas anteriores da guerra, um ataque contra a capital libanesa
ou a Dahyieh, considerado o reduto do Hezbollah, requer a aprovação do próprio
Netanyahu.
Segundo o Ministério da Saúde do Líbano,
desde a retomada dos combates em 2 de março, os ataques israelenses mataram
2.055 pessoas, incluindo 167 desde a última sexta-feira. Doze soldados
israelenses e dois civis foram mortos pelo Hezbollah no mesmo período, segundo
as autoridades israelenses.
Durante a guerra contra o Irã, colonos
israelenses mataram a tiros seis palestinos na região. Outros cinco foram
mortos por soldados.
A organização de direitos humanos
israelense Yesh Din (“Há lei”, em hebraico) documenta esses casos e monitora
crimes com motivação ideológica cometidos por israelenses contra palestinos na
Cisjordânia.
Segundo a organização, entre 2005 e
2025, 93,6% dos inquéritos abertos pela polícia israelense para investigar atos
de violência cometidos por colonos israelenses foram encerrados sem
indiciamento.
Entre 2016 e 2024, foram registadas
2.427 denúncias de crimes cometidos por soldados contra palestinos ou suas propriedades
na Cisjordânia. Deste total, apenas 552 investigações (22,7%) foram abertas e
23 acusações (0,9%) foram formalizadas.ANG/RFI

Sem comentários:
Enviar um comentário