Médio Oriente/ Trump adia ameaças e anuncia cessar-fogo de duas semanas no Irã
Bissau, 08 Abr 26 (ANG) - Os Estados Unidos e o Irã concordaram na terça-feira (7) com um cessar-fogo de duas semanas antes da expiração do prazo estabelecido pelo presidente americano, Donald Trump, para destruir o país.
Na rede social Truth Social, o líder republicano comemorou "um grande dia para a paz no mundo". No entanto, a situação no Oriente Médio ainda é instável e os ataques continuam."O Irã quer que isso aconteça, eles
já tiveram o suficiente!", afirmou Trump nesta manhã na rede social Truth
Social. Horas antes, em entrevista à agência AFP, o presidente
americano descreveu uma "vitória total e completa" dos Estados
Unidos. Ao ser questionado sobre a possibilidade de retomar as ameaças de
destruir o Irã caso o acordo fracasse, Trump se esquivou: "vocês
terão de esperar para saber", disse.
Na prática, o cenário ainda é bastante instável e contraditório. Apesar do anúncio de cessar-fogo, tanto Israel quanto o Irã continuaram realizando ataques na madrugada. Além disso, segundo o governo israelense, o acordo "não inclui o Líbano", país que foi arrastado para a guerra depois que o movimento libanês Hezbollah, apoiado por Teerã, lançou ataques contra o território israelense, no início de março.
Ao mesmo tempo, há uma sinalização
diplomática importante por parte de Teerã. O ministro das Relações Exteriores
do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o país aceita a trégua, mas com uma
condição clara: que os ataques contra o território iraniano sejam
interrompidos.
Segundo ele,o acordo incluiria a
reabertura do Estreito de Ormuz para navegação segura, um ponto
estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Esse plano ainda prevê uma mudança significativa: Irã e Omã poderiam cobrar taxas de embarcações que transitarem pelo estreito, algo inédito, já que a região sempre foi tratada como uma via internacional livre.
Do lado de Israel, a adesão ao
cessar-fogo também veio acompanhada de ressalvas. Segundo as autoridades
israelenses, os Estados Unidos coordenaram previamente os termos do compromisso
com o governo de Benjamin Netanyahu. A expectativa é que, nas próximas
negociações, Washington mantenha exigências duras contra o Irã, incluindo o fim
do programa nuclear e de mísseis balísticos.
Os primeiros movimentos para implementação do acordo ocorrem no plano
diplomático. O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, convidou
representantes dos Estados Unidos, do Irã e de países aliados para uma nova
rodada de negociações em Islamabad na sexta-feira (10), numa tentativa travar
um compromisso mais amplo e definitivo.
O convite veio acompanhado de um anúncio importante: Sharif garante que já está em vigor um cessar-fogo imediato em todas as frentes do conflito. De acordo com ele, a trégua inclui não apenas o território iraniano, mas também áreas estratégicas da região, como o Líbano e outros pontos onde há envolvimento indireto das forças aliadas.
O Primeiro-ministro paquistanês afirmou
que Estados Unidos, Irã e seus aliados concordaram com a interrupção imediata
das hostilidades e apresentou a medida como um passo para conter a escalada
militar das últimas semanas.
A China aparece como um ator central nos
bastidores desse acordo. Segundo o jornal americano The New York Times,
as autoridades chinesas atuaram diretamente para convencer o Irã a demonstrar
mais flexibilidade e aceitar o caminho do cessar-fogo.
Pequim é hoje o principal parceiro
comercial de Teerã, o que dá ao país uma influência estratégica importante. De
acordo com fontes ouvidas pelo jornal, autoridades chinesas mantiveram contato
com representantes iranianos ao longo das negociações, pressionando por uma
saída diplomática em meio à escalada da violência.
Essa atuação não foi isolada. A China
trabalhou principalmente por meio de intermediários, entre eles o próprio
Paquistão, além de Turquia e Egito, em uma tentativa de usar sua influência sem
se expor diretamente como mediadora principal.
Nesta quarta-feira (8), Trump tem na
agenda uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Washington. O
encontro deverá abordar os desdobramentos do conflito e a coordenação com
aliados.
A reunião ocorre em meio a duras
críticas do presidente american a membro da aliança. Segundo o líder
republicano, faltou apoio dos integrantes da Otan aos Estados Unidos para
pressionatr o Irã a reabrir o Estreito de Ormuz.
Em entrevista ao The Telegraph, Trump afirmou que a permanência dos Estados Unidos na aliança está “nem está mais em discussão". "A Otan nunca me convenceu", declarou.
Mark Rutte fica em Washington até a
próxima sexta-feira e deve se reunir também com o secretário de Estado, Marco
Rubio, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth. A expectativa é discutir o
alinhamento com aliados em meio ao conflito.
As ameaças de Trump, especialmente a declaração de que poderia “acabar com a civilização no Irã”, provocaram críticas dentro do próprio Partido Republicano. Alguns aliados tradicionais passaram a questionar não apenas a estratégia, mas também os limites éticos desse tipo de discurso.
O congressista republicano do Texas,
Nathaniel Moran, por exemplo, afirmou publicamente que não apoia a ideia de
destruir uma civilização inteira, dizendo que isso vai contra os princípios que
historicamente orientam os Estados Unidos.
As críticas também vieram de figuras
influentes do campo conservador na mídia, como Tucker Carlson, Alex Jones,
Candace Owens e Joe Rogan, que têm grande alcance entre a base republicana e
ajudaram a amplificar o desconforto dentro do partido.
Uma das reações mais duras veio da
ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que já foi uma aliada próxima de Trump
e classificou a ameaça como “insana”, chegando a defender seu afastamento do
cargo.
Além disso, houve repercussão dentro da
área de segurança nacional. Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contra
terrorismo, renunciou ao cargo em protesto contra os ataques ao Irã e alertou
que esse tipo de postura pode comprometer a reputação internacional dos Estados
Unidos.
Segundo ele, ao ameaçar atingir
infraestrutura civil e adotar um discurso de destruição total, o país corre o
risco de deixar de ser visto como uma força estabilizadora e passar a ser
percebido como um agente de instabilidade global. ANG/RFI

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