França/Um em cada três franceses tem
vínculo direto ou indireto com imigração, mas desigualdades persistem
Bissau, 21 Mai 26 (ANG) - Estudo divulgado na quarta-feira (20) pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos (Ined) mostra que a França é cada vez mais misturada, mas segue marcada por fortes desigualdades ligadas à origem migratória.
A pesquisa, feita com mais de 27 mil pessoas, revela
que um terço da população tem vínculo com a imigração e que muitos imigrantes
enfrentam trajetórias caóticas, com períodos sem documentos ou moradia. A crise
habitacional agrava a segregação e amplia disparidades duráveis no país.
A nova
edição do estudo “Trajetórias e Origens 2”, conduzido pelo Instituto Nacional
de Estudos Demográficos (Ined), redesenha o retrato da sociedade francesa e
revela a profundidade das desigualdades ligadas à origem migratória.
A pesquisa descreve um país “cada vez mais misturado”, mas ainda marcado por disparidades étnico-raciais persistentes, em um contexto político no qual a imigração é tratada como ruptura, e não como componente estrutural.
O levantamento, realizado entre 2019 e 2020 com mais de 27 mil pessoas de 18 a 59 anos, é o mais amplo do tipo em mais de uma década e se tornou referência para compreender transformações sociais e demográficas.
Os dados mostram que a imigração está
enraizada na vida social francesa. Uma em cada três pessoas tem algum vínculo
direto ou indireto com a imigração: 13% da população é imigrante, 11% é filha
de imigrantes e 10% é neta de imigrantes. Quando se incluem pessoas que vivem
com parceiros de origem migratória, o percentual sobe para 41%.
Para o Ined, isso desmonta a ideia de
que a imigração seria fenómeno externo à identidade nacional. Ao contrário,
trata-se de uma dimensão ordinária da sociedade, presente em famílias de
diferentes regiões, classes e gerações.
A pesquisa detalha ainda a diversidade
das origens migratórias. Entre os imigrantes, 32% vêm do Magreb, 20% da África
subsaariana, 16% da Ásia e 28% da Europa. Entre os netos de imigrantes, a
predominância europeia é esmagadora, reflexo das ondas migratórias mais
antigas.
O
estudo destaca que, ao longo das gerações, as fronteiras entre origens se
diluem: casamentos mistos se tornam mais frequentes e a composição
familiar se torna mais heterogénea. Para o pesquisador Mathieu Ichou, essa
convergência mostra que identidades migratórias não se organizam em “blocos
estanques”, mas se transformam continuamente.
Além disso, o estudo revela que a situação administrativa pode mudar profundamente ao longo dos anos: pessoas inicialmente consideradas inelegíveis para visto ou autorização de residência podem, mais tarde, obter um título de residente ou até a nacionalidade francesa.
Quase um quarto dos que já estiveram sem
documentos conseguiu regularizar sua situação com uma autorização de longa
duração, e proporção semelhante foi naturalizada.
Outro ponto relevante é o nível de
escolaridade dos imigrantes. Mais da metade dos que chegaram ao país a partir
de 2009 já possuíam diploma de ensino superior antes da migração, proporção
superior à observada entre franceses sem ascendência migratória.
O dado
contraria estereótipos frequentemente mobilizados no debate público e reforça a
diversidade de perfis presentes nas migrações contemporâneas. A proporção de
pessoas com diploma equivalente a Bac+3 (equivalente à graduação completa
no Brasil) é, em média, mais alta entre imigrantes do que entre franceses sem
histórico migratório.
A pesquisa também aborda a experiência da irregularidade administrativa. Um em cada cinco imigrantes que chegaram após os 16 anos já viveu algum período sem documentos, e proporção semelhante afirma ter passado por momentos sem domicílio fixo. Esses episódios ajudam a explicar desigualdades persistentes no acesso à moradia e na estabilidade de vida.
O Ined observa que a proporção de
imigrantes em situação irregular não aumentou ao longo das décadas, ao
contrário do que sugerem discursos políticos, mas as condições de moradia se
deterioraram desde o início dos anos 2000.
A
irregularidade costuma surgir após os primeiros meses no país, quando a pessoa
já havia iniciado seu processo de instalação com visto válido ou moradia
própria. Apenas 9 por cento dos imigrantes sem documentos entraram na França
sem visto, o que contraria a imagem de chegadas clandestinas generalizadas.
As dificuldades de moradia aparecem como um dos pontos mais críticos. Entre os imigrantes que chegaram após 2010, cerca de 5% viveram algum período sem abrigo, mais que o dobro da proporção registada entre os que chegaram antes de 2000.
O Ined
ressalta que as condições de moradia nos primeiros meses são determinantes para
o restante da trajetória, influenciando acesso ao emprego, estabilidade
familiar e mobilidade social. A crise habitacional e o aumento dos preços
imobiliários reduziram ainda mais as margens de manobra das populações mais
vulneráveis.
Mesmo quando conseguem acessar o sistema de habitação social, muitos imigrantes acabam concentrados nos segmentos mais precarizados do parque público. Segundo o estudo, 40% das pessoas que já viveram na rua ou em ocupações irregulares hoje residem em conjuntos habitacionais localizados em áreas urbanas mais pobres.
Para o Ined, processos de segregação e
relocalização sempre existiram, mas foram agravados pela crise habitacional
recente.
O
instituto afirma que melhorar as condições de moradia das populações mais
fragilizadas é essencial para combater desigualdades sociais ligadas à
origem migratória.
As desigualdades habitacionais, lembra o estudo, produzem outras desigualdades — económicas, escolares e territoriais — e podem transformar a precariedade inicial em desvantagem permanente.
ANG/RFI/AFP

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