ONU/”Mundo caminha para superar
limite de 1,5°C, mas aquecimento ainda pode ser reduzido”, diz
ONU
Bissau, 03 Set 26 (ANG) - O mundo está prestes a ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global, segundo novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), publicado , quarta-feira (2).
No entanto, o documento afirma que isso não significa
que a meta esteja definitivamente perdida. Ainda é possível limitar o
aquecimento e, posteriormente, reduzir as temperaturas.
A prioridade, agora, segundo o relatório
é limitar ao máximo o excedente de temperatura, atingir um pico de aquecimento
o mais baixo possível e, depois, reduzir as temperaturas, segundo a
sul-africana Debra Roberts, coautora do relatório.
Para isso, "precisamos reduzir
drasticamente todas as nossas emissões de gases de efeito estufa",
insiste.
"Mas, para baixar a temperatura
desse pico para aproximadamente 1,5°C, também precisaremos remover dióxido de
carbono da atmosfera e armazená-lo de forma sustentável", acrescenta.
Para alcançar esse objetivo, o plantio
de novas florestas é uma opção que vale a pena explorar, já que as plantas são
capazes de absorver CO2. Outra possibilidade é o uso de tecnologias de captura
direta de carbono do ar. No entanto, essas técnicas ainda são incertas e
bastante limitadas.
O limite de 1,5°C corresponde ao aumento
da temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais, registados
antes do uso em larga escala de combustíveis fósseis. Ele foi estabelecido no
Acordo de Paris como o objetivo mais ambicioso para conter os efeitos das
mudanças climáticas.
Mesmo o cenário mais otimista analisado
pelo Pnuma prevê um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais. A maioria
dos outros cenários aponta para um aquecimento ainda maior.
"Consideramos 1,8°C de aquecimento
como um limite máximo. Acima disso, essas medidas não seriam mais
eficazes", alerta Debra Roberts. Segundo ela, esse nível de aquecimento
desencadearia "mudanças irreversíveis em cascata".
Acima
de 1,5°C, os impactos climáticos se tornam progressivamente mais graves a cada
fração de grau e a cada ano de temperaturas mais elevadas, alerta o documento.
Entre as consequências estão ondas de calor e outros eventos extremos mais
intensos, perda de ecossistemas, problemas de saúde, insegurança alimentar e
hídrica, além de danos a cidades, infraestruturas e economias.
Além
disso, aumenta a possibilidade de ultrapassar pontos de não retorno.
Quanto maior e mais prolongado o aquecimento, maior o risco de alterações potencialmente irreversíveis, como a desestabilização de grandes geleiras e mantos de gelo, a degradação da Amazónia e alterações na circulação oceânica do Atlântico.
"É um choque de realidade. Temos de conviver com esse mundo mais quente (...), mas ainda há muito a fazer para limitar o aquecimento", disse Richard Betts, coautor do relatório e professor da Universidade de Exeter, no Reino Unido, durante uma coletiva de imprensa na terça-feira.
O relatório "concentra-se nas
respostas necessárias, em vez de simplesmente reconhecer que o fenómeno está
ocorrendo", explicou.
É importante que os formuladores de
políticas "percebam que as regras do jogo estão mudando" e que as
abordagens atuais para combater as mudanças climáticas já não são adequadas,
observou Debra Roberts. "Precisamos agora repensar nossa governança
climática para lidar com uma trajetória de ultrapassagem do limite. Nenhum de
nossos planos está preparado para isso", alertou a cientista climática
sul-africana.
As conclusões do relatório alarmaram
organizações que se mobilizaram em torno da meta de 1,5°C desde que ela foi
estabelecida como a referência climática mais ambiciosa no Acordo de
Paris.
"É um momento desolador, mas essa
ultrapassagem de limite não é motivo para desistir e abandonar a meta de
1,5°C", disse Jasper Inventor, vice-diretor de programas do Greenpeace
Internacional.
Bill Hare, cientista climático e diretor
do instituto de pesquisa Climate Analytics, criticou o relatório, argumentando
que ele corria o risco de se tornar "um convite à apatia" em vez de
estimular a ação.
Para Cláudio Ângelo, coordenador de
Política Internacional do Observatório do Clima, o relatório mostra que a
humanidade falhou em cumprir o objetivo central da Convenção do Clima da ONU de
evitar a interferência perigosa da humanidade no sistema climático.
"Abandonar o objetivo de devolver
os termómetros a 1,5ºC não é uma opção; seria assinar um pacto coletivo de
suicídio. Mas o pico e o declínio não ocorrerão enquanto países produtores de
combustíveis fósseis olharem para essas indústrias como uma benesse em vez de
uma maldição. É preciso parar já a expansão fóssil no mundo, e a COP31, daqui a
dois meses, é uma oportunidade de tomar essa decisão”, disse.
Na mesma linha, Maria Netto, diretora
executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS) afirmou que o relatório
traz uma mensagem preocupante, mas também um chamado à ação muito importante.
"Estamos entrando em um mundo no qual ultrapassar temporariamente o limite
de 1,5°C é cada vez mais provável.
Mas o overshoot nunca pode se tornar uma
desculpa para desistirmos da meta de 1,5°C. Cada fração de grau importa. Cada
ano que conseguimos reduzir o período dessa ultrapassagem importa. E cada
investimento que fazemos hoje em mitigação, adaptação e resiliência
importa", disse.
O mundo já aqueceu cerca de 1,4°C desde o período de 1850 a 1900, principalmente devido à queima de combustíveis fósseis.
Os últimos três anos foram os mais
quentes já registados, e as emissões de gases de efeito estufa que retêm calor,
como dióxido de carbono e metano, continuam a aumentar.
O relatório ressalta que adaptação e
mitigação precisam avançar juntas, já que, mesmo com uma trajetória de retorno
a 1,5°C, haverá impactos que não poderão ser evitados. Por isso, os países
precisam reduzir as emissões e, simultaneamente, preparar sociedades, cidades e
ecossistemas para enfrentar os impactos já inevitáveis.
O Pnuma
também coloca equidade e justiça no centro da resposta. Os países que mais
contribuíram para a mudança climática devem assumir maior responsabilidade e
adotar medidas mais ambiciosas.
Para o organismo, o sucesso depende de vontade política, cooperação internacional e financiamento, além de multilateralismo, políticas eficazes, governança inclusiva e recursos financeiros. ANG/RFI

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