quarta-feira, 10 de junho de 2026

 INACEP/Diretor-geral nega acusações do sindicato e aponta situação financeira como razão das dificuldades  da instituição

Bissau,10 Jun 26 (ANG) - O Diretor-geral da INACEP, Lesmes Mutna Monteiro, refutou hoje as acusações feitas pelo sindicato de base da instituição, afirmando que as declarações dos representantes dos trabalhadores “não correspondem à realidade dos factos”.

Mutna Monteiro falava em conferência de imprensa realizada hoje, em  reação às declarações proferidas , segunda-feira, pelo Sindicato de base da INACEP, que anunciou a entrega ao patronato de um Pré-aviso para observação da greve nos dias 12,15 e 16 de Junho , em protesto contra  sucessivos atrasos de pagamento salariais. 

Entre as principais reivindicações do Sindicato consta o pagamento de três meses de salários em atraso e cinco meses aos funcionários de limpeza.

Lesmes Monteiro destacou que a direção procedeu à manutenção das viaturas de transporte dos funcionários e ao pagamento de algumas dívidas herdadas, sublinhando que a instituição enfrenta uma situação financeira delicada.

Disse  que, desde a sua entrada em funções, foram pagos três meses de salários em atraso, e não apenas um, como tem sido alegado..

Sobre o pedido de averiguação da conta bancária da INACEP solicitado pelo sindicato ao Primeiro-ministro, o responsável explicou que as contas da instituição são co-tituladas pelo Ministério das Finanças, o que significa que nenhuma movimentação pode ser realizada sem a assinatura daquela tutela.

O Diretor-geral referiu que encontrou a instituição com três meses de salários em atraso e uma dívida à Segurança Social acumulada ao longo de cerca de 25 anos, avaliada em aproximadamente 500 milhões de francos CFA. 

Lesmes Monteiro, acrescentou que a dívida fiscal e à Segurança Social ultrapassa atualmente mil milhões de francos CFA, situação que, segundo afirmou, impede a reforma de trabalhadores que já atingiram a idade legal para o efeito.

De acordo com Lesmes Monteiro, a INACEP arrecadou, em Fevereiro, nove milhões de francos CFA, dos quais dois milhões resultaram da produção da instituição e sete milhões provenientes do roteiro de passaportes, enquanto a massa salarial mensal supera os 30 milhões de francos CFA.

Respondendo às suspeitas levantadas pelo sindicato sobre o destino das receitas provenientes do roteiro de passaportes, o Diretor-geral garantiu ter disponibilizado aos representantes dos trabalhadores toda a documentação, assinados por ele, relacionada com as transferências desses valores.

Monteiro manifestou igualmente descontentamento com as críticas do sindicato e justificou a proibição da realização de uma conferência de imprensa nas instalações da INACEP, alegando que várias reuniões entre funcionários e membros do Conselho de Administração decorreram sem conhecimento da direção, afetando o funcionamento normal e à produção da empresa. 

Nesse sentido, propôs que os encontros dos trabalhadores sejam realizados entre as 15 e as 16 horas.

Em relação ao pessoal de limpeza, ao qual o sindicato diz que corre risco de despedimento, Lesmes Monteiro disse que nenhum trabalhador foi despedido, tendo sido proposta a contratação de uma empresa externa que deverá integrar esses trabalhadores . 

Explicou ainda que, os sete trabalhadores em causa não possuem vínculo contratual com a INACEP e que a decisão de contratação de uma empresa para serviços de limpeza fora  tomada após parecer favorável dos serviços jurídicos da instituição. 

Informou que vai produzir  um despacho para a celebração de contratos com efeitos retroativos, mas que priorize os trabalhadores em causa nas futuras admissões.

Lesmes Monteiro  confirmou a redução salarial de alguns trabalhadores em função das respetivas categorias  e revelou que, apesar de a instituição dispor apenas de quatro diretores de serviço, existem 13 pessoas que continuam a auferir salários correspondentes à essas funções.

Quanto às perspetivas futuras, Lesmes Monteiro anunciou a existência de projetos destinados a melhorar as condições financeiras da INACEP, incluindo a regularização dos pagamentos dos Boletins Oficiais e uma parceria com o Ministério da Educação para a produção de certificados escolares, visando reforçar o controlo e a autenticidade desses documentos.

Apesar das divergências com o sindicato, o Diretor-geral da INACEP disse que pretende manter o diálogo com os trabalhadores, e revelou que irá reunir com os representantes sindicais para discutir o pré-aviso de greve que deve iniciar na próxima sexta-feira. ANG/LPG/ÂC//SG


Comunicação Social/Sindicato de Base da Televisão da Guiné-Bissau inicia greve de 72 horas

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) – O Sindicato de Base da Televisão da Guiné-Bissau (SBTGB), iniciou hoje uma greve de 72 horas, em reivindicação da melhoria das condições laborais na instituição e pagamento da Taxa Audiovisual.

Segundo uma nota dirigida aos ministérios da Função Pública, da Comunicação Social e à Direção Geral da TGB, à que a Agência de Notícias da Guiné (ANG) teve acesso, o sindicato denuncia a falta de verbas para assegurar atividades laborais essenciais da instituição, começando por falta de  mobilidade das equipas de reportagens, de produção de conteúdos, dificuldades  de funcionamento da estação e de  aquisição de equipamentos.

A mesma nota acrescenta que, a escassez de meios na única estação televisiva do país (TGB), tem afetado significativamente o normal desenvolvimento das atividades daquele órgão, razão pela qual o sindicato  decidiu observar a   paralisação de 72 horas.

De acordo com o documento, no Caderno Reivindicativo os trabalhadores elencaram , o pagamento imediato da Taxa Audiovisual, a regularização de quatro meses de salário em atraso aos trabalhadores contratados, o pagamento de retroativos salariais aos funcionários recentemente efetivados naquele órgão.

“Enquanto trabalhadores da Televisão da Guiné-Bissau (TGB), exigimos ainda a liquidação de nove meses de salário  referentes ao período entre 2000/2003, e o reajuste da tabela salarial para os funcionários
com longos anos de serviço”, lê-se na nota.

Os funcionários da TGB ainda exigem  o pagamento de 16 milhões de fcfa de subsídio de deslocação de jornalistas e operadores de câmara, emprestados ao ex-Diretor-geral, Samuel Fernandes, para pagar dois meses de salário em atraso.

O sindicato alerta ainda através da nota que, caso as suas exigências não sejam atendidas pelo patronato, avançará com um novo pré-aviso de greve, em defesa dos direitos dos trabalhadores e das melhores condições de trabalho naquele órgão público de Comunicação Social.

O pré-aviso para a greve hoje iniciada foi entregue no passado dia 26 de Maio.

ANG/LLA/ÂC//SG   

Sociedade/Governo anuncia nova tabela de preços de venda de pescado a ser praticado por  pescadores e vendedeiras

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) – O Governo de Transição anunciou , terça-feira, uma nova tabela de preço de venda de diferentes espécies de peixes, a ser praticado por  pescadores e vendedeiras  no mercado nacional.

De acordo como despacho do gabinete do ministro da Comunicação Social enviado à ANG, o Executivo informa que a espécie denominada de “Bica” tipo G, que custava 4.500 francos CFA, vai passar a custar 3 mil fcfa nas mãos das vendedeiras, e estas passam a comprar essa junto dos pescadores ao preço de  2.610 francos CFA, o quilo.

 “Bica” do tipo – M vai passar a ser vendida por 3.500 mil francos, em vez de 4 mil que custava antes e deve  ser comprada junto ao pescador por 3.040 francos CFA.

Eis o preçário de algumas espécies de peixes  no mercado nacional:

“Sinapa tipo – G vai passar a custar 2.447,5 francos CFA por quilo junto aos pescadores e 2.650 francos nos mercados, a do tipo – M passa a ser adquirida por 2.400 francos por cada quilo nas mãos dos pescadores e 2.447,5 francos nos diferentes mercados.

“Simpote” tipo-G vai custar a partir de agora 2.447,5 junto ao pescador e 2.650 francos CFA nos mercados, e do tipo –M passa a ser vendido por 2 mil francos pelos pescadores e nos mercados vai custar 2300 francos CFA.

 “Carapau” vai passar a custar 1.500 junto dos pescadores e nos mercados 1.750 francos por quilo, “Esquilão” de mar tipo-G vai passar a custar 1.250 francos cfa, o quilo junto aos pescadores e 1.500 francos nos mercados”, refere o  despacho .

O “Esquilão” de mar do tipo –M, vai passar a ser adquirido pelas vendedeiras nas mãos dos pescadores por 1000 francos CFA e vendido nos mercados por 1.250 francos CFA por quilo, peixe tipo “Djafal” vai passar a custar 500 francos por quilo junto ao pescador e 800 francos CFA, por quilo nos mercados, “Bagre” –G vai ser vendido a 1.500fcfa pelos pescadores e nos mercados 1.750 fcfa cada quilo, enquanto que o do tipo –M vai custar 1005 francos CFA e vendida nos mercados por 1.750 francos CFA.

“Sareia” vai passar a custar 1.500 junto aos pescadores e vendidos 1750 francos CFA nos diferentes mercados, “Tainha” –G vai passar a custar 1400fcfa junto aos pescadores e vendido 1.650 francos CFA por quilo nos mercados, enquanto que o do tipo-M, será vendido pelos pescadores por 1.245 francos CFA e nos mercados por 1.250 franco.

 “Peixe Manchado” custa agora 1.400 francos CFA junto aos pescadores e é vendido no mercado  por 1.650 francos CFA.

A nota informa ainda que o  “Garopa” –G passa a ser comprado por 2.447,5 francos CFA por quilo junto aos pescadores e vendido por 2.650 francos CFA nos mercados, e a do tipo –M será adquirido pelo mesmo preço nas mãos dos pescadores e vendida por 2400 francos CFA por quilo nos mercados, enquanto que a “Bentana” de tipo –G vai ser vendido por 2.447,5 francos CFA pelos pescadores e 2.650 francos nos mercados, e a do tipo-M passa a custar 1.750 francos CFA por quilo junto aos pescadores e 2 mil francos cfa nos mercados. ANG/MSC/ÂC//SG

 

Sociedade/REJUPS-GB em campanha de recolha de alimentos para apoiar  utentes do Centro de Reabilitação de Toxicodependentes de Quinhamel

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) - A Rede da Juventude, Paz e Segurança da Guiné-Bissau (REJUPS-GB), em parceria com diversas organizações nacionais e internacionais, realiza desde segunda-feira  uma Campanha de Recolha de Alimentos sob o lema "Pequenas doações, grandes transformações", com o objectivo principal de apoiar os utentes do Centro de Reabilitação de Toxicodependentes de Quinhamel.


A informação foi publicada na página de Facebook da Rede Oeste Africana para a Edificação da Paz (WANEP-GB), segundo a qual  a "Campanha de Recolha de Alimentos "Apoiar é Cuidar", é uma iniciativa solidária levada a cabo no âmbito da comemoração da Jornada Mundial de Acção Contra o Consumo, Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas, a assinalar a 26 de Junho em curso.

“A campanha decorre de 08 à 19 de Junho corrente e  mobiliza cidadãos, instituições públicas e privadas, organizações da sociedade civil e parceiros de desenvolvimento para a doação de géneros alimentícios essenciais, contribuindo para a melhoria das condições de alimentação e recuperação dos internados naquele centro”, refere a mesma fonte.

Entre os produtos mais necessários destacam-se o arroz, feijão, óleo alimentar, massa, enlatados, açúcar e leite em pó.

“A toxicodependência continua a constituir um desafio social e de saúde pública na Guiné-Bissau, afectando sobretudo jovens e suas famílias. Neste contexto, apoiar os centros de recuperação representa um gesto concreto de solidariedade e um contributo importante para a reintegração social de pessoas que lutam para reconstruir as suas vidas”, refere.

A REJUPS-GB apela à participação de todos, lembrando que cada contribuição, independentemente do seu valor, pode fazer a diferença na vida de quem enfrenta o difícil processo de recuperação da dependência química.

ANG/AALS/ÂC//SG

 

 

Cabo Verde/Especialistas alertam para riscos da obsessão com alimentação e exercício

 

Bissau, 10 Jun 26(ANG) - A preocupação excessiva com a alimentação e a procura de um corpo perfeito podem transformar hábitos saudáveis em comportamentos compulsivos, com impacto na saúde mental, física e social, alertam especialistas ouvidos pela Lusa.

 

Psicólogos, endocrinologistas e médicos do desporto salientam a importância da alimentação saudável e do exercício físico para a saúde, mas chamam a atenção para os riscos do excesso de treino, da restrição alimentar e da pressão exercida pelas redes sociais, sobretudo entre os jovens.

 

"A obsessão pelo corpo, por exercício físico e por comer de forma saudável pode causar sofrimento e prejudicar a saúde física, mental e social, portanto, a saúde como um todo", alertou Miguel Morais Coutinho, presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses. 

 

Segundo o psicólogo, um dos sinais de alerta é a perda de flexibilidade na alimentação e na rotina de exercício físico que passam a ser marcados por "um conjunto de regras extremas". 

Explicou que "o exercício físico deixa de ser prazeroso e começa a ser gerador de ansiedade" quando a rotina é interrompida ou quando os objetivos definidos não são cumpridos. 

 

Por outro lado, o tempo dedicado ao planeamento das refeições e à organização dos treinos aumenta, reduzindo a disponibilidade para o trabalho, o lazer e as relações sociais. 

 

 

"As ideias que todos temos de uma alimentação saudável e de ter um corpo saudável fazem todo o sentido até um determinado limite. Quando este é ultrapassado nas várias dimensões, então, podemos estar no âmbito de um problema", sublinhou. 

 

A influência das redes sociais e a valorização da imagem corporal contribui para esta realidade. Miguel Morais Coutinho considerou que a exposição constante a conteúdos que promovem determinados padrões físicos e estilos de vida pode dificultar o reconhecimento do problema. 

 

"Como é que eu vou achar que tenho um problema quando depois tenho este aplauso social", questionou. 

 

Segundo o psicólogo, o fenómeno afeta mais os jovens, por estarem mais expostos à influência das redes sociais, mas também atinge outros grupos, como desportistas, profissionais de saúde ou figuras públicas, que devido à exposição do seu trabalho têm exigências de controlo do corpo, nomeadamente na alimentação. 

 

Nos casos mais extremos, surgem comportamentos associados à ortorexia (preocupação obsessiva com a alimentação considerada saudável) e à vigorexia, caracterizada pela procura compulsiva de exercício físico e de uma determinada imagem corporal. 

 

A ansiedade, a baixa autoestima, experiências de `bullying` ou situações traumáticas relacionadas com a imagem corporal podem aumentar a vulnerabilidade a este tipo de comportamentos, assim como com perturbações alimentares, como anorexia e bulimia, referiu. 

 

Miguel Morais Coutinho disse ter a perceção de que há mais pessoas a procurar ajuda clínica, mas, em muitas situações, são incentivados por familiares, amigos ou companheiros que consideram que aquele comportamento é excessivo. 

 

"As pessoas não são felizes a viver este processo. Este ciclo de preocupação, rigidez e compulsão é muito forte, e sair destas amarras é bastante complexo", sublinhou. 

 

Mas os riscos não se limitam à saúde mental. A presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, alerta que o excesso de exercício físico, sobretudo quando associado a restrições alimentares, pode provocar alterações hormonais importantes e comprometer o desenvolvimento dos mais jovens. 

 

"O exercício físico e a alimentação saudável são muito bem-vindos e as pessoas devem ter uma vida saudável. Não podemos é cair nos extremos. Ou seja, tudo na vida precisa de moderação", defendeu. 

 

Segundo a endocrinologista, o chamado `overtraining` (excesso de exercício físico) tem "um impacto menos bom" na saúde das pessoas e, quando se junta com restrição alimentar, pode ter repercussões, nomeadamente endócrinas, neuro-hormonais, aumento dos níveis de cortisol e na massa óssea e muscular, sobretudo quando não existe recuperação adequada. 

 

Alertou ainda que "um exercício muito intenso em idade jovem, antes da maturação sexual, até pode fazer com que aquelas jovens não atinjam essa maturidade sexual nem o crescimento que tinham a possibilidade de atingir". 

 

Paula Freitas destacou também a síndrome de deficiência relativa de energia no desporto (RED-S) que pode aumentar o risco de lesões, comprometer a recuperação física e reduzir o desempenho desportivo, contrariando precisamente os objetivos que muitos atletas procuram alcançar. 

 

"Tal como os medicamentos, o exercício também deve ser prescrito em termos de tipo, intensidade e duração", afirmou, salientando o papel dos fisiologistas do exercício físico na definição de programas de treino seguros e ajustados. 

A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPMD) partilha destas preocupações, mas sublinha que "o treino físico sistemático é um fator de promoção da saúde física e mental em todas as idades". 

 

"Quando a frequência, o volume e intensidade das cargas de treino sem recuperação adequada acontece durante períodos de tempo excessivo, surgem sintomas físicos e mentais lesivos da saúde e bem-estar" como dores musculares e articulares prolongadas, perturbações do sono e alterações no peso corporal e do apetite. 

 

Segundo a SPMD, pode ainda instalar-se "um quadro psicológico de instabilidade emocional", com ansiedade e apatia, dificuldade de concentração e memória, podendo evoluir para um estado depressivo, além do possível aumento da frequência cardíaca em repouso, alterações hormonais conducentes à diminuição da atividade do sistema imunológico e diminuição da capacidade de recuperação após lesões. 

 

Alerta ainda para a importância de identificar precocemente os sinais de alerta e a adoção de medidas para evitar "danos mais graves" para a saúde, como a redução temporária da intensidade e volume dos treinos, a promoção de uma alimentação equilibrada, a melhoria da qualidade do sono e um regime de treinos seguros. 

 

Embora não disponha de dados de evidência científica que permitam afirmar o papel das redes sociais e da cultura `fitness` no favorecimento de comportamentos obsessivos ligados ao exercício físico em idades cada vez mais precoces, a SPMD considera que "essa realidade existe" e justifica "uma reflexão séria de todos os profissionais de saúde, pais, professores e treinadores".  ANG/Inforpress/Lusa

 

 

Cooperação /Presidente do Benim visita Guiné-Bissau para identificar possibilidades de cooperação bilateral

Bissau, 10 Jun 26(ANG) O Presidente do Benim, Romuald Wadagni, esteve terça-feira em Bissau em visita de  trabalho e amizade de algumas horas, na qual abordou com o homólogo guineense, Horta Inta-a as possibilidade de cooperação bilateral em vários domínios.

‎O  chefe de Estado beninense aterrou no Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, em Bissau, por volta das 17h56, permanecendo em solo guineense durante pouco mais de uma hora onde manteve encontro com o Presidente da República de Transição, Horta Inta-a  nas instalações do aeroporto internacional Osvaldo Vieira.

De acordo com o Gabinete de Comunicação e Relações Públicas da Presidência da República, durante o encontro, os dois Chefes de Estado abordaram oportunidades de cooperação nos setores da agricultura, comércio, pescas, formação técnica e científica, além da promoção de parcerias entre empresários guineenses e beninenses.

Horta Inta-a destacou os avanços registados pelo Benim nos domínios económico e agrícola, considerando o país um exemplo de desenvolvimento sustentável na África Ocidental.

Os dois líderes reafirmaram igualmente o compromisso com a integração regional e o fortalecimento das organizações africanas, nomeadamente a CEDEAO, a UEMOA e a União Africana.

A visita insere-se na digressão regional de Romuald Wadagni após a sua recente investidura como Presidente da República do Benim. ANG/ÂC//SG

 

 

Desporto/Caito Teixeira impedido pela segunda vez de viajar para assistir campeonato do mundo

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) - O presidente da Federação de Futebol da Guiné-Bissau (FFGB), Carlos Alberto(Caíto)  Teixeira foi, novamente, impedido de deixar o país, desta vez para assistir ao mundial de futebol que inicia quinta-feira nos Estados Unidos de América e no Canadá.

Segundo a Rádio Sol Mansi, esta é a segunda vez, em poucas semanas, que o dirigente federativo vê frustrada uma deslocação internacional.

Em Maio deste ano, Caito Teixeira já tinha sido impedido de viajar para Portugal, onde pretendia assistir à final da Taça de Portugal.

De acordo com as informações avançadas pelo jornalista Elvis da Silva, antigo apresentador do programa desportivo 4 Linhas da Rádio Sol Mansi, e confirmadas pela Rádio Sol Mansi junto de uma fonte próxima do processo, Caito Teixeira, através do seu advogado, apresentaram um requerimento a solicitar autorização para se deslocar ao exterior, mas o pedido foi indeferido pelas autoridades judiciais.

A mesma fonte, indica que a decisão poderá estar relacionada com a alegada inexistência de garantias suficientes de regresso ao país e com o facto de o dirigente ainda não ter efetuado o pagamento da caução fixada no âmbito do processo judicial em curso, no valor de 82.800.000 francos CFA, no prazo de 10 dias a contar da data de tomada de conhecimento.

Perante esta situação, apenas a secretária-geral da FFGB, Virgínia da Cruz, seguiu viagem para representar a Federação na cerimónia.

O Ministério Público da Guiné-Bissau instaurou um processo judicial contra o presidente da FFGB, Caito Teixeira, e o vice-presidente da instituição, Celestino Gonçalves, conhecido como “Tinex”, por alegado desvio de 183.000.000 francos CFA que haviam sido destinados ao fretamento de um voo para transportar a seleção de São Tomé e Príncipe em 2023.ANG/RSM

 

Suécia/Nova corrida armamentista nuclear impulsiona gastos recordes e eleva alerta global

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) - O mundo vive uma nova escalada da corrida armamentista nuclear, impulsionada por investimentos que atingiram níveis recordes em 2025.

Segundo relatórios divulgados pela Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (Ican) e pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), os nove países que possuem armas nucleares gastaram quase US$ 119 bilhões em seus arsenais no último ano, cerca de US$ 17 bilhões a mais do que em 2024.

O valor representa um aumento de 19% em relação ao período anterior e reflete, segundo a Ican, o início de uma nova corrida armamentista que pode se estender por décadas.

Os países que possuem armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Israel, Paquistão e Coreia do Norte – ampliaram seus investimentos simultaneamente, em meio ao agravamento das tensões geopolíticas e à modernização dos sistemas de dissuasão nuclear.

Os Estados Unidos lideram os gastos globais com ampla vantagem. Apenas em 2025, Washington destinou US$ 69,2 bilhões à manutenção e ao desenvolvimento de seu arsenal nuclear, mais do que a soma dos investimentos realizados pelos demais países com armas atómicas.

Em seguida aparecem China (US$ 13,5 bilhões), Reino Unido (US$ 12,6 bilhões) e Rússia (US$ 9,5 bilhões).

A expansão chinesa é apontada como uma das mais aceleradas do mundo. O país possui atualmente cerca de 620 ogivas nucleares e poderá alcançar, até 2030, uma capacidade de mísseis balísticos intercontinentais comparável à dos Estados Unidos e da Rússia.

Especialistas avaliam que a crescente rivalidade estratégica entre as grandes potências tem levado Pequim a fortalecer sua capacidade de dissuasão nuclear.

Embora o número total de armas nucleares continue menor do que durante a Guerra Fria, os especialistas alertam para o aumento dos riscos. O Sipri estima que existam atualmente cerca de 12.187 ogivas nucleares no mundo, das quais aproximadamente 9.745 permanecem disponíveis para eventual utilização militar.

Segundo o instituto, a tendência histórica de redução dos arsenais pode estar chegando ao fim, à medida que o desmantelamento de armas antigas desacelera e novos sistemas entram em operação.

A Ican destaca que os nove países com atividades nucleares já destinaram cerca de US$ 470 bilhões à manutenção e expansão de seus arsenais nos últimos anos e prevê que os gastos continuem crescendo nas próximas décadas.

Nos Estados Unidos, os futuros mísseis balísticos intercontinentais Sentinel foram projetados para permanecer em operação além de 2100. O aumento da produção de núcleos de plutônio também sugere a manutenção de ogivas até pelo menos 2120.

As projeções indicam que Washington poderá gastar quase US$ 1 trilhão em seu arsenal nuclear entre 2025 e 2034. Para a Ican, esses investimentos contrastam com as dificuldades enfrentadas por organismos internacionais e programas humanitários em todo o mundo.

Segundo a organização, os recursos destinados às armas nucleares em 2025 seriam suficientes para financiar 32 anos do orçamento operacional das Nações Unidas. O valor gasto em apenas um dia com arsenais atômicos poderia garantir segurança alimentar para mais de 2 milhões de pessoas.

Outro fator de preocupação é o avanço da inteligência artificial nos sistemas militares. A diretora de programas da Ican, Susi Snyder, afirmou estar "apavorada" com a combinação entre a nova corrida armamentista e o uso crescente dessas tecnologias em processos de tomada de decisão estratégica.

Especialistas temem que a automação possa acelerar decisões críticas e aumentar os riscos de erros de cálculo em situações de crise.

A fragilização dos acordos internacionais de controle de armas, somada à modernização dos arsenais e ao aumento das tensões entre as grandes potências, contribui para um cenário considerado cada vez mais instável. Para a Ican, os governos estão investindo recursos bilionários em sistemas que, se utilizados, poderiam provocar consequências humanitárias catastróficas.

"Em vez de fornecer ajuda ou garantir serviços essenciais às suas populações, os Estados com armas nucleares investem em um arsenal que sabem não poder utilizar sem cometer um crime de guerra", afirmou Snyder.

Para a diretora de programas da Ican, há uma "desconexão total da realidade" entre as prioridades globais e os investimentos crescentes em armamentos nucleares. ANG/RFI/AFP

 

Gana/ Lançado o plano “AgriConnect Compact” para fortalecer a segurança alimentar

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) - O Gana lançou recentemente o "AgriConnect Compact", um plano de ação nacional que visa fortalecer a segurança alimentar, criar empregos, reduzir as importações e mobilizar investimentos em cadeias de valor agrícola prioritárias.

Com um orçamento estimado em 3,5 bilhões de dólares, este programa, liderado pelo Ministério da Alimentação e Agricultura em parceria com o Banco Mundial, o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e outros parceiros, deverá gerar cerca de 2,6 milhões de empregos até 2030 durante a sua primeira fase.

Segundo as autoridades ganesas, esta iniciativa inclui uma série de ações públicas e privadas destinadas a aumentar a produtividade agrícola, desenvolver valor agregado e melhorar o acesso a mercados e financiamento. Ela se concentra particularmente em irrigação, sistemas de sementes, mecanização, serviços para agricultores, processamento agrícola e logística.

"Durante muito tempo, concentramo-nos no arroz, milho, óleo de palma, cacau e aves. Hoje, estamos a lançar este programa essencial para desenvolver toda a cadeia de valor e criar empregos para os jovens", afirmou o Ministro da Alimentação e Agricultura do Gana, Eric Opoku, citado pela imprensa local.

Citado pela mídia local, o funcionário também pediu às partes interessadas que desempenhem integralmente seu papel para garantir o sucesso do programa em benefício dos ganeses.

Por sua vez, o vice-presidente para o Planeta do Grupo Banco Mundial, Guangzhe Chen, descreveu o programa como uma "iniciativa ousada" destinada a estabelecer um sistema alimentar mais produtivo, resiliente e gerador de empregos.

Segundo ele, a combinação de reformas, investimentos e mecanismos de implementação fortalecerá a segurança alimentar, apoiará os agricultores e o agronegócio e mobilizará mais capital privado.

O “AgriConnect Compact” faz parte dos objetivos do governo ganês para a transformação agrícola, a promoção do investimento privado e a resiliência econômica, com o intuito de reduzir a insegurança alimentar, limitar a dependência de importações, desenvolver capacidades de processamento agroalimentar e impulsionar o emprego rural.ANG/Faapa

 

França/Estrangeiros perdem dinheiro e adoecem  por causa de atraso na renovação de documentos

Bissau, 10 Jun 26 (ANG) - A explosão nos prazos para renovação de títulos de residência na França levou associações a convocarem protestos nesta quarta-feira (10) para exigir a continuidade de direitos.

O movimento ocorre após meses de inércia da administração pública, situação que já atinge centenas de milhares de pessoas e coloca trabalhadores estrangeiros, entre eles muitos brasileiros, em situação irregular.

Um estudo aponta ainda quadros de ansiedade, insónia e sensação de perda de identidade entre imigrantes submetidos à incerteza do sistema francês.

A mobilização foi convocada para ocorrer diante das sedes administrativas responsáveis pelo tratamento das demandas de estrangeiros (as préfectures, em francês), com o objetivo de exigir acesso aos serviços públicos e a garantia da continuidade de direitos. O movimento ocorre após meses de agravamento da situação, que já atinge centenas de milhares de pessoas em todo o país e coloca trabalhadores estrangeiros, inclusive alguns com décadas de residência, em situação administrativa irregular.

Em comunicado, a região de Bouches-du-Rhône, no sul do país, afirmou que o aumento no número de pedidos contribuiu para a ampliação dos prazos.

O governo francês tem sido alvo de críticas de associações e profissionais de saúde, que apontam um descompasso entre a demanda crescente e a capacidade administrativa.

 Uma reunião realizada em 26 de maio, entre autoridades, sindicatos e entidades patronais, resultou na promessa de acelerar os processos de regularização, mas de forma restrita a setores que enfrentam escassez de mão de obra.

Na prática, os atrasos têm levado pessoas a perder empregos, renda e acesso a serviços básicos. A legislação atual prevê prazos para a análise dos pedidos, mas esses limites vêm sendo ultrapassados sistematicamente.

 A situação se agravou com a adoção de regras mais restritivas e a digitalização dos procedimentos.

Hoje, a maioria das etapas passou a depender exclusivamente de plataformas online, que substituíram o atendimento presencial. Na prática, isso significa que o imigrante precisa conseguir um agendamento pela internet, algo que, na maior parte dos casos, simplesmente não está disponível.

Sem a possibilidade de falar com um agente, esclarecer dúvidas ou recorrer por telefone, muitos passam meses tentando marcar um horário sem sucesso. Para associações, o sistema criou uma situação de bloqueio, em que a administração se torna inacessível.

Gustavo, de 29 anos, é pedagogo e trabalha em um centro educacional bilíngue que acolhe crianças de 3 a 6 anos na capital francesa. Ele narrou à RFI boa parte de seu calvário pessoal na hora de renovar seus documentos.

"A gente acaba vivendo nessa incerteza. Para mim, o maior impacto é emocional. Fico com a sensação de que, a qualquer momento, podem entrar em contato com uma resposta negativa. E, se isso acontecer, eu perco tudo: não posso manter meu trabalho nem a minha vida aqui. Teria que me separar do meu cônjuge, porque, com uma negativa, não poderíamos permanecer no país", diz.

"Esse é o meu maior medo: ter que me separar do meu parceiro por causa de uma falha da própria administração em processar o meu pedido", diz Gustavo, que é casado com um cidadão alemão e inicialmente foi contemplado com um visto de cinco anos – "um visto de longa duração para membros de família da União Europeia".

"Pedi a renovação do meu visto em Janeiro de 2025, sendo que o documento expirava em Fevereiro, então eu estava dentro do prazo. Cerca de dois meses depois, em Abril, recebi a primeira prorrogação. Disseram que estavam analisando o meu processo", detalhou o brasileiro.

"Em Dezembro, solicitei outra prorrogação, mas ela não foi concedida imediatamente. Esperei durante Dezembro e Janeiro, e apenas no fim de Fevereiro recebi uma nova. Essa foi válida até Maio. Em Maio, fiz novo pedido e recebi outra prorrogação, que agora vai até agosto", relatou.

O brasileiro contou que, na área profissional, não enfrenta tantos problemas, porque a prorrogação mantém seu visto válido dentro do sistema administrativo francês.

“No entanto, não tenho nenhuma resposta definitiva. Já entrei em contato com a instituição mais de dez vezes; pelo menos duas vezes por mês, pergunto sobre a situação do meu processo. A resposta é sempre a mesma: que eu preciso aguardar. Segundo eles, está tudo em ordem, todos os meus documentos estão corretos”, avalia o pedagogo.

"Desde que cheguei à França, sempre paguei impostos. Nunca tive problemas legais, sempre trabalhei e estudei. Fiz meus estudos aqui e continuo em formação, cursando um mestrado. Mesmo assim, é uma insegurança constante", admite.

A capixaba Renata P. (nome fictício) chegou à França em 2019 com tudo regularizado: primeiro um visto obtido ainda no Brasil e, depois, sucessivos títulos de residência renovados sem dificuldade.

A situação mudou em 2024, quando pediu a terceira renovação dentro do prazo legal, quatro meses antes do vencimento, para não interromper uma formação profissional em andamento.

Apesar de cumprir todas as exigências, a renovação não saiu. Ela recebeu apenas um récépissé (autorização provisória), válido por três meses. Nesse período, conseguiu viajar e concluir o curso, mas ficou impedida de trabalhar.

Ao vencer o documento temporário, em Abril de 2025, passou a ficar sem qualquer status administrativo, mesmo sendo casada com um cidadão francês e mãe de um filho francês.

Começou então uma longa batalha burocrática. Renata contratou dois advogados, mas, segundo relata, a única ação possível era o envio de e-mails à administração, sem retorno concreto. Procurou também associações de apoio a imigrantes, que igualmente afirmaram não haver solução imediata. “Me diziam que não tinha o que fazer”, conta.

Desesperada, passou meses tentando diariamente conseguir um agendamento no setor de imigração de Versalhes.

 Ela chegou a acessar a plataforma todas as segundas-feiras, no horário de abertura da plataforma online, usando vários computadores ao mesmo tempo, sem sucesso. Paralelamente, recebeu propostas ilegais de venda de horários, que recusou.

A situação só se resolveu de forma improvisada. Uma amiga conseguiu marcar um agendamento destinado à retirada de um título já pronto. Renata compareceu mesmo assim e explicou seu caso diretamente a um atendente.

 “Eu não tinha mais nada, nem o récépissé. Foi ali que resolveram”, relata. Após a intervenção, recebeu a promessa de regularização em um a dois meses.

O título de residência foi enfim emitido em Dezembro de 2025, quase um ano depois do pedido inicial. Desta vez, com validade de dez anos. Segundo ela, o prazo mais longo só foi concedido após insistência e apresentação de todos os documentos, incluindo comprovação de nível de francês (B2), casamento de longa duração e vínculos familiares no país.

Renata também solicitou a nacionalidade francesa em Novembro de 2024, mas, até agora, não obteve resposta. Para ela, o episódio ilustra as falhas do sistema: “Se eu não tivesse dado um jeito de entrar na prefeitura, talvez estivesse até hoje sem documento.”

Outra brasileira ouvida pela RFI, que pediu anonimato, é casada com um europeu, tem uma filha com passaporte europeu, deu entrada no pedido de título de residência, mas continua sem resposta.

"A questão é que não deram prazo, não existe prazo. Entramos com o pedido em agosto assim que tínhamos endereço, meu marido e minha filha têm cidadania europeia. Em janeiro cancelaram o pedido e aí a consultoria que nos atende reabriu a solicitação", conta a brasileira.

"Então eles marcaram a ida à prefeitura para entregar os documentos, no início de março. Em meados de maio eles pediram uma cópia atualizada da certidão de casamento, que por sinal já constava da pasta que entregamos [anteriormente], mas somente agora disseram que o documento foi aceito, e que eles vão analisar o caso para dar o parecer final", relatou à RFI.

Em Marselha, na região sul, casos concretos ilustram o impacto da disfunção administrativa francesa. Amina, natural das Comores e residente na França há 25 anos, aguarda há um ano a renovação do seu título. Sem resposta da administração, perdeu o emprego formal no setor de limpeza. “Isso me parte o coração.

Ficar em casa por causa de um erro não faz sentido”, afirmou, relatando também a incerteza sobre a situação do marido, cujo documento expira em breve.

Situação semelhante é vivida por Guillermo, músico argentino que mora na França desde 2014. Pai de filhos franceses, ele afirma que, pela primeira vez, ficou sem documentação válida.

 Sem conseguir agendamento ou resposta às solicitações, viu contratos de trabalho serem cancelados. “Tenho a sensação de não existir”, disse. O sistema digital, segundo ele, criou uma "barreira entre usuários e administração".

Sebastian, também argentino, só conseguiu seu documento após recorrer à Justiça administrativa. A diferença de tratamento evidencia a imprevisibilidade do sistema, que passou a exigir ações judiciais para garantir direitos básicos. Relatos de conflitos diante de repartições públicas e dificuldades no acesso aos serviços tornaram-se frequentes.

O impacto não se limita à esfera económica. Profissionais de saúde apontam consequências graves para a saúde mental dos afetados.

A psiquiatra Andrea Tortelli, que atua em um hospital público em Paris, afirma que a principal fonte de angústia dos pacientes estrangeiros é a incerteza administrativa. “No plano psíquico, é a instabilidade que destrói essas pessoas”, disse.

Segundo a médica, quanto maior o tempo de espera por uma resposta das autoridades, maior o sofrimento psicológico. Pacientes relatam ansiedade constante, insónia e sensação de perda de identidade.

 O problema afeta inclusive pessoas com longa permanência no país, que se vêem presas a ciclos anuais de renovação.

Um relatório baseado em 27 depoimentos aponta que todos os entrevistados manifestaram níveis elevados de estresse relacionados à renovação dos documentos. O título de residência condiciona o acesso ao trabalho, à moradia e a cuidados de saúde. Um atraso na emissão pode interromper todos esses direitos simultaneamente.

Jean-Louis, agente de segurança em Toulouse, no sudoeste, descreve o processo como um ciclo permanente de preocupação.

 “Com um título válido por um ano, poucos meses depois já começo a ficar angustiado com a renovação”, disse. Ele menciona dificuldades para encontrar horários disponíveis, falhas na plataforma digital e custos elevados, como a taxa de € 250 (aproximadamente R$ 1.500 na cotação atual) por renovação.

A precariedade administrativa também impede planejamento de vida. Jovens formados, como Sevda, de 27 anos, relatam bloqueios profissionais e pessoais. Após um ano e meio de espera, ela afirma não poder trabalhar nem visitar a família. “Estou paralisada, financeiramente e psicologicamente”, disse.

Para organizações como a Cimade, que presta assistência jurídica a estrangeiros,metade dos casos acompanhados actualmente envolvem atrasos prolongados.

Voluntários relatam situações de endividamento, inclusive entre mães de família, além de agravamento de condições psicológicas pré-existentes.

Além de seus efeitos individuais, o fenómeno gera um paradoxo institucional. Ao atrasar a emissão de títulos de residência para os estrangeiros, o próprio Estado contribui para o aumento da irregularidade que busca combater. Pessoas que cumpriram os requisitos legais acabam sem documentação por falhas do sistema.

Essa situação também afeta empregadores, que se veem obrigados a interromper contratos formais por ausência de documentos válidos. O resultado é perda de arrecadação e aumento da informalidade, em um contexto de pressão sobre o mercado de trabalho em certos setores.

A digitalização dos processos, apresentada como solução para acelerar procedimentos, é apontada como um dos fatores de agravamento. Sem canais presenciais eficazes, muitos usuários relatam impossibilidade de acessar o sistema ou obter respostas. Isso aprofundou a distância entre administração e população atendida.

A soma desses fatores tem provocado mobilização nacional. O coletivo Bouge Ta Préf reúne associações que denunciam a falta de acesso ao serviço público e exigem medidas urgentes para garantir continuidade dos direitos durante a tramitação dos pedidos.

 Enquanto isso, médicos e entidades humanitárias alertam para os custos sociais da situação. Além da deterioração da saúde mental, a instabilidade administrativa pode reativar traumas anteriores, especialmente entre pessoas que passaram por processos migratórios difíceis.

Sem reformas estruturais, especialistas avaliam que a tendência é de agravamento. A combinação de maior demanda, regras mais rígidas e limitações administrativas mantém o sistema sob pressão constante, com efeitos que se espalham para além da esfera migratória. ANG/RFI