Itália/Diretor da AIEA diz que risco nuclear persiste no Irã e pede volta de negociações
Bissau, 11 Mar 26 (ANG) - Rafael Mariano Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), concedeu uma entrevista à RFI, terça-feira (10),11° dia dos ataques israelo-americanos contra o Irã, em que expressou profunda preocupação com o futuro do programa nuclear iraniano e confirmou que os ataques não causaram danos significativos às instalações nucleares do país.
Por isso, Grossi espera a rápida retomada das
negociações com Teerã.
Grossi alertou que, no que se refere ao
programa nuclear iraniano, o problema que preocupava antes da guerra permanece
inalterado. “O estoque de urânio enriquecido a 60%, mais de 440 quilos —
suficiente para fabricar uma dúzia de armas nucleares — continua intacto”,
salientou o diretor-geral da AIEA.
O material nuclear continua estocado nos
mesmos locais, principalmente nos túneis do complexo de Isfahan e, em menor
medida, em Natanz. Embora não seja possível afirmar que essas áreas sejam
totalmente seguras, Grossi ressalta que um eventual ataque direto contra esse
estoque, não provocaria um desastre nuclear clássico. A consequência seria
“muito limitada, talvez de intoxicação química”, acredita
O que
mais preocupa o diretor-geral da agência é o impacto político e estratégico da guerra
contra o Irã Grossi insiste que o risco de desenvolvimento de armas
nucleares pelo regime iraniano “não desapareceu” e que, por isso, a única saída
é retomar o diálogo.
“Teremos que voltar à mesa de
negociações e encontrar uma solução duradoura para essa história que já dura
mais de 20 anos”, afirmou.
Ele também reagiu a rumores sobre uma
possível operação de forças especiais americanas e israelenses para controlar
ou confiscar o estoque iraniano. Grossi classificou a ideia como “difícil”,
reforçando que a solução não será militar, mas diplomática.
Em
relação aos danos às instalações, Grossi explicou que, ao contrário dos
ataques de 2025, os bombardeios atuais não têm como alvo principal os sítios
nucleares. Desde o início da ofensiva israelo-americana, houve dois ataques em
Isfahan e um em Natanz.
Os bombardeios não alterraram
substancialmente a situação, já que esses locais vinham sofrendo danos
acumulados há meses. Ele também confirmou que não há vazamentos ou sinais de
radiação.
Embora
inspetores da AIEA não estejam autorizados a visitar as instalações sensíveis
desde junho de 2025, Grossi afirmou que manteve algumas inspeções em locais
não-alvo e participou pessoalmente de negociações em genebra.
No entanto, essas conversas fracassaram.
Mesmo assim, o contato com autoridades iranianas não foi interrompido, ainda
que o contexto de guerra impeça qualquer retomada imediata das negociações.
Grossi teme que os ataques radicalizem
alguns setores dentro do Irã que passariam a defender abertamente a fabricação
de armas nucleares. “Não podemos descartar essa possibilidade”, disse ele,
classificando essa hipótese como especialmente alarmante e algo que deve ser
evitado a todo custo.
Por
isso, insiste na necessidade de retomar o diálogo: “Precisamos evitar esses
cenários. E espero que possamos retomar as negociações em breve”. Ele
alertou ainda sobre os efeitos, para além da destruição física, que essa guerra
já produziu,como os impactos na economia global e nos preços dos combustíveis
fósseis que considera extremamente graves.
Quando questionado sobre a declaração de
Donald Trump de que a guerra poderia terminar em breve, Grossi manteve uma
postura pragmática. Para ele, independentemente do desfecho militar, o Irã
continuará sendo “uma grande nação, com grande população e um país industrializado”.
O diretor-geral da AIEA concluiu
afirmando que um cessar-fogo é condição indispensável para a retomada do
diálogo: “Não consigo imaginar uma negociação começando sob o som das bombas”. ANG/RFI

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