Médio Oriente/Impacto ambiental da guerra: ‘Não haverá nem vencedor, nem vencido: apenas
vítimas da poluição’
Bissau, 19 Mar 26 (ANG) - Na medida em que o conflito no Oriente Médio se estende, desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, aumentam também as preocupações sobre o impacto ambiental da guerra.
As instalações de petróleo no Golfo têm sido
um dos alvos prioritários de bombardeios, gerando uma chuva tóxica com efeitos
ainda inestimados na região.
As “chuvas ácidas” ocorridas após a
explosão de milhares de toneladas de óleo levaram a ONU a emitir um alerta
sobre os riscos à saúde dos iranianos. Os poluentes como enxofre e compostos de
nitrogênio, liberados na explosão, se dispersam na atmosfera.
Quando entram em contato com as
partículas de água presentes no ar, esses químicos se transformam em
ácidos tóxicos, como o sulfúrico e o nítrico. As precipitações levam os
poluentes de volta para o solo e a água, causando danos prolongados à
agricultura e à qualidade da água.
Jacky Bonnemains, diretor da organização
ecologista francesa Robin des Bois, lembra que o Golfo Pérsico é um mar quase
fechado, particularmente vulnerável à contaminação por vazamentos de petróleo e
restos de navios militares ou petroleiros atacados.
“As atividades dos pescadores artesanais, que
são milhares na região e contribuem para a segurança alimentar de todos os
países litorâneos, quaisquer que sejam os beligerantes, estarão condenadas por
muito tempo”, comentou.
“A
biodiversidade, da qual tanto se fala em tempos de paz e tão pouco em tempos de
guerra, também será prejudicada a longo prazo. São tartarugas marinhas, dugongos,
baleias-jubarte, cachalotes, peixes, pepinos-do-mar. É uma verdadeira
catástrofe ambiental e sanitária.”
No total, mais de 2.000 espécies
marinhas vivem nessas águas quentes, às quais se somam 100 espécies de corais.
Além disso, os manguezais e os prados marinhos da região são zonas de
reprodução para peixes e crustáceos.
As aves marinhas também são ameaçadas: o
óleo destrói a impermeabilidade de suas penas, provocando hipotermia e
afogamentos. A migração delas também pode ser perturbada pelo ruído das
explosões e pelas colunas de fumaça tóxica.
Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos,
Omã e Arábia Saudita – as consequências serão sentidas muito além do Irã,
embora o país seja o mais diretamente atingido, explica Doug Weir, diretor da
ONG britânica Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS). A entidade já
identificou cerca de 300 incidentes envolvendo riscos ambientais desde o início
da guerra.
“O Irã enfrenta uma seca prolongada há
muitos anos. Já sofre forte estresse hídrico, portanto qualquer poluição
adicional nos aquíferos e nos recursos hídricos iranianos é particularmente
problemática, porque eles já são escassos”, ressaltou. “Outro ponto: grandes
derramamentos de petróleo no Golfo Pérsico podem afetar as usinas de
dessalinização de água — e cerca de 100 milhões de pessoas ao redor do Golfo
dependem dessas usinas.”
As dezenas
de navios bloqueados na região, carregando cerca de 21 bilhões de litros de
petróleo, constituem uma "bomba-relógio ecológica" alertou a
organização Greenpeace.
Nos
bombardeios mais recentes,Washingtn visa a ilha de Kharg, terminal que
concentra 90% das exportações de petróleo bruto iraniano. As infraestruturas
foram preservadas até o momento, mas o cenário pode mudar de acordo com o
andamento do conflito.
“Fala-se muito do balanço económico
desta guerra, e muito pouco do balanço humano, que não conhecemos. Mas o
despertar após o choque petrolífero será bastante violento, em relação às
consequências ambientais”, insistiu Bonnemains. “Com o passar do tempo, não
haverá nem vencedor, nem vencido: haverá apenas vítimas da poluição.”
A gestão desses danos é outro ponto de preocupação. A história
mostra que, ao final de conflitos armados, a descontaminação das áreas
atingidas fica longe do topo das prioridades.
“O que vemos na maioria das áreas afetadas por conflitos é que o
dano ambiental muitas vezes não é tratado posteriormente. A recuperação
ambiental é cara, e países que estão saindo de um conflito têm menos capacidade
de proteger o meio ambiente”, observou Doug Weir.
“São necessários recursos e assistência técnica da comunidade internacional, o que nem sempre acontece. E, no caso do Irã, embora o país tenha enorme capacidade e expertise em questões ambientais, também possui um governo muito fechado e centralizado, que pode não ser particularmente transparente sobre a necessidade de limpar o ambiente ao redor desses locais”, frisou. ANG/RFI

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