EUA/Comissão da ONU acusa Israel de visar crianças
palestinas e denuncia 'genocídio' em Gaza
Bissau, 26 Jun 26 (ANG) - Uma
comissão internacional de inquérito mandatada pela ONU acusou Israel de ter
como alvo crianças em Gaza.
Em um relatório de cem páginas,
os especialistas documentam violações e crimes cometidos por Israel contra
menores palestinos no território desde 7 de Outubro de 2023 até 31 de Março de
2026 e concluem, com base em "fundamentos razoáveis", que Israel está
cometendo genocídio.
Mais de 20.000 crianças foram mortas na Faixa
de Gaza entre 7 de Outubro de 2023 e 7 de Outubro de 2025, cerca de 40.000
ficaram feridas e mais de 58.500 perderam pelo menos um dos pais ou ficaram
órfãs.
No relatório, os especialistas destacam que
“o ataque deliberado às crianças é um dos principais elementos que estabelece a
intenção genocida das autoridades e forças de segurança israelenses de destruir
o ‘grupo palestino’, no todo ou em parte, em Gaza”. Para a comissão, as
crianças personificam o futuro do grupo, e destruí-las compromete sua
capacidade de sobreviver.
Segundo o documento, as forças israelenses
têm como alvo crianças de maneira direta e indireta, ao bombardear
sistematicamente áreas residenciais, escolas e campos de refugiados
superlotados.
Israel também perturba sistematicamente a
capacidade de aprendizagem das crianças: 97% das escolas foram destruídas e 95%
das universidades foram atingidas em Gaza; 22 dos 38 centros de estudos
superiores foram completamente destruídos. Para a comissão, o desmantelamento
das estruturas de proteção e educação comprometeu o desenvolvimento dos menores
e enfraqueceu “os alicerces da sociedade palestina”.
O Estado israelense também tem como alvo os
serviços neonatais e de maternidade, provocando, entre outros efeitos, aumento
de abortos espontâneos e malformações congénitas. Além disso, a fome imposta em
Gaza causou mortes infantis. Em 1º de Outubro de 2025, 151 mortes de crianças
por subnutrição haviam sido registadas.
Mas Israel também ataca diretamente as
crianças. Tel Aviv usa armas de precisão como quadricópteros, drones e rifles,
visando especificamente menores de idade na cabeça e na parte superior do corpo
“para infligir o máximo dano”, diz Srinivasan Muralidhar, presidente da
comissão.
O
relatório cita o caso de um bebê atingido na cabeça por um drone com câmera
infravermelha enquanto era amamentado em uma barraca. Outro caso que ganhou
destaque internacional foi o da menina Hind Rajab, morta quando tentava
deixar a cidade de Gaza com sua família.
O carro em que viajavam foi atingido durante
os combates. Vários parentes morreram e Hind ficou presa no veículo. Durante
horas, manteve contato telefónico com operadores do Crescente Vermelho
Palestino pedindo socorro. Uma ambulância enviada para resgatá-la também foi
atingida, e os socorristas morreram.
Dias depois, o corpo de Hind foi encontrado
junto aos de seus familiares.
Para o magistrado
indiano Srinivasan Muralidhar, presidente da comissão, “ao visar as crianças,
Israel ataca a própria capacidade do povo palestino de existir e determinar o
seu futuro”.
“Graves lesões
físicas e psicológicas, traumas coletivos, separações, deficiências, deslocamentos
repetidos, fome e o colapso dos sistemas de educação e saúde destruíram a
infância destas crianças e continuarão a marcá-las ao longo das suas vidas em
Gaza”, detalha o documento.
As crianças feridas
não apenas permanecerão mutiladas ao longo da vida, como também traumatizadas.
“Para as crianças de Gaza, o medo e a
violência tornaram-se tão regulares, tão diários, tão constantes que, na
verdade, o trauma que vemos nas nossas operações já não é um simples episódio
das suas vidas, está intrinsecamente ligado à sua vida cotidiana, à própria
estrutura da sua infância", afirma Baptiste Chapuis, chefe da Advocacy e
programas internacionais da Unicef.
Após a publicação do
relatório, Israel reagiu rapidamente, classificando-o como
"difamatório" e afirmando que ele "ignorava as tácticas brutais
do Hamas, que ataca as crianças israelenses e usa as crianças palestinas como
escudos humanos".
O documento, porém,
sustenta suas conclusões com fatos e enumera, por exemplo, divisões, brigadas e
unidades israelenses suscetíveis de estarem envolvidas nas mortes de crianças
em Gaza e na Cisjordânia. “Sabemos quem são”, afirma um dos membros da
comissão, Chris Sidoti.
O cessar-fogo de Outubro de 2025,violado diariamente, não alterou a situação.
A comissão observou que crianças continuaram sendo mortas e gravemente feridas. Elas representam 30% de todas as vítimas fatais no enclave palestino.
Desde o início da trégua
entre Israel e o Hamas, em Outubro passado, pelo menos 265 crianças foram
mortas, uma média de uma por dia.
“Raghad, uma jovem
embaixadora da Unicef de 17 anos, foi morta em Gaza nesta segunda-feira, 22 de
Junho, enquanto seguia para seu exame final do ensino médio”, aponta Baptiste
Chapuis, enfatizando que as vítimas têm nomes.
“A realidade é que
palestinos continuam sendo mortos e feridos em Gaza mesmo após o anúncio do
cessar-fogo em Outubro passado, e a quantidade de ajuda humanitária permitida
em Gaza permanece muito abaixo dos níveis necessários”, observa Srinivasan Muralidhar.
"Essas crianças
não foram mortas em uma zona de guerra", observou o porta-voz do UNICEF,
James Elder, em 19 de Junho. "Elas foram mortas em casa. Em suas escolas.
Enquanto jogavam futebol. Enquanto pescavam. Elas foram baleadas, bombardeadas
e alvo de drones", sublinha.
Além dessas mortes,
mais de 400 crianças ficaram feridas nos últimos oito meses. "Médicos
estão tratando hemorragias cerebrais e lesões graves na cabeça, no tórax e no abdómen,
bem como traumas que deixarão marcas para toda a vida."
As taxas de
mortalidade infantil permanecem muito altas, muitas crianças aguardam evacuação
médica de emergência e a escassez de medicamentos continua crítica. Os danos
são tanto físicos quanto psicológicos.
A comissão
internacional de inquérito também destacou o tratamento dispensado a crianças
na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental. A violência de colonos e
soldados contra os mais jovens aumentou — incluindo tortura, violência sexual e
privação de alimentos —, tendo como alvo principalmente meninos. Segundo o
direito internacional, o tratamento infligido durante prisões ou detenções
constitui crime contra a humanidade. Israel, porém, justifica suas ações
citando o contexto de uma "ameaça terrorista constante".
Mais da metade das
crianças palestinas mantidas em prisões israelenses no final do ano passado
estavam detidas sem acusação ou julgamento, segundo a ONG Defence for Children
International.
"Costuma-se dizer que 100% das crianças em Gaza, e a maioria das
crianças na Cisjordânia hoje, enfrentam problemas de saúde mental, seja devido
a traumas,medo ou extrema vulnerabilidade", afirma o representante do
UNICEF responsável por defesa de direitos e programas internacionais.
Como potência ocupante, Israel é legalmente obrigado a garantir a proteção, o cuidado e a sobrevivência das crianças palestinas. Nunca antes, em guerras israelenses anteriores na Faixa de Gaza, tantas crianças foram mortas. "As autoridades israelenses desrespeitaram todas as normas do direito internacional no tratamento de crianças palestinas e devem ser responsabilizadas", insiste Chris Sidoti.
Nas conclusões do
relatório, a comissão observa que uma "parcela significativa dos danos
sofridos pelas crianças palestinas não foi incidental, mas visava destruir a
existência dos palestinos de Gaza como grupo". As crianças palestinas
estão no centro do argumento jurídico sobre a existência de genocídio. Além
disso, "soldados israelenses filmando a si mesmos destruindo e zombando de
brinquedos infantis levantam sérias preocupações éticas, disciplinares e
legais, simbolizando a desumanização da própria infância palestina".
No relatório mais
recente do Secretariado da ONU sobre a proteção da infância em conflitos
armados, Israel e o Território Palestino Ocupado ocupam o primeiro lugar, à
frente da República Democrática do Congo.
Baptiste Chapuis
insiste que, para romper esse ciclo mortal, a comunidade internacional e os
Estados devem utilizar todos os instrumentos diplomáticos à disposição para pôr
fim às violações e garantir a responsabilização dos autores. Além disso, é
preciso permitir a livre circulação de ajuda humanitária para Gaza, que
permanece em situação de extrema necessidade.
"Enquanto essas
violações persistirem de forma sistemática, as mortes e mutilações de crianças
continuarão sem trégua", conclui o chefe de Advocacy e Programas
Internacionais do Unicef.
"Acreditamos hoje que a vida de uma criança palestina vale menos do que a de uma criança em outro país? O que justifica este dois pesos e duas medidas? A dimensão das violações do direito internacional humanitário e das violações graves dos direitos das crianças nos últimos dois anos e meio foi documentada. Ninguém poderá alegar desconhecimento", diz.ANG/RFI

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