Cuba/Parlamento aprova por unanimidade programa económico que marca viragem histórica
Bissau,
19 Jun 26(ANG) - O Parlamento cubano aprovou na quinta-feira, por unanimidade,
um extenso programa de reformas a favor da economia de mercado, marcando uma
viragem histórica para a ilha comunista, mergulhada numa profunda crise
económica e sob pressão de Washington.
Mais
de 400 deputados da Assembleia Nacional do Poder Popular foram chamados a
pronunciar-se sobre 176 propostas que abrangem inúmeros setores da economia,
apresentadas pouco antes pelo primeiro-ministro, Manuel Marrero.
As
reformas foram aprovadas por unanimidade através de votação por braço no ar, de
acordo com imagens transmitidas pela televisão estatal.
As
medidas dizem respeito, nomeadamente, à organização das empresas privadas e
estatais, bancos, turismo, agricultura, investimentos estrangeiros, impostos,
salários e mercado cambial.
“Trata-se
do programa de reforma económica mais profundo anunciado nos últimos 70 anos da
história económica do país, desde a vitória da revolução de 1959”, afirmou à
AFP o economista cubano Daniel Torralbas, radicado em Londres.
Nos
anos que se seguiram à revolução liderada por Fidel Castro em 1959, as grandes
empresas privadas, cubanas ou estrangeiras, foram nacionalizadas, assim como os
pequenos comércios e empresas familiares.
O
dogma da economia socialista sofreu ao longo do tempo alguns abalos, mas sem
nunca pôr em causa os fundamentos de uma economia amplamente planificada e
centralizada.
Em
2021, porém, pela primeira vez em meio século, foram autorizadas pequenas e
médias empresas, com capacidade para empregar até 100 trabalhadores, para fazer
face à crise e ao descontentamento social. Hoje, são mais de 10.000 e empregam
um terço da população ativa.
Entre
as reformas aprovadas na quinta-feira destacam-se, nomeadamente, a transformação
das empresas estatais em sociedades comerciais “por ações ou com participação”,
a autorização de empresas privadas com mais de 100 trabalhadores, a
participação de capitais estrangeiros no setor privado e a abertura de contas
em moeda estrangeira para particulares.
A
agricultura, turismo, setor bancário e mercado cambial estarão doravante
abertos ao investimento privado, nacional ou estrangeiro. Até então, este
último era canalizado a favor das empresas estatais.
Os
cubanos poderão também possuir mais do que uma empresa privada e participações
noutras sociedades. Serão permitidas negociações salariais no seio das
empresas.
“A
maior parte das transformações propostas visa alargar o papel do setor privado
na economia cubana (…) e trata-se de mudanças drásticas; não estamos a falar de
meros retoques superficiais”, sublinhou Torralbas.
Ainda
não foi, porém, anunciado qualquer calendário, nem se colocou em causa o
sistema político, dominado exclusivamente pelo Partido Comunista Cubano (PCC).
“Trata-se
de transformações destinadas a corrigir os erros, mas sempre com o objetivo de
defender o socialismo”, declarou o Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, após a
votação dos deputados.
Na
quarta-feira, durante uma sessão extraordinária, o Comité Central do PCC,
instância máxima do partido, deu ‘luz verde’ a este pacote de reformas no
sentido de uma maior liberalização da economia, cujos detalhes não tinham sido
divulgados.
“Algumas
não serão objeto de um consenso absoluto, mas é impossível adiá-las”, declarou
então o chefe de Estado cubano. O ex-líder Raúl Castro, com 95 anos, deu também
a entender que aprova as mudanças.
Estas
reformas surgem num momento em que o Presidente norte-americano,
Donald
Trump, aplica uma política de pressão máxima sobre a ilha, submetida há quase
cinco meses a um bloqueio petrolífero, que levou a economia cubana – já sujeita
a um embargo desde 1962 – à beira do colapso, provocando cortes generalizados
de energia, escassez de alimentos, combustível, água potável e medicamentos.
Washington
não esconde o desejo de ver uma mudança de modelo económico, ou mesmo de
regime, na ilha situada a cerca de 150 quilómetros da costa da Flórida.
“Se
tomarem decisões inteligentes, teremos uma relação muito melhor com esta ilha”,
reagiu o vice-presidente norte-americano JD Vance, questionado na Casa Branca
sobre uma possível intervenção militar em Cuba, após a assinatura, na
quarta-feira, de um acordo entre Washington e Teerão.
ANG/Inforpress/Lusa

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