Argentina/Milei chama Sánchez de ditador e é acusado de ingerência por Madri a 6 semanas da eleição espanhola
Bissau,
22 Out 26 (ANG) - A pouco menos de seis semanas das eleições legislativas
antecipadas de 29 de Novembro, a campanha espanhola ganhou um protagonista
inesperado na quarta-feira (21).
Em
visita a Madri, o presidente argentino Javier Milei chamou o primeiro-ministro
Pedro Sánchez de "ditador", "ladrão" e
"corrupto", declarou apoio à direita e à extrema direita espanholas e
levou o governo a denunciar uma tentativa de ingerência estrangeira em um dos
momentos mais sensíveis da disputa eleitoral.
O presidente da Argentina, Javier Milei, provocou nesta quarta-feira (21)
uma nova crise diplomática com a Espanha ao atacar duramente o
primeiro-ministro Pedro Sánchez durante uma visita a Madri marcada por
demonstrações explícitas de apoio à direita e à extrema direita espanholas.
Em um discurso pronunciado durante um fórum económico, o líder argentino classificou Sánchez como “ditador”, “ladrão” e “corrupto”, além de pedir aos espanhóis que expulsem os socialistas do poder nas eleições legislativas antecipadas marcadas para 29 de Novembro.
As declarações ocorreram em um momento particularmente delicado para a política espanhola.
A menos de seis semanas do pleito, o resultado permanece em aberto e as pesquisas indicam vantagem do Partido Popular, principal força da oposição conservadora, mas sem garantias de maioria absoluta no Parlamento. Nesse cenário, o partido de extrema direita Vox pode desempenhar papel decisivo na formação do próximo governo.
A reação de Madri foi imediata. Em comunicado divulgado logo após o discurso, o Ministério das Relações Exteriores espanhol condenou as declarações do presidente argentino e acusou Milei de tentar interferir no debate político interno do país.
Segundo a diplomacia
espanhola, é "indigno" que o dirigente argentino realize visitas ao
país "com o único objetivo de tentar provocar um clima de polarização e
violência entre espanhóis". O governo também afirmou condenar
"firmemente os insultos e calúnias" dirigidos contra Sánchez.
A porta-voz do
governo, Elma Saiz, cobrou respeito institucional ao chefe do Executivo
espanhol e classificou como inaceitáveis as novas provocações vindas de Buenos
Aires.
Durante sua
intervenção, Milei retomou temas que se tornaram centrais em seu discurso
político desde que chegou ao poder na Argentina, no fim de 2023. O presidente
atribuiu aos partidos de esquerda a responsabilidade pelos problemas económicos
enfrentados pela Europa e acusou o socialismo de promover estagnação económica
em diversos países do continente.
Em uma das passagens
mais agressivas do discurso, afirmou que a Espanha acolheu, ao longo das
últimas décadas, milhares de argentinos que deixaram seu país para escapar da
pobreza produzida pelo que classificou como "socialismo do século
21", acrescentando que os espanhóis atualmente sofrem sob um governo
liderado por um "ditador".
A imigração também
ocupou lugar de destaque em sua fala. Milei acusou o governo de Pedro Sánchez
de estimular uma "invasão migratória" por razões eleitorais e citou
como exemplo a crise migratória registada no fim de Julho em Ceuta, enclave
espanhol no norte da África, que recebeu dezenas de milhares de migrantes
vindos do Marrocos em um intervalo de poucos dias.
Segundo o presidente argentino, a combinação entre baixo crescimento económico
e políticas migratórias permissivas colocaria a Espanha numa tragédia de
decadência difícil de reverter.
As declarações aproximam Milei das teses defendidas pelo Vox, que transformou a imigração em um dos principais temas da campanha eleitoral e vem pressionando os conservadores do Partido Popular a adotar posições mais duras nessa área.
A visita do presidente argentino teve forte conteúdo político. Além de participar do fórum econômico, Milei programou encontros com dirigentes do Vox e com a presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, uma das figuras mais influentes da direita espanhola.
Questionado sobre sua
proximidade com lideranças conservadoras espanholas, ele não tentou esconder
suas preferências. "Sou claramente amigo de Santiago Abascal e de Isabel
Díaz Ayuso, e acredito que eles têm ideias saudáveis e positivas para tirar a
Espanha da decadência", afirmou.
A declaração reforça uma relação política construída ao longo dos últimos
anos entre Milei e setores da direita nacionalista europeia. Desde sua chegada
à Casa Rosada, o presidente argentino realizou diversas viagens à Espanha,
quase sempre participando de eventos ligados ao campo conservador ou à extrema
direita.
O alinhamento
ideológico entre Milei e o Vox, de extrema direita, tornou-se um aspecto
permanente das relações entre os dois lados, alimentando críticas do governo
espanhol e de partidos de esquerda.
Não é a primeira vez
que declarações de Milei provocam atritos entre Buenos Aires e Madri. Em Maio
de 2024, durante um evento organizado pelo Vox, o presidente argentino
referiu-se à esposa de Pedro Sánchez, Begoña Gómez, investigada por suspeitas
de tráfico de influência, como uma mulher "corrupta".
O episódio
desencadeou uma grave crise diplomática entre os dois países.
Na ocasião, Sánchez
afirmou que Milei não havia estado à altura da relação histórica e dos laços de
amizade que unem Espanha e Argentina. Pouco depois, o governo espanhol decidiu
convocar para consultas sua embaixadora em Buenos Aires, medida que representa
um dos gestos diplomáticos mais duros antes da ruptura formal de relações.
A tensão só começou a
diminuir meses depois, com a nomeação de um novo embaixador espanhol para a
Argentina. Os acontecimentos desta quarta-feira indicam, porém, que as feridas
diplomáticas permanecem abertas.
Enquanto Milei discursava em Madri, Pedro Sánchez respondeu de forma
indireta. Pouco antes do início do evento, o primeiro-ministro publicou um
vídeo na rede social X no qual afirmou sentir orgulho de ser
"esquerdista", apropriando-se ironicamente de um termo frequentemente
usado de forma pejorativa pelo presidente argentino epor dirigentes da extrema
direita para atacar adversários políticos.
A troca de acusações ocorre quando a campanha espanhola entra em sua fase decisiva. As pesquisas apontam vantagem do Partido Popular sobre os socialistas, mas indicam que nenhum partido deve alcançar sozinho a maioria necessária para governar. Isso aumenta a importância do Vox na futura composição parlamentar e torna ainda mais relevante a disputa pelos eleitores indecisos. ANG/RFI/AFP

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