Paraguai/Senado retoma sessão de impeachment de Santiago Peña, que promete se defender 'com argumentos e provas'
Bissau, 06 nov 26 (ANG) - O Senado paraguaio adiou para esta sexta-feira (6), às 10h pelo horário local, o julgamento para analisar o processo de impeachment do presidente Santiago Peña.
O processo havia sido
iniciado na noite anterior, mas foi adiado por falta de quórum. Numa mensagem
publicada na rede social X, o líder conservador indicou que apresentará sua
defesa às autoridades "com argumentos e provas".
O
processo de destituiçãp de Peña ocorre em meio a
uma crise bancária que o levou a apresentar sua renúncia na quinta-feira (5),
enquanto milhares de cidadãos exigem que ele deixe o cargo.
Durante a noite, manifestantes ocuparam o entorno do Congresso paraguaio em Assunção, reclamando a responsabilização do presidente pela crise bancária que congelou os depósitos de três milhões de pessoas, quase metade da população do país.
Peña permanece provisoriamente na Presidência, já que o Congresso suspendeu a tramitação da sua renúncia enquanto o processo de destituição contra ele avança. Segundo o senador governista Derlis Maidana, a ideia do parlamento é concluir o julgamento ainda hoje, para "tranquilizar os cidadãos".
Peña anunciou sua renúncia pouco depois
do meio-dia de quinta-feira, após perder o apoio de seu próprio partido, o
Colorado, e de seu mentor, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018).
Logo depois, deputados votaram por
unanimidade a abertura de um julgamento político contra Peña e rejeitaram a
abertura de outro contra o vice-presidente do país, Pedro Alliana, a quem cabe
assumir a presidência.
"Tomei a decisão de apresentar
minha renúncia (...) Quero pedir desculpas ao povo se, em algum momento,
falhei", disse Peña em um vídeo publicado no X, onde ressaltou que sua
prioridade é "a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas
economias" ao sistema financeiro do país.
Durante a tarde, uma sessão de ambas as
câmaras destinada a se pronunciar sobre a renúncia do presidente foi cancelada
por falta de quórum. Minutos depois, senadores governistas anunciaram que se
iniciaria o processo de impeachment.
À noite, o Senado realizou outra sessão
extraordinária, para apresentar a acusação, e marcou o início do julgamento
para as 10h desta sexta-feira.
"Aqui foi montado um esquema criminoso
que se dedicou a esvaziar um banco com a proteção de instituições que ele
controlava como presidente da República", destacou na acusação o deputado
opositor Raúl Benítez.
A crise eclodiu na terça-feira (3),
quando o Banco Central do Paraguai interveio no Ueno Bank devido a uma
insuficiência grave de capital. Além dos depósitos dos correntistas, foram
congelados fundos de órgãos estatais.
Peña, que foi ministro da Fazenda e
assumiu a Presidência em 2023 para um mandato até 2028, tinha ações de um grupo
que controlava o banco, das quais se desfez em 2025. Após a intervenção no Ueno
Bank, ele exigiu a renúncia do presidente do Banco Central e promulgou uma lei
que fixou um prazo de cinco dias úteis para a devolução da maior parte dos
recursos aos clientes do banco.
Ainda assim, deputados da oposição
reuniram ontem as assinaturas necessárias para apresentar uma acusação contra
Peña por conflito de interesses. Ele é principalmente criticado por ter
favorecido o banco por meio de decisões regulatórias e depósitos
previdenciários.
Eleito com folga em 2023, aos 44 anos,
Santiago Peña se tornou o mais jovem presidente da história do Paraguai. O
candidato venceu a disputa com 42,7% dos votos, contra 27,5% do adversário de
centro-esquerda, contrariando a maioria das pesquisas que apontavam uma eleição
acirrada.
Com passagem pelo Banco Central do
Paraguai, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Ministério da
Fazenda, ele afirmava representar a visão da sociedade conservadora paraguaia,
defendendo valores tradicionais e cristãos.
Embora tenha sido ligado por muitos anos
ao Partido Liberal, de centro-esquerda, Peña integrou o governo do
ex-presidente Horacio Cartes, uma das figuras mais influentes e ricas do país,
filiado ao tradicional Partido Colorado. Em 2016, Peña ingressou oficialmente
na legenda, decisão que seus críticos atribuíam a oportunismo político.
No poder, se alinhou aos governos de
direita da América do Sul e manteve relações estreitas com Washington. Assim
como o presidente argentino, Javier Milei, Peña participou ao lado de Donald
Trump da cúpula "Escudo das Américas", iniciativa voltada à formação
de uma coalizão para combater cartéis criminosos na região.
No escândalo que resultou em sua queda,
porém, o presidente acabou sendo penalizado sobre sua proximidade com o setor
financeiro. Antes de assumir a presidência e até 2025, Peña possuía
participações acionárias em uma holding controladora do banco Ueno.
Segundo opositores, a instituição
apresentava um crescimento considerado incompatível com os padrões do setor
bancário. O deputado Mauricio Espínola, um dos articuladores do processo de
destituição, afirmou que o banco expandia seus negócios em um ritmo sem
precedentes para uma instituição financeira saudável.
As críticas acabaram vindo até
integrantes da base governista. Entre eles, está o senador Oscar Salomón, do
Partido Colorado, acusou Peña de ter colocado interesses financeiros acima dos
interesses nacionais e retirou seu apoio ao presidente. ANG/RFI/AFP

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