Espanha/De volta de Ceuta, jovens marroquinos continuam sonhando com a Europa
Bissau, 07 Ago 26 (ANG) - Embora a maioria dos cerca de 70 mil migrantes marroquinos que atravessaram ilegalmente a fronteira do enclave espanhol de Ceuta na semana passada já tenha retornado ao Marrocos, muitos continuam determinados a tentar novamente.
Apesar das cenas de violência registadas durante e
após a travessia, parte desses jovens marroquinos ainda sonha com a
possibilidade de construir um futuro em território europeu.
Nos bairros populares de Casablanca, não
é difícil encontrar jovens que continuam vendo a Europa como a única saída
para escapar do desemprego e da falta de perspectivas. Ali, de 22 anos,
estava há apenas seis dias entre os milhares de marroquinos que conseguiram
entrar em Ceuta. Sentado em um salão de cabeleireiro da medina de Casablanca,
ele relembra a travessia.
“Eles nos maltrataram. Ainda estamos
sofrendo. Agradeço a Deus por estar vivo. Vi a morte com meus próprios olhos”,
conta.
A medina de Casablanca é um bolsão de
pobreza no coração da capital económica do Marrocos. "Muitos jovens
partiram daqui. Eu não me arrependo, quero continuar tentando. Vou continuar
pensando na Europa até ficar velho. Nosso país é bonito, mas a Europa é melhor.
Se você ficar aqui, pode trabalhar durante 30 anos e ainda assim não sair do
lugar, como um hamster girando na roda", avalia.
Ao lado dele, Mohammed, de 17 anos, já
tentou emigrar ilegalmente cinco vezes em apenas um ano. “Já fui preso duas
vezes. Não aguento mais. Psicotrópicos, haxixe, álcool... Aqui se consome todo
tipo de droga. Como ainda sou menor de idade, indo para a Europa, ainda posso
me salvar”, espera.
A falta de emprego é um dos principais
problemas enfrentados pelos jovens marroquinos. Em 2025, a taxa de desemprego
entre as pessoas de 15 a 24 anos chegou a 37% no país.
Segundo
o Ministério do Interior da Espanha, cerca de72 mil pessoas entraram em Ceuta
durante a crise migratória da semana passada. Aproximadamente 70 mil delas
já retornaram ao Marrocos.
Pelo menos 79 migrantes morreram,
principalmente por afogamento, segundo o último balanço divulgado pelas autoridades
de Ceuta. Do lado marroquino da fronteira, Rabat informou a morte de outras 11
pessoas, elevando para ao menos 90 o número de vítimas da crise migratória.
A crise migratória também gera
preocupação do lado espanhol. O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, alertou
nesta quarta-feira (5) que a situação dos menores que permaneceram no enclave
após a entrada maciça de migrantes na semana passada se tornou
"insustentável".
Segundo
ele, os centros de acolhimento para menores operam com uma taxa de ocupação de
2.600 por cento acima da capacidade considerada crítica. Cerca de 1.100 menores
estariam atualmente na cidade autónoma em condições precárias.
A ONG Save the Children já havia
alertado para a superlotação dessas estruturas. A organização afirma que o
sistema de proteção de Ceuta acolhe atualmente cerca de mil crianças, apesar de
dispor de apenas uma centena de vagas.
Em entrevista à televisão pública
espanhola, Juan Jesús Vivas pediu ajuda ao restante do país para administrar a
situação.
Pela legislação espanhola, outras
regiões devem colaborar no acolhimento de menores provenientes de territórios
sob forte pressão migratória. Na prática, porém, a medida enfrenta resistência
em algumas comunidades autónomas governadas pelo Partido Popular (PP) e pelo
partido de extrema direita Vox.
ANG/RFI

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