Médio Oriente/Lideranças políticas de Israel consideram que acordo entre EUA e Irã
representa um risco ao país
Bissau, 16 Jun 26 (ANG) - Ao contrário
do otimismo dos mercados e do alívio demonstrado por lideranças ocidentais,
Israel considera que o acordo entre Estados Unidos e Irã representa uma série
de riscos ao país.
Dessa vez, as críticas são contundentes
e não passam apenas por conversas de bastidores.
Neste
momento, há uma situação incomum na política israelense: o consenso. Não há
nenhuma voz dos principais partidos que tenha demonstrado apoio ao acordo. A
diferença é como as respostas se manifestam.
Membros
da atual coalizão de governo, liderada porBenjamin Netanyahu, não o criticam,
mas consideram prejudicial a Israel o que se sabe sobre o Memorando de
Entendimentos entre Estados Unidos e Irã.
Os pontos fundamentais ao país
supostamente não são mencionados: o desmantelamento da infraestrutura de
enriquecimento de urânio, o programa de mísseis balísticos e a atuação regional
dos chamados “proxies”, grupos aliados do Irã que recebem recursos financeiros
e armas do regime, como o Hezbollah, no Líbano, os Houthis, no Iêmen, o Hamas e
a Jihad Islâmica Palestina, na Faixa de Gaza, e as milícias pró-Irã, no Iraque.
Os nomes mais radicais da coalizão, como
os ministros Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir, dizem abertamente que “Israel
não recebe ordens dos Estados Unidos” e que “Israel não é uma república das
bananas”. Mas a oposição segue por outro caminho, responsabilizando diretamente
Netanyahu.
O ex-primeiro-ministro e líder do
Partido Be'Yachad, Naftali Bennett, declarou que “o mandato do governo
Netanyahu começou com uma guerra civil, continuou com o massacre de 7 de
outubro de 2023 e termina com um fracasso histórico contra o Irã".
Gadi Eisenkot, líder do partido Yashar,
disse que o acordo é um “resultado deplorável de um governo falido” e que a
coalizão “perdeu a confiança do público” e “abandonou os cidadãos de Israel”.
Tanto Bennet quanto Eisenkot são dois
dos principais candidatos para substituir Netanyahu em eleições gerais. A
data do pleito ainda não foi definida, mas deve acontecer em algum ponto entre
os meses de Setembro e Outubro.
Houve desgastes importantes
principalmente na relação pessoal entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu.
Trump chegou a dizer mais de uma vez que falta bom senso a Netanyahu, que ele é
uma pessoa difícil da qual discorda muitas vezes. O presidente dos EUA chegou a
falar abertamente sobre o assunto em declarações à imprensa norte-americana.
A dúvida é como tudo isso influencia os
acontecimentos daqui para frente. Um sinal importante ocorreu num momento de
tensão que antecedeu o anúncio sobre o Memorando de Entendimentos entre EUA e
Irã.
No
último final de semana, o Hezbollah continuou a disparar foguetes e
drones contra as comunidades do norte de Israel. O Estado hebreu também
continuou a atacar o Hezbollah e aatuar nio sul do Líbano.
Uma semana antes, Tel Aviv já havia
deixado claro que, em caso de novos ataques contra o seu território, agiria em
Beirute ou Dahieh, o distrito que é o reduto do Hezbollah ao sul da capital
libanesa.
Israel realizou
um ataque contra um edifício em Dahieh argumentando que se tratava de uma
resposta. Trump então telefonou a Netanyahu e teve uma conversa dura com o
líder israelense dizendo justamente que ele não tinha bom senso.
Esta conversa teve muita repercussão em
Israel, justamente pela sequência dos acontecimentos. O presidente norte-americano
disse que o Estado hebreu não deveria ter realizado qualquer ataque a Dahieh,
na medida em que os drones e foguetes do Hezbollah disparados no final de
semana “não haviam provocado a morte” de nenhum cidadão israelense.
Segundo a imprensa local, em conversas
privadas autoridades israelenses expressam profunda frustração com as
concessões de Washington a Teerã.
“Os iranianos não cumprirão o acordo, e
as futuras operações para eliminar o seu programa nuclear e reduzir as suas
capacidades de mísseis são uma questão de tempo”, disse uma fonte israelense.
Os números em Israel são cada vez menos
favoráveis a Netanyahu. Uma pesquisa da Universidade Hebraica de Jerusalém
mostra que 45% dos entrevistados dizem que votarão apenas em um partido que se
oponha à continuidade do primeiro-ministro no cargo. Enquanto 31% disseram
exatamente o oposto, que querem uma legenda que demonstre apoio a Netanyahu.
Outro levantamento aponta que 23% dos
eleitores do norte do país dizem que apoiarão o Likud, o partido liderado por
Netanyahu, nas próximas eleições – uma queda em relação aos 35% de apoiadores
nesta região durante as eleições de 2022.
Os moradores do norte de Israel são
justamente os mais afetados pelos disparos de foguetes e drones do Hezbollah.
Essa população corresponde a cerca de 30% do total de eleitores do país.
Em uma sondagem do Canal 12, Netanyahu
aparece apenas como a terceira opção para o cargo de primeiro-ministro, com
apoio de 20% dos eleitores. O ex-general Gadi Eisenkot aparece em primeiro
lugar, com 27%, e o ex-primeiro-ministro Naftali Bennet tem 21%.
Na divisão dos blocos de partidos no
Knesset, o parlamento, a atual coalizão de governo liderada por Netanyahu
aparece nas pesquisas mais recentes com 50 das 120 cadeiras, número
insuficiente para formar o próximo governo.
Em Israel, é preciso ter o controle de
61 pelo menos, uma maioria simples, para formar uma coalizão de governo.
O bloco de oposição tem 60 cadeiras. Se
o cenário permanecer desta forma e os resultados das pesquisas se confirmarem,
os dez assentos que os partidos árabes possuem serão decisivos para a formação
do próximo governo Henry Galsky. ANG/RFI