Espanha/Chegada massiva de migrantes
do Marrocos em Ceuta deixa mortos e europeus buscam conter crise
Bissau, 31 Jul 26(ANG) - Centenas de jovens
marroquinos voltaram a se concentrar nesta sexta-feira (31) nas proximidades da
fronteira com o enclave espanhol de Ceuta, um dia depois da entrada ilegal de
um elevado número de migrantes no território espanhol.
O episódio reacendeu a crise migratória e provocou
tensão entre países europeus.
Pelo menos 18 pessoas morreram afogadas
desde quinta-feira (30) na tentativa de chegar à Espanha a nado atravessando a
fronteira do Tarajal, entre o Marrocos e Ceuta, segundo dados divulgados nesta sexta-feira
(31) por fontes policiais. Nas últimas 24 horas, a estimativa é de que quase 40
mil migrantes cruzaram a fronteira.
Para gerenciar o fluxo migratório, a
Espanha enviou reforços policiais e militares a Ceuta. O primeiro-ministro
espanhol, Pedro Sánchez, deve visitar o local nesta sexta-feira, acompanhado do
ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. Os dois se reunirão com as
forças de segurança e as autoridades locais.
A Espanha anunciou que fechou a
fronteira de Beni Enzar, entre o país e o Marrocos, situada em Melilla,
outro enclave espanhol a cerca de 400 quilômetros de Ceuta, também utilizada
como porta de entrada por migrantes que tentam chegar ao continente europeu de
forma irregular.
Entre
300 e 400 migrantes entraram em Melilla, segundo informações da prefeitura
da cidade divulgadas pelo El Pais. O jornal afirma que o balanço já
subiu para 19 mortos, principalmente jovens e adolescentes.
Segundo
o ministro espanhol da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, as chegadas
em massa ocorridas na véspera foram provocadas por vários fatores, entre eles
uma decisão recente da Suprema Corte espanhola.
A corte
determinou que os migrantes interceptados no mar ao tentarem chegar a
Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente aos seus países de
origem com base no regime especial aplicado a esses enclaves.
De acordo com o ministro espanhol, a
resposta do governo foi "rápida", e a Espanha devolverá os migrantes,
no momento oportuno, "em conformidade com as decisões judiciais e com os
direitos dos envolvidos".
A rodoviária de Rabat continua
movimentada e, em várias estações do Marrocos, os controles foram reforçados
para restringir os deslocamentos em direção às cidades do norte do país.
Muitos jovens, alguns deles menores de
idade, acreditaram nos rumores que circulam nas redes sociais sobre uma suposta
abertura da fronteira entre a Espanha e o Marrocos. Mas as travessias ocorrem
de forma ilegal e em grupos de várias dezenas de pessoas, em um ambiente de
caos.
Vestindo roupas de mergulho, alguns
equipados com nadadeiras, os migrantes enfrentam uma área particularmente
perigosa do Mediterrâneo, marcada por fortes correntezas. São necessárias
várias horas de nado para chegar a Ceuta, próxima ao Estreito de Gilbraltar.
Milhares de migrantes também continuaram
chegando durante a noite à cidade de Fnideq, próxima de Ceuta. Eles percorriam
a costa em busca de rotas alternativas, mas a polícia conseguiu impedir a
maioria das tentativas de passagem.
Brahim, de 32 anos, que preferiu não
divulgar seu sobrenome, contou que chegou tarde demais de Tânger na esperança
de atravessar para o enclave espanhol, mas encontrou o posto de passagem
fechado. Outro migrante, que também recusou revelar sua identidade, disse ter ficado
preso em um empurra-empurra durante uma tentativa de travessia. “Temi pela
minha vida”, afirmou.
As autoridades marroquinas mobilizaram
canhões de água e reforçaram a segurança nos pontos de passagem, repelindo
repetidamente os migrantes que tentavam se aproximar da fronteira.
O ministro do Interior francês, Laurent
Nuñez, voltará a conversar nesta sexta-feira com o espanhol Fernando
Grande-Marlaska sobre a questão. Nuñez anunciou a ativação da "Força
de Intervenção Rápida de Fronteira" para realizar controles reforçados, em
mensagem publicada no X. O ministro francês também afirmou que já havia dado
instruções, na noite de quinta-feira (30), para reforçar os controles na
fronteira com a Espanha.
“Temos
controle na fronteira franco-espanhola. Ele existe e, aliás, foi reforçado nos
últimos meses”, lembrou Nuñez durante a entrevista. “Dispomos deuma força
móvel presente de forma permanente. Tomaremos medidas se houver deslocamentos
em direção ao território nacional. Em todo caso, reforçaremos os controles na
fronteira”, acrescentou.
A
premiê italiana, Giorgia Meloni, afirmou na noite de quinta que estuda
suspender os acordos de livre circulação do espaço Schengen com a Espanha. O
governo italiano critica a campanha de regularização promovida desde abril pelo
governo espanhol em favor de mais de meio milhão de migrantes sem documentos. O
ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirma que essas
regularizações incentivaram o tráfico de seres humanos.
O comissário europeu para Assuntos
Migratórios, Magnus Brunner, ofereceu à Espanha o apoio da Frontex, a agência
da União Europeia responsável pela guarda costeira e pela vigilância das
fronteiras, e defendeu o rápido retorno dos migrantes ao Marrocos.
Marrocos e Espanha concordaram em
reforçar sua coordenação e seus esforços para enfrentar esses fluxos
migratórios. Os dois países comprometeram-se a implementar medidas para o
repatriamento, no menor prazo possível, de todas as pessoas que entraram
ilegalmente em Ceuta.
ANG/RFI/AFP