Rússia/ Governo pede captura de fundador do Telegram e amplia
ofensiva contra apps estrangeiros
Bissau, 29 Jul 26 (ANG) - A Rússia ampliou nesta
quarta-feira (29) sua ofensiva contra Pavel Durov ao emitir um pedido de busca
internacional contra o fundador do Telegram.
Moscou acusa o empresário de "cumplicidade de
terrorismo", por supostamente não impedir o uso da plataforma em ações de
recrutamento atribuídas à inteligência ucraniana.
O caso se soma aos problemas judiciais que Durov já
enfrenta na França e o coloca no centro de uma disputa global sobre regulação
digital e segurança.
A decisão abre um novo capítulo no
confronto entre Moscou e o bilionário nascido na Rússia, que já enfrenta
problemas judiciais na França por supostas falhas no combate ao uso criminoso
da plataforma.
Segundo o Serviço Federal de Segurança
russo (FSB), Durov é alvo de uma investigação criminal relacionada ao suposto
recrutamento de soldados por meio de ferramentas disponíveis no Telegram.
O órgão anunciou que foi iniciado um
procedimento de busca internacional, embora não tenha informado qual mecanismo
jurídico pretende utilizar nem se solicitará formalmente cooperação a outros
países para executar a medida.
Pavel
Durov, de 41 anos, está actualmente em França. Além da cidadania russa, ele
possui também passaportes francês e emiradense.
Desde 2024, Durov responde à Justiça
francesa por uma série de acusações ligadas ao crime organizado. Os magistrados
franceses sustentam que o Telegram falhou repetidamente em cooperar com
investigações e em combater conteúdos relacionados a atividades criminosas.
O foco das investigações está na responsabilidade das plataformas digitais
por crimes praticados por usuários.
De acordo com o FSB, as acusações na
Rússia envolvem o chamado Leo Match Bot, uma ferramenta de
encontros considerada ilegal no país. Moscou afirma que agentes ucranianos
utilizavam o sistema para abordar adolescentes e jovens russos, passando-se por
mulheres, com o objetivo de recrutá-los para ações contra policiais e
infraestruturas estratégicas russas.
As
autoridades afirmam que 46 cidadãos russos, com idades entre 12 e 22 anos,
foram presos desde julho de 2025 por supostos ataques a agentes de segurança e
atos de sabotagem contra instalações de energia e transporte. Segundo o FSB,
todos tiveram contato com os recrutadores por meio dessa ferramenta integrada
ao ecossistema do Telegram.
A nova acusação não surge em um vazio
político. Desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em Fevereiro de
2022, o Telegram tornou-se uma das principais plataformas de comunicação usadas
simultaneamente por autoridades russas, militares, blogueiros pró-Kremlin,
opositores do governo e canais ligados à Ucrânia.
Ao longo do conflito, o aplicativo
consolidou-se como uma das mais importantes ferramentas de circulação de
informações, imagens de combate e mobilização política nos dois lados da
guerra. Esse papel transformou a plataforma em um espaço estratégico para as
operações de influência e inteligência travadas entre Moscou e Kiev.
Os serviços de segurança russos
sustentam que grupos vinculados à Ucrânia utilizam o aplicativo para recrutar
executores de ataques dentro do território russo. O Kremlin tem associado uma
série de incêndios, explosões e sabotagens ocorridos nos últimos anos a
campanhas conduzidas pelos serviços ucranianos.
As acusações contra Durov surgem num
período em que as autoridades russas ampliaram as restrições ao ambiente
digital. Moscou passou a limitar o acesso a plataformas estrangeiras e a
pressionar empresas de tecnologia a armazenar dados localmente e cooperar com
investigações de segurança nacional.
Tlegram
e WhatsApp figuram entre os serviços frequentemente acusados por
autoridades russas de facilitar operações atribuídas à inteligência ucraniana.
Ao mesmo tempo, a dependência do próprio
Estado russo em relação ao Telegram tornou qualquer tentativa de bloqueio um
processo politicamente complexo. Ministérios, governos regionais, forças de
segurança e até o Kremlin adotam a plataforma para comunicação institucional.
A trajetória de Durov tornou-se um dos
casos mais emblemáticos da disputa global em torno da regulação das plataformas
digitais. Após fundar a rede social VKontakte, conhecida como o "Facebook
russo", o empresário deixou a Rússia em 2014 depois de entrar em conflito
com o Kremlin a respeito do controle da plataforma e do acesso a dados de
usuários.
No ano seguinte, consolidou o
desenvolvimento do Telegram como uma alternativa baseada em privacidade,
criptografia e mínima intervenção sobre conteúdos publicados.
Essa filosofia transformou Durov em
referência para defensores da liberdade digital, mas também provocou críticas
crescentes de governos e especialistas em segurança.
Segundo a imprensa francesa, o anúncio
russo reforça a posição singular de Durov no cenário internacional. Embora
tenha deixado a Rússia há mais de uma década e seja visto como adversário do
Kremlin, seu aplicativo permanece profundamente enraizado na sociedade russa e
continua a desempenhar um papel central na circulação de informações dentro do
país.
A decisão anunciada pelo FSB tem impacto
político imediato, mas seu alcance prático permanece indefinido. Também não
está claro se Moscou buscará transformar a medida em um pedido formal de
cooperação policial internacional reconhecido por outros países.
Especialistas ouvidos pela imprensa
francesa observam que o caso tende a aprofundar o debate sobre a
responsabilidade de plataformas digitais sobre conteúdos ilícitos, sobretudo em
contextos de guerra híbrida, espionagem, recrutamento on-line e campanhas de
sabotagem.
Para Moscou, a questão é apresentada
como um problema de segurança nacional. Para os defensores de Durov, porém, a
nova ofensiva reforça uma tendência de governos de associarem os
administradores de plataformas às ações de seus usuários. ANG/RFI/AFP