Clima/ONU alerta que mudanças no ciclo da água ameaçam reservas de água doce
Bissau, 17 Set 26 (ANG) - O ciclo da água tornou-se
“mais irregular e imprevisível”, alertou a ONU nesta quinta-feira (17),
destacando que os rios de todo o mundo tiveram, em 2025, um dos anos mais secos
em mais de três décadas.
O ano
de 2025 está entre os mais quentes já registados .Agora, também figura entre os mais secos dos últimos
35 anos em termos de vazão dos rios, segundo um novo relatório da Organização
Meteorológica Mundial (OMM) sobre o estado dos recursos hídricos no mundo.
“É difícil afirmar com certeza se foi o segundo ou o terceiro ano mais seco”, mas “está entre os três primeiros”, afirmou Wayne Jenkinson, diretor da divisão de hidrologia e criosfera da OMM, durante uma coletiva de imprensa.
A
situação ocorre “em um contexto de redução de longo prazo das reservas de água doce
da Terra e de recuo contínuo das geleiras — tendências que terão consequências
importantes para as populações e as economias no futuro”, explica a OMM em
comunicado.
Segundo a agência da ONU, o ciclo da água tornou-se, de maneira geral, “mais irregular e imprevisível, oscilando entre escassez e excesso”.
Alguns componentes do ciclo da água
mudam rapidamente, como as precipitações, o fluxo dos rios e a humidade do
solo, reagindo às condições meteorológicas em questão de dias ou semanas.
Outros, como as águas subterrâneas, as
geleiras e a cobertura sazonal de neve, evoluem mais lentamente, ao longo das
estações e até de décadas ou períodos ainda maiores. Essas reservas ajudam a
amortecer os efeitos dos anos de seca.
“Estamos esvaziando essas reservas”,
alertou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, diante dos jornalistas.
Segundo ela, “as reservas globais de
águas continentais apresentam uma tendência de queda desde 2014-2016, um sinal
persistente há uma década”.
Pelo quarto ano consecutivo, todas as
principais regiões glaciais do planeta perderam massa, de acordo com o
relatório.
“As águas subterrâneas seguem essa
tendência: quase dois terços dos poços monitorados no mundo apresentaram, em
2025, condições diferentes da média histórica”, destacou Saulo.
“Ao mesmo tempo, observamos um aumento
dos desastres relacionados à água. O fortalecimento do El Niño aumentará o
risco de secas em algumas regiões e de inundações em outras”, afirmou.
O atual
fenómeno climático El Niño continuou se fortalecendo em agosto e tem agora 75%
de probabilidade de se tornar o mais intenso já registado, segundo anúncio
feito alguns dias atrás pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos
Estados Unidos (NOAA).
Associado a secas, inundações e
temperaturas recordes em diferentes partes do mundo, o El Niño é uma variação
natural do clima que ocorre a cada dois a sete anos.
Segundo o relatório, Ásia e África
concentraram, nos últimos cinco anos, pelo menos metade de todos os episódios
extremos relacionados à água registados no mundo e mais de 80% das mortes
associadas.
O estudo também mostra que, nos últimos
sete anos, o número de rios do mundo com vazão considerada “normal” foi o menor
desde 1991. Em mais de 36% da superfície das bacias hidrográficas mundiais, a
vazão ficou abaixo da média.
No caso das geleiras, a perda acumulada
de massa em todo o mundo entre 2023 e 2025 chegou a 1.400 giga toneladas de
água, volume aproximadamente equivalente ao necessário para encher 560 milhões
de piscinas olímpicas, cerca de um terço de toda a água doce retirada
anualmente.
A OMM destaca ainda que a
disponibilidade de dados sobre os recursos hídricos melhorou, mas persistem
lacunas justamente em algumas das áreas mais afetadas.
“A água não respeita fronteiras. O
balanço hídrico de uma bacia hidrográfica pode depender do que acontece em
outro país”, afirmou Saulo, ressaltando a necessidade de compartilhar dados,
padrões de monitoramento e sistemas de alerta precoce.
“Um
desastre glacial em um país pode provocar devastação em outro, como demonstrou
a recente tragédia que atingiu a China e o Nepal”, acrescentou.
ANG/RFI/AFP

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