França/Depois das críticas, Macron
assume comando da segurança nas manifestações e recebe estudantes
Bissau, 23 Out 26 (ANG) - Após mais de um mês de crise social e política, o presidente francês, Emmanuel Macron, passa a se envolver mais diretamente na tentativa de conter a tensão no país nesta sexta-feira (23).
Pela primeira vez desde o
início dos protestos, ele recebe líderes estudantis no Palácio do Eliseu e se
reúne com representantes das forças de segurança, na véspera de uma nova
jornada de mobilizações.
A seis meses da eleição presidencial, em
que a extrema direita aparece como favorita nas pesquisas, Macron tenta retomar
a iniciativa política.
Pela manhã, o presidente reúne o
Conselho de Defesa para discutir novas medidas de segurança, após a adoção de
toques de recolher e a proibição de manifestações em várias cidades nesta
semana.
À tarde, ele recebe no Palácio do Eliseu
representantes dos estudantes do ensino médio, antecipando-se ao
primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que só deve encontrá-los na segunda-feira
(26).
Hoje, Lecornu faz uma visita a Limoges
(centro), onde a sede da prefeitura foi incendiada durante os
distúrbios de 17 de Outubro.
Na reunião com Macron, os estudantes
pretendem reiterar suas principais reivindicações. "Vamos apresentar a ele
nossas demandas, que continuam sendo as mesmas", afirmou à AFP Nathanaël
Combary, presidente do grupo Renouveau Lycéen e militante do partido
governista Renascença.
Entre elas estão a melhoria das
condições nas escolas e a reforma do Parcoursup, o sistema nacional de acesso
ao ensino superior.
Nem todos, porém, acreditam que o
encontro trará resultados concretos. Pierre Sourzat, líder da organização Les
Lycéens, mostrou-se cético: "Ele vai nos ouvir, fingir que nos entendeu, e
depois nada vai mudar".
O governo prometeu levar em consideração
as propostas apresentadas pelos estudantes em uma plataforma online criada no
início de Outubro.
Apesar da abertura ao diálogo, o
Executivo não dá sinais de flexibilização na área de segurança.
Nesta sexta-feira, Macron deve se reunir
com representantes das forças de segurança, em mais um gesto para reforçar a
resposta do Estado aos protestos.
Na quinta-feira, o presidente pediu
"maior dureza" contra os autores dos atos de violência e acusou
grupos da ultraesquerda de terem tentado "derrubar a República"
durante os confrontos registados no último fim de semana.
A mesma linha foi adotada pelo ministro
da Justiça, Gérald Darmanin, que destacou a dimensão da resposta judicial.
Segundo ele, 217 pessoas já foram presas entre as cerca de 2.700 levadas sob
custódia após os episódios de violência e saques que atingiram cerca de 3.000
estabelecimentos comerciais.
No sábado (24), os organizadores esperam
uma nova mobilização nacional, considerada a continuação do movimento que tomou
as ruas nas últimas semanas. Emmanuel Macron afirmou, porém, que apenas os atos
promovidos pelos sindicatos serão autorizados.
Em Lyon
e Marselha, assim como em outras cidades francesas, as manifestações previstas para sábado foram
proibidas pelas autoridades. As decisões, no entanto, ainda podem ser
contestadas na Justiça administrativa.
Em
Paris, onde apenas um percurso foi autorizado para os manifestantes, entre as
praças da Bastilha e da Nação, a prefeitura pediu à população "máxima
vigilância".
O chefe
da polícia da capital também recomendou que comerciantes reforcem a protecção
de seus estabelecimentos com segurança privada, quando possível.
Temendo a repetição dos episódios de violência
registrados em 17 de Outubro, o governo anunciou um reforço expressivo do
aparato de segurança.
O efetivo mobilizado será 20% maior do
que o da semana passada e contará com o apoio de militares da operação
Sentinelle, unidades de elite da polícia e da gendarmaria, além de helicópteros
e veículos blindados utilizados no controle de distúrbios urbanos.
Outro ponto de atenção neste fim de
semana será o congresso do Reunião Nacional (RN), partido de extrema direita,
em Orléans, no centro-norte do país. O encontro ocorre no sábado e no domingo
sob forte esquema de segurança.
O vice-presidente da legenda, Louis
Aliot, disse esperar que a ordem seja mantida, enquanto entre 20 mil e 30 mil
manifestantes contrários ao RN são esperados na cidade no sábado.
Entre eles estarão o primeiro-secretário do
Partido Socialista, Olivier Faure, e a secretária-geral da central sindical
CGT, Sophie Binet. Cerca de 3 mil agentes das forças de segurança serão
mobilizados.
Na quinta-feira (22), após uma reunião
convocada pelo primeiro-ministro com os principais partidos para discutir a
manutenção da ordem, lideranças da esquerda voltaram a acusar o governo de
privilegiar a resposta de segurança em detrimento de soluções políticas para as
reivindicações dos manifestantes, que incluem melhorias na educação, aumento
dos salários, reforço do poder de compra e investimentos nos serviços públicos.
O Executivo, porém, tem pouca margem
para atender a essas demandas. O governo prepara um orçamento marcado por
cortes e contenção de gastos, em um momento de deterioração das contas
públicas.
A instabilidade política e social também
continua repercutindo nos mercados financeiros. Os juros dos títulos da dívida
francesa de dez anos permanecem acima de 5%, nível não observado desde 2002,
refletindo a crescente preocupação dos investidores com a situação política e
fiscal do país e com a capacidade do Estado de controlar o avanço do endividamento.
Nesse contexto, aumenta a expectativa em
torno da decisão da agência de classificação de risco Moody’s, que pode
rebaixar a nota de crédito da França nesta sexta-feira.
Caso isso ocorra, o custo de
financiamento da dívida pública francesa poderá subir ainda mais, ampliando a
pressão sobre um governo já confrontado por uma das mais graves crises de seu
segundo mandato. ANG/RFI/AFP

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