França/Parlamento decide instaurar CPI para investigar violência em protestos
Bissau, 21 Out 26 (ANG) - Os deputados franceses chegaram a um acordo terça-feira (20) para criar uma comissão de inquérito sobre os atos de violência do último fim de semana no país.
Enquanto isso, os toques de recolher adotados
em várias cidades após os saques e depredações serão mantidos por uma segunda
noite nos locais onde as autoridades consideram que ainda há risco de
distúrbios.
A
comissão deverá esclarecer as circunstâncias dos episódios registados à margem
das manifestações, especialmente durante os protestos de 17 de outubro. Os
parlamentares também pretendem examinara atuação das forças de segurança e a
estratégia de manutenção da ordem adotada pelo governo durante o fim de semana.
Entrevistado por Andréane Meslard,
o senador Laurent Lafon, correlator da missão de informação do Senado
sobre fake news, afirmou à RFI que é necessário identificar os responsáveis
pelos atos de violência e investigar possíveis campanhas coordenadas de
desinformação nas redes sociais.
Segundo ele, a primeira tarefa é
entender o que ocorreu durante os protestos e identificar eventuais falhas na
atuação das forças de segurança.
Em seguinda, é necessário compreender
“quem está por trás desses episódios de violência. Não das manifestações
pacíficas, mas dos excessos e dos atos violentos. Tudo isso foi
organizado? E por quem?”, aponta.
Lafon alertou para a falta de
responsabilização das grandes plataformas digitais pelo conteúdo que circula em
suas redes. Para o senador, “há uma vulnerabilidade real na França” diante da
desinformação, e a disseminação organizada de notícias falsas representa uma
ameaça direta às democracias.
Segundo ele, o risco de ingerência externa, mas também de campanhas internas de manipulação, tende a aumentar com a proximidade da disputa presidencial prevista para Abril de 2027.
A seis meses da eleição presidencial, com a candidata da extrema direita Marine Le Pen liderando amplamente as pesquisas, a crise ganha contornos cada vez mais políticos.
O partido Reunião Nacional (RN), de Le Pen, acusa o governo de não conseguir controlar a onda de violência e aponta a responsabilidade da França Insubmissa (LFI) pelo clima de tensão política.
A legenda liderada por Jean-Luc Mélenchon considera que os avanços políticos e sociais passam pela pressão exercida por movimentos populares e por relações de força nas ruas, posição que seus adversários acusam de alimentar a radicalização do debate público.
Após os acontecimentos do fim de semana, o presidente do Senado, Gérard Larcher, chegou a aventar a possibilidade de discutir a "dissolução" da LFI, uma medida considerada excepcional e juridicamente controversa.
Jean-Luc
Mélenchon, líder da França Insubmissa, rejeitou as acusações.
Segundo ele, seu partido não dirige o movimento popular, que age de forma autónoma. Para Melénchon, a responsabilidade pelos distúrbios decorre da incompetência do governo na condução da manutenção da ordem pública.
Já o primeiro-ministro, Sebastien Lecornu acusou o “movimento da ultresquerda” de querer provocar uma “desordem profunda” e até mesmo de "questionar o calendário eleitoral e a realização da eleição presidencial".
Na França, o termo ultra esquerda é usado para designar uma constelação de grupos radicais anticapitalistas, antifascistas e antissistema, frequentemente associados pelas autoridades a ações violentas contra instituições e símbolos do Estado.
O governo também está sob pressão para ajudar comerciantes e donos de restaurantes afetados pelos saques e depredações. Pelo menos 3 mil estabelecimentos foram atingidos. Como resposta, o Executivo anunciou empréstimos com juros zero a partir de sexta-feira e o parcelamento de encargos para os negócios prejudicados.
A violência também deixou manifestantes
gravemente feridos. Em Mulhouse, uma jovem de 17 anos perdeu um olho. Em
Saint-Étienne, um rapaz da mesma idade teve uma das mãos amputada após a
explosão de uma granada. O advogado do jovem anunciou que apresentará uma
queixa contra o autor do disparo e contra o ministro do Interior.
Os toques
de recolher começaram na segunda-feira em áreas de Paris, Lyon, Bordeaux, Lille
e Nice e outras localidades. As restrições são geralmente restritas às
areas centrais dos municípios.
Nesta terça-feira, o toque de recolher já foi decretado em Marselha, segunda maior cidade do país, para menores de idade a partir das 22h desta terça-feira. A medida será adotada em todas as áreas onde a situação ainda exigir medidas de segurança, anunciaram as autoridades francesas.
Os distúrbios ocorridos no fim de semana são considerados os mais graves dos últimos anos. A instabilidade política e social preocupa os mercados financeiros, devido ao elevado endividamento público.
As imagens de confrontos e de prédios
públicos incendiados ou depredados repercutiram internacionalmente e levaram
países como Estados Unidos, China e Alemanha a emitirem alertas de cautela para
seus cidadãos que estão na França.
No caso do incêndio da prefeitura de
Limoges, no centro-oeste do país, um homem fichado como potencial ameaça à
segurança do Estado e conhecido por vínculos com a ultra esquerda foi detido
nesta terça-feira. A autoridade antiterrorista da polícia assumiu a
investigação.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin,
afirmou que, se a resposta judicial aos atos de violência não for
"extremamente firme", comerciantes e moradores poderão tentar fazer
justiça por conta própria. Segundo ele, cerca de 150 pessoas já foram presas e
mais de 800 encaminhadas aos tribunais. ANG/RFI

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