Portugal/Inaugurado centro sobre Salazar e reabre debate sobre a memória da ditadura
Bissau,
23 Out 26 (ANG) - É possível criar um centro sobre um ditador sem
transformá-lo em homenagem? Essa é a pergunta que acompanha a abertura, nesta
sexta-feira (23), do Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e
Resistência, instalado em Santa Comba Dão, cidade natal de António de Oliveira
Salazar, o homem que governou Portugal com mão de ferro durante quase quatro
décadas.
O edifício fica próximo
à casa onde Salazar nasceu e a poucos quilómetros do cemitério onde está
enterrado.
Segundo a prefeitura,
o objetivo não é glorificar nem demonizar o antigo dirigente, mas estudar o
regime que ele liderou e a resistência que enfrentou.
Ainda assim, o
projeto gerou mais de vinte anos de controvérsias, alimentadas pelo temor de
que o local atraia admiradores da ditadura ou contribua para reabilitar a
imagem do ditador.
O espaço conta com
biblioteca, exposição permanente e uma sala de aula recriada para retratar o quotidiano
do período. Também receberá exposições temporárias, debates, mesas-redondas e
conferências.
Cinquenta e dois anos após a Revolução dos Cravos derrubar a ditadura mais
longa da Europa Ocidental, Portugal continua debatendo como lidar com seu
passado autoritário.
"Não queremos um
museu para glorificar Salazar, nem um lugar onde se fale mal da figura
central" do regime, afirmou a perfeita de Santa Comba Dão, Inês Matos, à
agência Lusa.
"Queremos um espaço aberto a todos",
onde "cada um possa estudar, conhecer, realizar pesquisas e debater",
acrescentou.
O vice-presidente da
Câmara Municipal de Santa Comba Dão, Luís Nunes, afirmou à Lusa que a intenção
é estudar "não só o regime, mas também a resistência ao regime".
Ele ressaltou que o ditador não será ocultado
da narrativa histórica, mas que tampouco se pretende construir um museu
dedicado à sua glorificação.
Salazar chegou ao
poder em 1932, na sequência do golpe militar de 1926, e criou o Estado Novo, um
regime autoritário marcado pela censura, pela polícia política e pela repressão
aos opositores.
Não há consenso entre
os historiadores sobre o número total de mortos atribuíveis ao regime.
Sabe-se, contudo, que
dezenas de milhares de pessoas foram presas por motivos políticos, que opositores
morreram em consequência da repressão e que, se forem consideradas as guerras
coloniais travadas na África, o saldo humano alcança muitas dezenas de milhares
de vítimas.
Para os defensores do
projeto, ignorar Salazar seria uma forma de apagar parte da história
portuguesa. Para seus críticos, existe o risco de transformar a cidade natal do
ditador em um local de peregrinação para nostálgicos do regime.
Portugal já conta com outros locais dedicados à preservação da memória
desse período histórico. Entre eles estão o Museu do Aljube – Resistência e
Liberdade, instalado em uma antiga prisão política em Lisboa, e a Casa
Aristides de Sousa Mendes, dedicada ao diplomata que salvou milhares de
refugiados das perseguições nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
ANG/RFI/AFP

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