sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Comunicação Social / ¨A Pobreza, precariedade laboral e censura colocam jornalismo africano em crise¨, revela relatório da FAJ

Bissau, 30 Out 26 (ANG) – Um novo relatório da Federação dos Jornalistas Africanos (FAJ) revelou  que o jornalismo  em África atravessa uma profunda crise, marcada por baixos salários, precariedade laboral, ameaças à segurança dos profissionais e restrições à liberdade de imprensa,  restringi o que o público pode saber.

A revelação consta num relatório da organização africana de jornalistas, à que a ANG  teve aceso hoje,  intitulado «Jornalismo sob cerco: condições de trabalho péssimas e o declínio da liberdade de imprensa em África», é o primeiro continental liderado por jornalista, reunindo dados sobre as condições de trabalho dos jornalistas, os direitos laborais, a segurança e a liberdade de imprensa.

O documento foi elaborado com base nas respostas de 1.586 jornalistas de 45 países das cinco regiões do continente, através de um inquérito realizado pela FAJ, com o apoio do Programa Multidoadores da UNESCO sobre Liberdade de Expressão e Segurança dos Jornalistas.

De acordo com os resultados, 61% dos jornalistas inquiridos afirmaram que os  seus rendimentos provenientes da profissão não  satisfazem  as suas  necessidades básicas, enquanto apenas 4% consideraram que os seus salários cobrem adequadamente as despesas essenciais.

Segundo o relatório,  58 por cento enfrentaram atrasos no pagamento dos salários, 62 por cento  trabalhavam sem contratos escritos e 71 por cento  não beneficiam de proteção social.

Os freelancers representam 29 por cento dos inqueridos, enquanto os colaboradores e correspondentes em mais 18 por cento de metade dos inqueridos e 53 por centos tinham entre 18 e os 34 anos.

No domínio da segurança, 65% dos profissionais afirmaram ter sofrido ameaças ou intimidações relacionadas com o exercício da profissão nos últimos três anos.

Apenas 17% disseram sentir-se sempre seguros durante o trabalho, enquanto 55% raramente ou nunca se sentiam protegidos.

O documento refere ainda que pelo menos 18 jornalistas e profissionais dos meios de comunicação social foram mortos em África, em 2025, durante o exercício da sua atividade.

O relatório destaca igualmente o impacto da censura e da interferência política no trabalho jornalístico.

Cerca de 84% dos inquiridos admitiram praticar autocensura frequentemente ou ocasionalmente, enquanto 69% afirmaram ter evitado abordar determinadas matérias devido a ameaças.

Entre as principais ameaças identificados pelos jornalistas, constam  à liberdade de imprensa, a interferência política, com 29 por cento, a violência contra os profissionais da comunicação social com 22 por cento, e as leis restritas com 18 por cento.

Relativamente às violações registadas, 68 por cento  apontaram a interferência política, 61 por cento os obstáculos ao acesso à informação, 57% a censura, 49% a intimidação jurídica e 23% os bloqueios da Internet que prejudicaram a cobertura jornalística.

O relatório da FAJ indica que apenas 6% consideraram que  a liberdade de imprensa existe nos seus países, enquanto 65% a classificaram como restrita ou altamente restrita.

A dimensão digital constitui outra preocupação identificada no documento. Segundo o inquérito, 36% dos jornalistas sofreram assédio online relacionado com a profissão, 26% foram vítimas de vigilância digital, 24% enfrentaram abusos sexuais online e 21% registaram tentativas de pirataria informática.

 Apesar destes riscos, 63% afirmaram nunca ter recebido formação em segurança digital.

O documento chama  a atenção para os riscos adicionais enfrentadas pelas mulheres jornalistas. Mais de três quartos dos participantes, correspondentes a 76%, reconheceram que as profissionais enfrentam situações de assédio sexual, violência de género online, desigualdade salarial, discriminação no local de trabalho e exclusão de cargos de liderança.

No que diz respeito ao bem-estar dos profissionais, a insegurança financeira, de acordo com relatório,  foi identificada como a principal fonte de stress, com 38%, seguida do medo de ataques, com 24%.

O relatório indica ainda que 72% dos jornalistas trabalham em órgãos de comunicação social que não disponibilizam apoio psicológico ou serviços de aconselhamento, enquanto 44% relataram sofrer frequentemente de esgotamento profissional. Outros 47% admitiram já ter considerado abandonar o jornalismo.

Perante este cenário, o presidente da FAJ, Omar Faruk Osman, considera que os resultados revelam que a profissão está em profunda crise, na qual os jornalistas são chamados a informar a sociedade enquanto enfrentam dificuldades para garantir a própria sobrevivência e exercer livremente as suas funções.

Omar Faruk Osman defendeu a adoção de medidas urgentes por parte dos governos, das empresas de comunicação social e das instituições relevantes, incluindo salários justos, contratos de trabalho escritos, proteção social e melhores condições de segurança.

o presidente da  FAJ apelou igualmente à investigação dos ataques contra jornalistas, ao combate à impunidade, à revisão de leis utilizadas para intimidar profissionais, ao respeito pela independência editorial e ao reforço dos mecanismos de proteção, incluindo medidas específicas para garantir a segurança das mulheres jornalistas. ANG/LPG//SG

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