Suíça/ONU alerta que quase metade das crianças refugiadas não vai à escola
Bissau,02
Out 26(ANG) – Cerca de 6 milhões de crianças refugiadas de todo o mundo estavam
fora da escola em 2025, ameaçando as oportunidades de toda uma geração, alertou
hoje o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).
O
número representa quase metade (44%) das crianças das 13,1 milhões de crianças
refugiadas em idade escolar no mundo e põe em causa anos de progresso na
educação dos refugiados, afirma a agência das Nações Unidas no seu relatório
anual sobre educação.
O
documento, designado como “Caminhos para o Futuro: Educação, Oportunidade e Autossuficiência”
aponta os crescentes cortes de financiamento e exorta as comunidades
internacionais e os parceiros de desenvolvimento a salvaguardarem o
financiamento da educação e a investirem nos sistemas nacionais dos países que
acolhem refugiados.
“Ao
recordar os meus anos como refugiado, compreendi exatamente o que isto quer
dizer. A educação proporcionou-me oportunidades que a deslocação me poderia ter
negado. Ajudou-me a reconstruir a minha vida e a moldar o meu próprio futuro”,
disse o alto-comissário da ONU para os Refugiados, Barham Salih, citado no
documento.
“A
educação é proteção. Mas é também um caminho para as oportunidades e para a
autossuficiência. Numa altura de forte pressão sobre o financiamento
humanitário e para o desenvolvimento, os cortes na educação ameaçam inverter
décadas de investimento coletivo e fechar oportunidades a uma geração de
jovens”, explicou.
De
acordo com a investigação da agência, a transição para o ensino secundário
continua a ser um dos maiores desafios para os alunos refugiados.
Enquanto
duas em cada três (65%) das crianças refugiadas em idade escolar primária
estavam matriculadas no ensino primário em 2025, apenas uma em cada três (32%)
estava matriculada no ensino secundário.
A
situação agrava-se ainda mais no caso das meninas, para quem a transição para o
ensino secundário está perto de um “ponto crítico”.
Embora
taxas semelhantes de raparigas e rapazes frequentem o ensino primário, a
diferença aumenta drasticamente no ensino secundário, uma vez que a pobreza, o
casamento precoce e outras pressões levam um número crescente de raparigas
adolescentes a abandonar a escola.
No
caso do ensino superior, a situação “demonstra o que o investimento contínuo
pode alcançar”, referem os investigadores.
A
matrícula de refugiados no ensino superior atingiu um recorde de 11% em 2025,
uma subida em relação aos 9% registados em 2024, com mais de 450.000 refugiados
inscritos na faculdade pela primeira vez, o nível mais elevado alguma vez
registado, apontam.
Um
aumento que, acrescentam, mantém a esperança do ACNUR e dos seus parceiros em
conseguir atingir a meta de 15% de matrículas de refugiados no ensino superior
até 2030.
Segundo
adiantam, isto pode ser feito através do alargamento do acesso a universidades,
de formação profissional, de oportunidades de aprendizagem integrada, de bolsas
de estudo ou de programas de educação em países terceiros.
“O
ensino superior pode ser particularmente transformador para as mulheres e
raparigas refugiadas, dando-lhes acesso a competências, qualificações, emprego
e, potencialmente, muito mais independência económica”, sublinha o relatório,
lamentando, no entanto, que o acesso continue a ser “profundamente desigual”.
De
acordo com a pesquisa, em mais de 80% dos países que reportaram dados, a
inscrição de refugiados no ensino superior manteve-se abaixo da média nacional
no ano passado.
Nos
países de baixo rendimento e afetados por conflitos, apenas 2% dos refugiados
estavam inscritos no ensino superior, em comparação com 13% dos nacionais.
Por
outro lado, adianta a agência da Nações Unidas, o investimento na educação dos
refugiados também precisa de que os sistemas nacionais de educação sejam
reforçados porque as escolas precisam de professores, salas de aula, materiais
didáticos e financiamento suficientes para que a inclusão funcione na prática.
“A
nossa ambição deve ir além de manter as crianças nas salas de aula. A
deslocação não deve determinar os limites da vida de uma criança”, defendeu o
alto-comissário.
“Uma
criança que pode aprender hoje está mais bem preparada para contribuir e
sustentar-se amanhã, seja regressando a casa, construindo o seu futuro no país
que lhe deu refúgio ou procurando oportunidades noutro lugar. A nossa
responsabilidade é garantir que elas têm essa hipótese”, concluiu. ANG/Inforpress/Lusa

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