ONU/Guterres defende reformulação das operações de manutenção da paz
Bissau,
27 Ago 26(ANG) - O secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou hoje
"crucial" uma reformulação das operações de manutenção da paz das
Nações Unidas, destacando que a proporção de conflitos resolvidos mediante
acordos pacíficos é agora “a mais baixa em décadas”.
Ao
apresentar aos Estados-membros, em Nova Iorque, o relatório da "Revisão
sobre o futuro de todas as formas de operações de paz das Nações Unidas",
Guterres frisou que essas missões ajudam a desarmar crises, a pôr fim a
conflitos, a manter cessar-fogos e a proteger civis.
"Em
terras marcadas pelo derramamento de sangue, criam espaço para o diálogo e
abrem caminhos para a paz", enalteceu.
Desde
o Camboja a El Salvador, de Timor-Leste à República Centro-Africana, entre
muitos outros casos, as operações de manutenção da paz das Nações Unidas
ajudaram a consolidar a paz, lembrou.
Contudo,
face a um cenário geopolítico em constante transformação, o líder da ONU pediu
que essas operações se adaptem novamente a "novas e dramáticas"
realidades.
"Estamos
a assistir a um ressurgimento de conflitos entre Estados. E uma intensificação
dos conflitos internos — agora cada vez mais internacionalizados, mais
prolongados e mais difíceis de resolver", afirmou.
"O
número de conflitos está no nível mais elevado desde 1945. E o custo humano
está a aumentar, com mais mortes relacionadas com batalhas nos últimos cinco
anos do que nos 25 anteriores", sublinhou o antigo primeiro-ministro
português.
Estes
desenvolvimentos, notou, apresentam novos desafios e impõem novas exigências às
operações de manutenção da paz da ONU.
A
poucos meses de deixar a liderança da organização, Guterres anunciou hoje uma
série de medidas para reformular a maneira como as operações de manutenção da
paz são pensadas e utilizadas.
Em
primeiro lugar, pediu um foco na diplomacia preventiva, na consolidação da paz
e na resolução pacífica de litígios, assim como o fortalecimento dos bons
ofícios do secretário-geral, dos seus enviados e do Secretariado.
Em
segundo lugar, parcerias mais fortes com os Estados anfitriões; e, em terceiro,
mandatos focados e adaptáveis, concentrando-se nas áreas em que detêm uma clara
vantagem comparativa — particularmente na política e na segurança e,
eventualmente, na proteção dos civis, caso exista esse mandato.
"Mas
deixem-me ser claro: as operações de manutenção da paz só devem ser
implementadas quando existe um acordo de paz ou, pelo menos, um cessar-fogo
robusto em vigor. Não podemos manter a paz onde não há paz para manter",
observou.
Em
quarto lugar, defendeu uma clara divisão do trabalho entre todo o sistema das
Nações Unidas e a comunidade internacional; em quinto, pediu operações mais
ágeis, apoiadas por estruturas administrativas flexíveis, cadeias de comando
claras e processos de planeamento e operacionais mais robustos.
Sexto,
uma maior eficiência e uma gestão responsável dos recursos. Em sétimo lugar,
defendeu a prontidão e capacidade tecnológica dessas missões, frisando a
necessidade de acabar com a impunidade e com as exceções para com aqueles que
atacam as forças de paz da ONU.
Por
fim, apelou a parcerias globais-regionais mais fortes, dando como um
"excelente exemplo" a colaboração entre as Nações Unidas e a União
Africana.
"As
operações de paz são, acima de tudo, instrumentos políticos. (...) Exorto os
Estados-membros a basearem-se nesta revisão quando considerarem opções para
adaptar as operações de manutenção da paz da ONU", instou Guterres.
"Precisamos
de nos adaptar a um mundo em transformação. E juntos, precisamos de encontrar a
vontade — e os recursos — para trilhar caminhos rumo à paz", concluiu.
António
Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido
para um segundo mandato de cinco anos, que termina no final deste ano. ANG/Inforpress/Lusa

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