França/Paris celebra 14 de Julho
entre demonstração militar, apoio à Ucrânia e memória das vítimas de Nice
Bissau;14 Jul 26 (ANG) - Sob um forte esquema de segurança e diante de dezenas de chefes de Estado e de governo europeus, a França celebra nesta terça-feira (14) a tradicional parada militar do feriado nacional da Queda da Bastilha, com uma edição descrita pelo Palácio do Eliseu como "massiva" e marcada pela guerra na Ucrânia, pelo reforço das capacidades militares europeias e pela memória das vítimas do terrorismo.
As
comemorações tiveram início ainda na noite de segunda-feira, quando milhares de
pessoas acompanharam os tradicionais fogos de artifício em Paris, iluminando a
Torre Eiffel e o céu da capital francesa. Neste ano, porém, a festa nacional
francesa foi atravessada por um tom mais solene, em meio às tensões
internacionais e às homenagens pelosdez anos do atentado de Nice, um dos
episódios mais traumáticos da história recente do país.
Por razões de segurança, o acesso do público ao desfile nos Champs-Élysées foi condicionado à apresentação de um QR Code obtido previamente por meio de uma plataforma de inscrição criada pela polícia de Paris.
A medida chegou a ser suspensa na
segunda-feira pelo Tribunal Administrativo da capital após recurso da
associação Vigie Liberté, criada para contestar medidas consideradas
excessivas em nome da segurança ou da vigilância estatal, mas acabou
restabelecida durante a madrugada pelo Conselho de Estado, que considerou
prevalecer o interesse público ligado à segurança do evento e à proteção das
autoridades estrangeiras presentes.
Emmanuel Macron preside pela última vez, como chefe de Estado em fim de mandato, o desfile militar na avenida Champs-Élysées. A edição de 2026 reúne cerca de 6.700 militares a pé, 98 aeronaves, 31 helicópteros e 315 veículos militares, no maior dispositivo dos últimos anos.
Segundo o Eliseu, a cerimônia tem como objetivo ilustrar "o rearmamento da França, a autonomia estratégica francesa e o despertar estratégico europeu", em um momento em que a guerra na Ucrânia e as incertezas sobre o papel futuro dos Estados Unidos na segurança do continente impulsionam os investimentos europeus em defesa.
A
Ucrânia e os aliados europeus ocuparam posição de destaque na cerimónia.
Cerca de 500 militares dos países que integram a chamada "coalizão dos
voluntários" desfilaram ao lado de 25 soldados ucranianos, enquanto o presidente
Volodymyr Zelensky acompanha a cerimónia ao lado de outros 24 chefes de Estado
e de governo europeus.
Entre os convidados estavam o chanceler
alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, o premiê
polonês, Donald Tusk, e a chefe de governo dinamarquesa, Mette Frederiksen.
A chamada coalizão dos voluntários,
liderada por França e Reino Unido e formada principalmente por países europeus,
comprometeu-se a continuar apoiando militarmente Kiev e estuda inclusive a
possibilidade de enviar tropas ao território ucraniano após um eventual
cessar-fogo, com o objetivo de impedir novas ofensivas russas.
Na
véspera da festa nacional, Macron havia afirmado que a França e a Europa
precisam estar preparadas para defender a liberdade e o direito internacional
“inclive ao preço de sangue, se necessário “.
O desfile foi aberto pela Patrouille de France, com a participação inédita de caças Mirage 2000 franceses pilotados por tripulações que incluíam copilotos ucranianos treinados na França. Aviões de dez países europeus também participaram da apresentação aérea.
Aeronaves sobrevoaram os Champs-Élysées,
enquanto helicópteros realizaram manobras coordenadas sobre os veículos
blindados para reproduzir cenários de combate.
Também receberam homenagens os militares
franceses atualmente destacados no flanco leste da Otan, especialmente na
Estônia e na Romênia, além da Marinha francesa, que celebra em 2026 seus 400
anos de existência.
Para Macron, o desfile serviu também
como balanço de sua política de defesa. Desde sua chegada ao poder, em 2017, o
orçamento militar francês praticamente dobrou. A atual lei de programação
militar prevê investimentos de € 436 bilhões entre 2024 e 2030, € 36 bilhões a
mais do que o previsto inicialmente.
A cidade da Riviera Francesa planejou
cerimónias ao longo do dia para marcar os dez anos do atentado de 14 de julho
de 2016, quando o tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel avançou com um caminhão
de 19 toneladas sobre a multidão reunida no Passeio dos Ingleses para assistir
aos fogos de artifício da festa nacional.
O ataque deixou 86 mortos e 458 feridos,
tornando-se um dos atentados mais letais da história francesa. Entre as vítimas
estavam crianças, idosos, franceses e estrangeiros de diversas nacionalidades e
religiões. A mais jovem tinha apenas dois anos; a mais velha, 79.
À noite, a cidade programou um
espetáculo com 2.016 drones sobre o Passeio dos Ingleses para evocar a memória,
a dignidade e a unidade nacional. Exatamente às 22h34 — horário em que o
caminhão foi finalmente detido pela polícia dez anos antes —, 86 feixes de luz
azul serão projetados para o céu em homenagem aos mortos.
A memória das vítimas também alcançou os
Estados Unidos. Em Arlington, no Texas, onde a seleção francesa enfrenta a
Espanha pela semifinal da Copa do Mundo de futebol, jogadores e torcedores vão
observar um minuto de silêncio antes do início da partida.
"Obrigado ao presidente da Fifa por
atender ao pedido da França e de todos os franceses mobilizados. Nunca
esqueceremos", escreveu Macron nas redes sociais. ANG/RFI/Com agências

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