Cabo Verde/Especialistas alertam para riscos da obsessão com alimentação e exercício
Bissau,
10 Jun 26(ANG) - A preocupação excessiva com a alimentação e a procura de um
corpo perfeito podem transformar hábitos saudáveis em comportamentos
compulsivos, com impacto na saúde mental, física e social, alertam
especialistas ouvidos pela Lusa.
Psicólogos,
endocrinologistas e médicos do desporto salientam a importância da alimentação
saudável e do exercício físico para a saúde, mas chamam a atenção para os
riscos do excesso de treino, da restrição alimentar e da pressão exercida pelas
redes sociais, sobretudo entre os jovens.
"A
obsessão pelo corpo, por exercício físico e por comer de forma saudável pode
causar sofrimento e prejudicar a saúde física, mental e social, portanto, a
saúde como um todo", alertou Miguel Morais Coutinho, presidente da
Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Segundo
o psicólogo, um dos sinais de alerta é a perda de flexibilidade na alimentação
e na rotina de exercício físico que passam a ser marcados por "um conjunto
de regras extremas".
Explicou
que "o exercício físico deixa de ser prazeroso e começa a ser gerador de
ansiedade" quando a rotina é interrompida ou quando os objetivos definidos
não são cumpridos.
Por
outro lado, o tempo dedicado ao planeamento das refeições e à organização dos
treinos aumenta, reduzindo a disponibilidade para o trabalho, o lazer e as
relações sociais.
"As ideias que todos temos de uma alimentação saudável e de ter um corpo saudável fazem todo o sentido até um determinado limite. Quando este é ultrapassado nas várias dimensões, então, podemos estar no âmbito de um problema", sublinhou.
A
influência das redes sociais e a valorização da imagem corporal contribui para
esta realidade. Miguel Morais Coutinho considerou que a exposição constante a
conteúdos que promovem determinados padrões físicos e estilos de vida pode dificultar
o reconhecimento do problema.
"Como
é que eu vou achar que tenho um problema quando depois tenho este aplauso
social", questionou.
Segundo
o psicólogo, o fenómeno afeta mais os jovens, por estarem mais expostos à
influência das redes sociais, mas também atinge outros grupos, como
desportistas, profissionais de saúde ou figuras públicas, que devido à
exposição do seu trabalho têm exigências de controlo do corpo, nomeadamente na
alimentação.
Nos
casos mais extremos, surgem comportamentos associados à ortorexia (preocupação
obsessiva com a alimentação considerada saudável) e à vigorexia, caracterizada
pela procura compulsiva de exercício físico e de uma determinada imagem
corporal.
A
ansiedade, a baixa autoestima, experiências de `bullying` ou situações
traumáticas relacionadas com a imagem corporal podem aumentar a vulnerabilidade
a este tipo de comportamentos, assim como com perturbações alimentares, como
anorexia e bulimia, referiu.
Miguel
Morais Coutinho disse ter a perceção de que há mais pessoas a procurar ajuda
clínica, mas, em muitas situações, são incentivados por familiares, amigos ou
companheiros que consideram que aquele comportamento é excessivo.
"As
pessoas não são felizes a viver este processo. Este ciclo de preocupação,
rigidez e compulsão é muito forte, e sair destas amarras é bastante
complexo", sublinhou.
Mas
os riscos não se limitam à saúde mental. A presidente da Sociedade Portuguesa
de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, alerta que o
excesso de exercício físico, sobretudo quando associado a restrições
alimentares, pode provocar alterações hormonais importantes e comprometer o
desenvolvimento dos mais jovens.
"O
exercício físico e a alimentação saudável são muito bem-vindos e as pessoas
devem ter uma vida saudável. Não podemos é cair nos extremos. Ou seja, tudo na
vida precisa de moderação", defendeu.
Segundo
a endocrinologista, o chamado `overtraining` (excesso de exercício físico) tem
"um impacto menos bom" na saúde das pessoas e, quando se junta com
restrição alimentar, pode ter repercussões, nomeadamente endócrinas,
neuro-hormonais, aumento dos níveis de cortisol e na massa óssea e muscular,
sobretudo quando não existe recuperação adequada.
Alertou
ainda que "um exercício muito intenso em idade jovem, antes da maturação
sexual, até pode fazer com que aquelas jovens não atinjam essa maturidade
sexual nem o crescimento que tinham a possibilidade de atingir".
Paula
Freitas destacou também a síndrome de deficiência relativa de energia no
desporto (RED-S) que pode aumentar o risco de lesões, comprometer a recuperação
física e reduzir o desempenho desportivo, contrariando precisamente os
objetivos que muitos atletas procuram alcançar.
"Tal
como os medicamentos, o exercício também deve ser prescrito em termos de tipo,
intensidade e duração", afirmou, salientando o papel dos fisiologistas do
exercício físico na definição de programas de treino seguros e ajustados.
A
Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPMD) partilha destas
preocupações, mas sublinha que "o treino físico sistemático é um fator de
promoção da saúde física e mental em todas as idades".
"Quando
a frequência, o volume e intensidade das cargas de treino sem recuperação
adequada acontece durante períodos de tempo excessivo, surgem sintomas físicos
e mentais lesivos da saúde e bem-estar" como dores musculares e
articulares prolongadas, perturbações do sono e alterações no peso corporal e
do apetite.
Segundo
a SPMD, pode ainda instalar-se "um quadro psicológico de instabilidade
emocional", com ansiedade e apatia, dificuldade de concentração e memória,
podendo evoluir para um estado depressivo, além do possível aumento da
frequência cardíaca em repouso, alterações hormonais conducentes à diminuição
da atividade do sistema imunológico e diminuição da capacidade de recuperação
após lesões.
Alerta
ainda para a importância de identificar precocemente os sinais de alerta e a
adoção de medidas para evitar "danos mais graves" para a saúde, como
a redução temporária da intensidade e volume dos treinos, a promoção de uma
alimentação equilibrada, a melhoria da qualidade do sono e um regime de treinos
seguros.
Embora
não disponha de dados de evidência científica que permitam afirmar o papel das
redes sociais e da cultura `fitness` no favorecimento de comportamentos
obsessivos ligados ao exercício físico em idades cada vez mais precoces, a SPMD
considera que "essa realidade existe" e justifica "uma reflexão
séria de todos os profissionais de saúde, pais, professores e
treinadores". ANG/Inforpress/Lusa

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