Portugal/Novas
restrições à imigração mexem com
legalização de estudantes
Bissau, 31 Jul 26 (ANG) - O Parlamento
português aprovou recentemente o fim de duas vias de regularização ligadas aos
estudos, que permitiam obter a residência mesmo que a pessoa tivesse entrado
sem visto.
A alteração ainda não entrou em vigor,
mas pode passar a valer a qualquer momento e atingir brasileiros.
Até o momento, uma pessoa pode chegar em
Portugal sem visto nenhum, como fazem os turistas, e a partir do território
luso pedir a autorização de residência de duas maneiras. Uma delas é se
matricular em algum curso profissionalizante oficial.
A
outra é por meio de filhos menores: a família matricula a criança numa escola,
e dá entrada no pedido de residência para garantir que essa criança siga nos
estudos.
Embora o Parlamento tenha aprovado, a
medida tem que ser promulgada pelo presidente, António José Seguro.
O presidente em Portugal tem um papel
fiscalizador, podendo pedir explicações ao Parlamento, ou enviar as leis para
uma análise do Tribunal Constitucional.
No caso do fim das duas vias de
imigração, trata-se apenas de retirar exceções da Lei dos Estrangeiros, que já
está em vigor. Portanto, a perspectiva é que ele promulgue. Depois, a alteração
tem que ser publicada no Diário da República.
A comunicação da presidência não soube
informar uma previsão a respeito de quando o presidente vai se manifestar,
porque o texto ainda não deu entrada oficialmente no gabinete de Seguro. A
expectativa, porém, é que o processo seja concluído nos próximos 30 dias.
Quem se mudou para Portugal contando que
poderia pedir a regularização por estudo fica numa situação insegura. A
advogada brasileira Línika Arf, que trabalha com direito de imigrantes,
aconselha que essas pessoas se apressem com a papelada.
“Juntem todos os documentos necessários
e deem entrada no processo o quanto antes, porque podem perder a oportunidade
de se regularizar de um dia para o outro”, disse Línika Arf.
Mesmo quem já deu entrada, pode acabar
num limbo, pois não há garantias de que a concessão de residência vai
considerar a lei que vigorava no início do processo, ou na data da análise.
Para quem estava se planejando, mas
ainda não se mudou, a recomendação é dar entrada no visto ainda no Brasil. “É
um caminho mais demorado, mas é o mais seguro no momento”, diz a advogada.
Essas alterações fazem parte de um
esforço mais amplo do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, para
“controlar o fluxo” de estrangeiros. Portugal tem hoje 1,6 milhão de
imigrantes, o que representa cerca de 14% da população. Entre 2021 e 2025, um
intervalo de apenas quatro anos, a população estrangeira mais do que dobrou.
O primeiro-ministro costuma dizer em
seus discursos que Portugal está disponível para receber imigrantes, mas não
com as “portas escancaradas”.
Desde que assumiu, em 2024, Montenegro
vem promovendo uma série de medidas para restringir a imigração, como acabar
com um mecanismo especial chamado Manifestação de Interesse, que permitia que
as pessoas se legalizassem depois que já estivessem trabalhando em território
português. Na prática, também impede que as pessoas peçam o visto de procura de
trabalho.
A lei atual prevê esse visto apenas para
trabalhadores altamente qualificados, mas o governo nunca fez a regulamentação
para definir o conceito de trabalhador altamente qualificado.
Ainda é difícil saber se os movimentos
para controlar o fluxo migratório estão surtindo efeito. Será preciso
acompanhar os números populacionais divulgados pelo Instituto Nacional de
Estatísticas nos próximos anos.
Entre quem trabalha com imigrantes, há
percepções conflitantes. A advogada Línika Arf vê uma queda no interesse dos
brasileiros, e contou que vários clientes agora perguntam sobre possibilidade
em outros países da União Europeia, e que muitos até já voltaram para o Brasil,
porque as condições de se regularizar mudaram. Mas Higor Cerqueira, fundador da
Prepara Portugal, uma escola de cursos profissionalizantes que tem quase 70%
dos alunos de origem brasileira, vê que o interesse dos brasileiros em
construir uma vida em Portugal continua igual.
“O que muda é que isso vai exigir mais
planejamento. Quem pretende utilizar os estudos como fundamento para residir no
país tem de organizar o processo migratório antes da viagem”, afirmou ele, que
reconhece que muitos de seus estudantes aproveitaram o curso para pedir a
residência depois que já estavam em Portugal.ANG/RFI

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