Rússia/Ataque deixa mortos na Ucrânia e projétil abre cratera na Polônia, elevando tensão na Otan
Bissau, 30 Jul 26 (ANG) - A Rússia voltou a bombardear a Ucrânia em larga escala na madrugada desta quinta-feira (30), matou ao menos oito pessoas e ampliou as preocupações da Otan.
Enquanto a Polónia investiga a origem de um projétil
que abriu uma cratera perto da fronteira ucraniana, Kiev intensifica ataques de
drones contra alvos estratégicos em território russo.
A troca de ataques evidencia uma nova fase da guerra,
marcada pela escalada da ofensiva aérea de ambos os lados.
Segundo as autoridades ucranianas, a
ofensiva lançada por Moscou combinou dezenas de mísseis e centenas de drones
contra diferentes regiões do país. O episódio mais grave ocorreu em um vilarejo
próximo de Kryvyi Rih, no centro da Ucrânia, onde um míssil balístico atingiu
uma residência. Seis integrantes de uma mesma família, três adultos e três
crianças, morreram no ataque.
"Era uma casa comum, reduzida a pedaços por um
míssil balístico", afirmou o presidente Volodymyr Zelensky.
Em Kiev, uma pessoa morreu e outras duas
ficaram feridas. Durante a noite, explosões
voltaram a ser ouvidos na capital após o acionamento dos
alertas aéreos. Muitos moradores buscaram abrigo nas estações de metrô, uma
rotina que se tornou frequente ao longo dos mais de quatro anos de guerra.
"Claro que eu gostaria de sair à
noite, dançar, marcar encontros, mas, em vez disso, você sai do trabalho
pensando que precisa apenas se preparar e correr para o metrô", disse à
AFP a fotojornalista Galyna Doschuk, de 27 anos. "Mas esta é a nossa
realidade, uma realidade à qual precisamos nos adaptar. Temos de aprender a
encontrar uma saída mesmo onde os outros só enxergam o fim", acrescentou.
Enquanto a Ucrânia contabilizava os
efeitos da ofensiva, um incidente ocorrido em território polonês ampliou as
preocupações sobre o alcance regional do conflito. Autoridades da Polónia
anunciaram ter localizado uma grande cratera em uma área desabitada próxima à
localidade de Tarnawa-Kolonia, na região de Lublin, no leste do país.
Moradores relataram ter ouvido uma forte
explosão pouco antes das 4h da manhã. A área atingida fica a cerca de 80 quilómetros
da fronteira com a Ucrânia. No local, a polícia encontrou uma cratera com
aproximadamente dez metros de diâmetro e fragmentos de um objeto ainda não
identificado.
O Comando Operacional das Forças Armadas
polonesas informou que um helicóptero militar mobilizado durante a madrugada
localizou o que seria o provável ponto de impacto do projétil. O
primeiro-ministro Donald Tusk, o ministro da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz,
e o ministro do Interior, Marcin Kierwinski, anunciaram visita à região.
Uma investigação foi aberta pela Justiça
militar polonesa para determinar a origem do objeto. A preocupação não ficou
restrita a Varsóvia. O presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, condenou
nesta quinta-feira (30) os ataques "massivos" realizados pela Rússia
contra a Ucrânia durante a madrugada e denunciou a "violação do espaço
aéreo polonês".
Em publicação na rede X, Costa afirmou
que os bombardeios "ressaltam mais uma vez que a agressão da Rússia
constitui uma ameaça para a segurança de toda a Europa". A manifestação
reforça a preocupação crescente entre os governos europeus com os efeitos do
conflito para países vizinhos da Ucrânia e integrantes da Otan.
A hipótese remete a incidentes
anteriores. Em Novembro de 2022, a queda de um míssil de defesa antiaérea
ucraniano matou duas pessoas no vilarejo polonês de Przewodów. Já em Setembro
de 2025, cerca de vinte drones russos que entraram no espaço aéreo polonês
foram derrubados ou caíram em território do país.
A nova ofensiva russa ocorre num momento
em que a Ucrânia vem alterando gradualmente sua estratégia militar. Diante da
escassez de sistemas de defesa antiaérea e da dificuldade de impedir os
bombardeios russos, Kiev passou a investir cada vez mais em ataques de longa
distância contra alvos estratégicos localizados dentro da Rússia.
Na noite de terça para quarta-feira
(29), drones ucranianos atingiram refinarias de petróleo e estruturas
logísticas em diferentes cidades russas, incluindo Perm, situada a mais de
2.000 quilómetros da linha de frente dos combates terrestres. O objetivo,
segundo o especialista ucraniano Maksym Beznosiuk, vai além do impacto militar
imediato.
"O objetivo principal é o dano
cumulativo. A Ucrânia já conseguiu atingir infraestruturas petrolíferas e agora
mira plataformas logísticas onde são armazenados equipamentos de uso civil e
militar. Isso perturba as cadeias de abastecimento russas e torna a guerra
muito mais visível e real para a população russa", afirmou.
De acordo com ele, a estratégia explora
duas fragilidades da Rússia: a enorme extensão territorial, impossível de ser
protegida integralmente, e a concentração de instalações consideradas
estratégicas.
"A Rússia precisa escolher
constantemente onde posicionar seus sistemas de defesa aérea. Não consegue
proteger tudo. E, como refinarias, depósitos e centros logísticos são muito
centralizados, alguns ataques podem bastar para afetar o abastecimento de
combustível e cadeias de suprimento em diferentes partes do país",
explicou.
Segundo o especialista, porém, esses
resultados não significam que um cessar-fogo esteja mais próximo. A tendência,
afirma, é que Moscou responda com ataques ainda mais intensos contra
instalações militares e civis ucranianas, movimento que parece se refletir nos
bombardeios realizados durante a madrugada desta quinta-feira.
A intensificação dos ataques aéreos
reforçou os apelos de Kiev por equipamentos de defesa antiaérea. Segundo a
força aérea ucraniana, a Rússia utilizou neste último ataque 74 mísseis e
284 drones. As autoridades ucranianas afirmam ter interceptado 55 mísseis e 265
drones.
Zelensky afirmou que a ofensiva
demonstra novamente a vulnerabilidade do país diante dos ataques russos.
"Esse terror russo prova mais uma
vez que a proteção contra a ameaça dos mísseis russos é a coisa mais
importante", declarou. Zelensky voltou a cobrar o envio de sistemas de
interceptação americanos Patriot, destacando que a Ucrânia enfrenta uma
"escassez crítica" de mísseis de defesa aérea fornecidos por aliados
ocidentais. ANG/RFI/AFP

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