Argentina/Milei redobra os ataques
diretos a Lula e aprofunda a crise diplomática com o Brasil
Bissau, 04 Ago 26 (ANG) - Javier Milei voltou a chamar Lula de “ladrão”, “corrupto” e “presidiário” e disse que “pior do que chamar Lula de ladrão é que o ladrão tenha roubado”.
Também acusou o presidente brasileiro de “ter
investido um bilhão de dólares” na campanha presidencial argentina de 2023,
afirmou que as suas críticas a Lula são “em defesa do povo brasileiro” e que a
prisão de Bolsonaro foi “teledirigida por Lula”.
Os novos ataques acontecem quando o
embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, estava a ponto de retornar a
Buenos Aires. Q
uando as tensões diplomáticas pareciam
afrouxar, o presidente argentino elevou o tom das declarações feitas no sábado
(25), durante o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, em
São Paulo. Na noite deste domingo (2), reforçou as acusações e os adjetivos
dirigidos a Lula.
“Eu menti?”, perguntou Milei, para, na
sequência, disparar: “É ladrão! É ladrão! É um ladrão, é um corrupto. Foi
condenado (...) Foi preso. Portanto, também presidiário. E o libertaram por uma
falha administrativa do procedimento; não por ser inocente. Portanto, é ladrão,
é corrupto”, acusou Milei numa entrevista ao canal LN+, gravada neste domingo
(2) na Casa Rosada, sede do governo argentino.
Perguntado se a forma de se referir ao
presidente brasileiro não era “agressiva”, Milei respondeu que “é muito mais
leve chamar de ladrão o ladrão do que o próprio ato de roubar”.
A entrevista foi exibida na noite deste
domingo, quando o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, já tinha a
indicação do presidente Lula de retornar a Buenos Aires, depois de ser chamado
a consultas, há uma semana, a Brasília.
Na linguagem diplomática, uma “chamada a
consultas” traduz-se num elevado descontentamento de um país com outro,
sinalizando uma grave crise nas relações bilaterais, a partir de uma atitude
considerada hostil.
Porém, uma semana depois, Milei não
apenas reforça os ataques como também cita o presidente Lula pelo nome. Se, no
lançamento da candidatura do seu aliado regional, Flávio Bolsonaro, Milei se
referiu a Lula como “ladrão” e “presidiário”, sem mencionar o nome do
presidente brasileiro, agora, a alusão tornou-se ofensa com nome próprio.
“Eu respondo com a verdade ao senhor
Lula que se sente ofendido se o chamo de “chorro” (gíria argentina para “ladrão”),
de ladrão. Mas é um ladrão! Quando digo que é um presidiário, é porque foi
presidiário e só saiu por um recurso administrativo; não por ser inocente”,
insistiu Milei.
O presidente argentino replicou uma
acusação, sem provas, de Eduardo Bolsonaro de que Lula investiu um bilhão de
dólares na campanha presidencial argentina de 2023 para apoiar o candidato
Sergio Massa, que disputava o segundo turno contra Milei.
“Eduardo Bolsonaro contou que o senhor
Lula pôs um bilhão de dólares na Argentina na campanha de Massa para me atacar.
Além disso, (Lula) pôs um grupo de assessores brasileiros (na campanha de
Massa).
Então, a esses que me acusam de
interferência política digo que, se há alguém que interfere politicamente na
região, é Lula, contaminando, com as ideias imundas do socialismo, todos os
lugares”, acusou Milei.
De forma cada vez mais enfática e
direta, Milei tem atacado Lula desde a campanha eleitoral argentina de 2023. Há
uma semana, ultrapassou um limite não apenas por chamar Lula de “ladrão” e de
“presidiário” como por fazê-lo em pleno território brasileiro. Não há
precedentes na história de um presidente que insulte o outro no país do
vizinho.
Apesar de ter atacado Lula primeiro,
Milei inverteu a acusação, dizendo que respondeu aos insultos de Lula.
“Ficam zangados porque eu disse algo a
Lula, que é a verdade, mas omitem os insultos de Lula e dos seus ministros”,
retrucou Milei.
Na quinta-feira passada (30), Javier
Milei emitiu um decreto que modifica a atual Lei de Migrações, estabelecendo
novas penas de proibição para entrada na Argentina e para o cancelamento de
residência de estrangeiros, com a sua consequente expulsão em casos de
mensagens que incitarem ao ódio, à violência contra o povo argentino e que
ultrajarem os símbolos pátrios.
Constitucionalistas e opositores
advertiram que, se o Brasil tivesse um decreto semelhante, Milei não poderia
mais entrar no território brasileiro.
Indagado se a atitude de Milei, ao
criticar o presidente Lula (representante do Poder Executivo do Brasil), não
seria equivalente, o presidente argentino teve uma interpretação própria,
insultando novamente Lula e acusando-o de dirigir o ministro do Supremo
Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, a condenar o ex-presidente
Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
“Não é a mesma coisa porque eu fui ao
Brasil, mas não ataquei os brasileiros. Fui em defesa dos brasileiros de bem.
Eu falei sobre Lula, o corrupto, o ladrão, o presidiário. E falei do juiz que
mete preso pessoas com as quais não comunga ideologicamente, que faz uma
perseguição teledirigida por Lula”, diferenciou Milei, em tom exaltado,
ignorando que a maioria dos brasileiros elegeu Lula.
Questionado se não atacava Lula para
contentar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Milei negou essa
hipótese.
“Eu faço isso porque sou um defensor das
ideias da liberdade”, defendeu.
No dia seguinte aos ataques de Milei a
Lula, o presidente argentino acusou o governo brasileiro de impulsionar uma
campanha “anti-Argentina” na qual os argentinos eram acusados de racismo.
O presidente argentino disse que 25% dos
recursos (financeiros) saíram do governo do Brasil” e que, dessa “conspiração
anti- Argentina”, teriam participado também o governo do México, dirigido por
Claudia Sheinbaum, de esquerda, e o Partido Democrata dos Estados Unidos,
opositor a Donald Trump.
Agora, Milei redobrou a acusação e ainda
incluiu a Espanha, governada pelo primeiro-ministro de esquerda, Pedro Sánchez.
“Toda a campanha contra a Argentina foi
motorizada pelo Brasil”, acusou Milei. “Com dinheiro para ‘influencers’, atores
e outros. Foi o Brasil. O Brasil em primeiro lugar. Em segundo lugar, o México.
Em terceiro lugar, os Estados Unidos, o Partido Democrata. E a Espanha de Pedro
Sánchez. Usaram a estrutura do Mundial (de futebol) para dizerem essa
barbaridade de racismo”, apontou Milei, dizendo que os envolvidos depois viajam
à Argentina e usam os serviços públicos do país.
“São os que vêm para cá para fazer
terrorismo. Gente que vem de fora, usa os serviços da Argentina e que se dedica
a uma campanha anti-Argentina”, sugerindo uma conspiração internacional.
Milei se baseia num balanço da empresa
Monitor Digital, entre Dezembro de 2022 e Julho de 2026, sobre países
estrangeiros que mais publicam sobre a Argentina nas redes sociais.
Em momento nenhum, o estudo menciona que se
tratam de mensagens de ódio nem que, por trás, haja governos nem que tenham
sido apenas durante o recente campeonato mundial de futebol. Apenas menciona os
países de origem das conversas.
A lista é liderada pelo Brasil, com 22%,
seguido por México (15%), Estados Unidos (13%), Espanha (11%), França e Reino
Unido (5% cada), Nigéria e Colômbia (4% cada), Chile, Índia e Indonésia (3%
cada) e Peru (2%).
O presidente argentino confirmou que é
contra estrangeiros usarem os hospitais públicos argentinos e estudarem
gratuitamente na Argentina.
“Não somos contra a imigração. Este é um
país formado por imigrantes. O problema é que, se temos um estado de bem-estar,
todos pagam. Se alguém de fora usar os seus serviços, você está pagando a conta
do outro. Isso não está bem”, criticou.
ANG/RFI

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