Cuba/ Governo rejeita acusações de trabalho forçado e acusa EUA de tentar “sufocar” economia com ataque às missões médicas
Bissau, 10 Abr 26 (ANG) - O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, acusou os Estados Unidos, nesta quinta‑feira (9), de pressionar países da América Latina e do Caribe a rescindirem acordos de cooperação médica com Havana, numa tentativa de “sufocar” a economia da ilha.
A declaração vem após a
Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) relatar, na terça‑feira (7),
graves violações de direitos humanos nas missões médicas cubanas no exterior.
Segundo o órgão, há indícios de retenção de salários confisco de passaportes e
ameaças de prisão — inclusive contra familiares — a profissionais que abandonam
essas missões.
Guatemala, Honduras, Jamaica e Guiana rescindiram recentemente
acordos desse tipo, alguns em vigor havia até 25 anos, que permitiam o envio de
médicos cubanos a esses países.
“O governo dos Estados
Unidos está perseguindo, pressionando e extorquindo outros governos para
que encerrem a presença das Brigadas Médicas Cubanas em diversos países, sob
falsos pretextos”, escreveu Rodríguez na rede X.
De acordo com dados oficiais, cerca de
24 mil médicos e outros profissionais de saúde cubanos atuavam, até 2025, em 56
países. O chanceler afirmou que a ofensiva diplomática e mediática de
Washington tem como objetivo “continuar estrangulando a economia cubana e
cortar suas fontes legítimas de receita, a fim de sufocar o povo cubano”.
Segundo Rodríguez, as brigadas médicas
“realizam missões de solidariedade em áreas de difícil acesso, contribuem para
o fortalecimento dos sistemas de saúde locais com recursos humanos experientes”
e têm caráter voluntário. Ele sustenta que o recrutamento ocorre de forma
“legal e soberana”, em conformidade com padrões internacionais.
A CIDH, no entanto, contesta essa
versão. De acordo com o presidente do órgão, Edgar Stuardo Ralón, “as
evidências sugerem a existência de trabalho forçado e tráfico de pessoas”.
Dados oficiais cubanos citados no relatório indicam que as missões médicas
renderam US$ 4,882 bilhões em 2022, o equivalente a 69% das exportações de
serviços do país.
Apesar disso, os profissionais enviados
ao exterior recebem apenas entre 2,5% e 25% da remuneração paga pelos países
anfitriões. Para a Comissão, esses valores são insuficientes para garantir
condições de vida dignas ou suprir necessidades básicas.
“O relatório reúne depoimentos de partir
o coração”, afirmou Ralón em entrevista à RFI, com base em 71 testemunhos. “Identificamos
remuneração insuficiente, retenção de salários e jornadas excessivas. Há também
a imposição de atividades políticas obrigatórias fora do horário de trabalho,
além de restrições severas à liberdade de locomoção e à possibilidade de
abandonar a missão, sob pena de serem rotulados de traidores da pátria ou
desertores”, disse.
O documento também aponta situações em
que médicos vivem a milhares de quilómetros de casa, em condições precárias e
superlotadas, supostamente para impedir deserções. Segundo Ralón, os salários
não são pagos diretamente aos profissionais: “O Estado cubano recebe os
valores, faz deduções e os distribui gradualmente”. Para a CIDH, a combinação
de baixos rendimentos e condições inadequadas caracteriza elementos de trabalho
forçado.
“O país anfitrião assina um acordo
diretamente com o Estado cubano, que é quem recebe o pagamento pelos serviços
médicos”, explicou Ralón. “Não há pagamento direto aos profissionais. Trata‑se
de montantes significativos, considerando o número de missões mantidas em pelo
menos 56 países, como aponta o relatório.” ANG/RFI/AFP

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