La Guaira/Venezuelanos mantêm buscas por conta própria em meio à escassez de água e alimentos
Bissau, 01 Jul 26 /ANG) - Uma semana após os dois terramotos de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram a Venezuela em 24 de junho de 2026, o país ainda contabiliza os estragos.
O número de mortos chegou a 1.943, segundo o balanço
mais recente. Quase 59 mil edifícios foram danificados ou destruídos, enquanto
dezenas de milhares de pessoas seguem desaparecidas. Com o passar dos
dias, fica cada vez mais difícil encontrar alimentos e água nos mercados do
estado de La Guaira, próximo a Caracas, uma das áreas mais devastadas.
Em Caraballeda, no estado de La Guaira,
no norte da Venezuela, famílias vasculham os escombros em busca de parentes. Ao
lado delas, mais de 2 mil socorristas de cerca de 30 países atuam na região.
Nesta fase, o trabalho se concentra cada vez mais na retirada de corpos, e não
na busca por sobreviventes.
Em frente a um prédio que desabou, Juan
Rodriguez se aproxima de um grupo de socorristas estrangeiros. Ele não fala o
idioma deles, mas tenta se fazer entender. Quer saber onde fica o acampamento
para avisá-los caso encontre o corpo da irmã, Dayana. “Ela morava no sexto
andar deste prédio”, diz. Dez vítimas já foram retiradas dos escombros e,
segundo ele, “ela é a única que falta”.
“Somos nós, as famílias”, afirma Juan,
“que estamos fazendo as buscas por conta própria.” Ele descreve uma mobilização
improvisada. “Quando encontramos alguém, tentamos retirar quase com as próprias
mãos. Quando fica mais difícil, pedimos ajuda, chamamos equipes especializadas.
Consegui três máquinas emprestadas.”
A algumas ruas dali, o mesmo sentimento
de desespero se repete. Valeria, uma jovem de Caracas, também pede ajuda aos
socorristas. Há dias ela consegue ver o corpo do pai entre os escombros. Ele
havia se mudado para a cidade litorânea dois dias antes dos terramotos.
"Quero dar a ele um enterro digno. Para isso, precisamos salvar o que
pudermos. Sei que meu pai não está mais conosco, mas não posso deixá-lo aqui,
como se não fosse nada."
Valeria enumera o material que comprou
para tentar resgatar o corpo do pai: gerador, pás, picaretas, uma
esmerilhadeira e discos de corte. Ela insiste que não precisa de muitos
recursos. "Não precisamos de um esquadrão. Três ou quatro pessoas seriam
suficientes, não levaria mais do que meio dia."
Durante
sete dias,equipes de resgate de vários países trabalharam sem interrupção. De
acordo com o coordenador da ONU na Venezuela, Gianluca Rampolla Del Tindaro, 27
países enviaram cerca de 40 equipes, totalizando "mais de 2.000
pessoas". Com o passar do tempo, no entanto, as operações deixaram de
priorizar o resgate de sobreviventes e passaram a se concentrar na retirada de
corpos.
O governo brasileiro já enviou quatro
voos humanitários à Venezuela e segue em contato com a presidente interina,
Delcy Rodríguez, para avaliar novas necessidades de ajuda.
"Estamos diante de um prédio de 22
andares que desabou completamente", explica Christophe Moreau, presidente
da ONG francesa Solife, presente no local. Segundo ele, os andares estão
"comprimidos uns contra os outros, sem nenhum foco de vida", o que
reduz drasticamente as chances de encontrar sobreviventes.
No meio dos escombros, socorristas
utilizam um martelo pneumático para liberar o corpo de uma vítima cujo braço e
ombro estão presos sob um bloco de concreto. A operação é arriscada.
"A pá sustenta o bloco, que pode cair
sobre os socorristas", detalha Laurent, voluntário nas equipes de resgate.
"Também temos um sistema de apito: três sinais rápidos indicam evacuação
imediata, seja por qualquer movimento detectado ou por um tremor
secundário."
A chegada das equipes foi dificultada
por danos à infraestrutura. Aeroportos afetados, voos cancelados e estradas
danificadas atrasaram as operações. "Percorremos muitos quilómetros.
Queríamos trabalhar, queríamos fazer algo. Queremos ajudar, mas sabemos que
nossa presença aqui será limitada. O objetivo é agir o mais rápido
possível", afirma um socorrista.
Após a retirada de um corpo por médicos
legistas venezuelanos, um novo sinal reacende brevemente a esperança. Um
"C" pintado com spray na fachada do edifício indica a possibilidade
de haver sobreviventes.
Desde o duplo terremoto, 6.461 pessoas
foram resgatadas, segundo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez.
Ainda assim, de acordo com a ONU, cerca de 50.000 pessoas seguem desaparecidas.
Nesse ritmo, a localização e a recuperação dos corpos podem levar várias
semanas.
Os sobreviventes, que já enfrentam
escassez de alimentos e abrigo, correm agora risco de epidemias, alertou a ONU
na terça-feira (30).
Em La Guaira, a região mais atingida,
água, alimentos e produtos básicos de higiene, como papel higiénico e sabonete,
são distribuídos com ajuda de veículos particulares. Caminhões da organização
World Central Kitchen também percorrem as ruas.
"Sem isso, não sei como
conseguiríamos", diz Nataly Cardona, de 24 anos, que dorme na rua depois
de escapar com vida de seu apartamento. Em uma fila sob o sol, Raoni Izaguirre
relata a espera. "Ficamos o tempo que for necessário, conforme as nossas
necessidades." Ele está hospedado na casa de parentes após perder a
própria residência e considera as doações essenciais.
A ONU alertou para a "escassez
generalizada de alimentos" e para o colapso dos "serviços
básicos" na região.
Profissionais de saúde também se
mobilizaram. Médicos e veterinários chegaram ao local para reforçar o
atendimento. A médica clínica geral Kerlis Artigas, de 30 anos, veio de outro
estado com colegas de diferentes especialidades e estudantes. Juntos, criaram a
“Brigada Rosa” para distribuir medicamentos e atender os feridos.
Identificados por braçadeiras
cor-de-rosa, os integrantes da brigada visitaram, na terça-feira, um
acampamento improvisado instalado em um campo de golfe. O local também abriga
unidades médicas móveis com profissionais vindos do México, Itália e El
Salvador.
Hipertensão, crises nervosas, problemas
respiratórios, febre e desidratação estão entre as principais urgências
relatadas por médicos que atuam no acampamento, onde centenas de pessoas dormem
em barracas.
Jesús Pérez, veterinário de Caracas,
levou alimentos, soluções de reidratação e medicamentos para animais de
estimação. Ao lado de outros voluntários, ele também criou uma rede de
comunicação. "Queremos ajudar a reunir cães e gatos resgatados com seus
donos", explica. ANG/RFI/ AFP

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