Brasil/Lula chega à Índia para reforçar aliança política e negociar novos acordos
Bissau, 18 Fev 26 (ANG) - O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Nova Délhi nesta quarta-feira (18), no
início da tarde pelo horário local, com uma das maiores comitivas já enviadas a
um país da Ásia, para uma de suas principais agendas internacionais do ano.
A viagem, preparada desde 2025, marca um novo patamar na relaçã
o bilateral.
Esta é a 20ª viagem internacional do
presidente Lula neste seu terceiro mandato. Ele escolheu a Ásia para mostrar
que o Brasil continua em busca de novos parceiros. A visita ocorre em um
momento em que a Índia preside o Brics e que importantes alianças geopolíticas
e econômicas vão remodelando as relações internacionais. De Nova Délhi, o
presidente segue para a Coreia do Sul, onde realiza visita de Estado.
A etapa indiana será uma viagem com
programação intensa, cheia de sinais políticos e com o anúncio de diversos
acordos e parcerias em áreas estratégicas, que vão de medicamentos, vacinas e
defesa a minerais críticos. Os dois países ainda devem discutir a expansão do
acordo Índia-Mercosul, hoje limitado a uma pauta de 450 produtos para cada
lado.
Antes
da visita de Estado, que acontece nos dias 20 e 21,Lula participa da Cúpula
sobre o Impacto da Inteligência Artificial(IA), organizada pelo
primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que o convidou para discursar durante
a plenária, após a abertura do evento, que ficará a cargo do anfitrião.
O presidente ainda participa do Fórum
Empresarial Brasil-Índia, organizado pela ApexBrasil, onde grandes
empresas indianas presentes no território brasileiro devem anunciar seus
investimentos para os próximos quatro ou cinco anos. A comitiva tem dez
ministros confirmados. Segundo o embaixador Alex Giacomelli da Silva, 300
empresas brasileiras participam do evento.
Os
compromissos de Lula na capital indiana incluirão um encontro bilateral com o
primeiro-ministro Narendra Modi e um banquete oferecido em sua homenagem pela
presidente indiana, Draupadi Murmu. De acordo com o Itamaraty, Lula e Modi irão
trocar impressões sobre a conjuntura mundial, em particular os desafios ao multilateralismo
e ao comércio internacional, assim como a necessidade de reformas abrangentes
no Conselho de Segurança da ONU. Existe ainda a perspectiva de reuniões
bilaterais entre Lula e outros chefes de Estado e de governo também presentes
na Cúpula de Inteligência Artificial, entre eles o francês Emmanuel
Macron.
A última vez em que Lula esteve na Índia
foi em setembro de 2023, quando participou da Cúpula do G20. Em seus discursos,
ele vai sinalizar que o Brasil deseja reduzir sua dependência dos Estados
Unidos e da China e busca uma aproximação com nações com quem tem interesses
comuns. Em sua participação na cúpula de IA, o líder brasileiro deixará isso
claro, ao defender o multilateralismo e a inclusão digital dos países em
desenvolvimento.
Para Renato Baumann, ex-diretor da Cepal
e do Ipea, esta aproximação é estratégica tanto dos pontos de vista econômico
quanto político, porque existe um "claro potencial de
complementariedade" entre os dois países.
“Essa visita do Lula à Índia acontece no
âmbito desse novo cenário geopolítico e geoeconômico pós-abril de 2025, com o
tarifaço do Trump e as diversas medidas imprevisíveis. Isso acontece também num
cenário em que vários analistas, como o britânico Vince Cable, em seu livro
"Eclipsing the West”, chama a atenção para a probabilidade de que em mais
uns 5, 10 anos a gente venha a ter um cenário internacional com três grandes
potências: Estados Unidos China e Índia”, disse à RFI.
Baumann também destaca a importância da
Índia como um dos principais mercados do mundo, que continua em franco
crescimento e com quem o Brasil tem saldo comercial negativo.
“Em nome dos Brics, note que a Índia é o
único dos cinco originais (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) com os
quais o Brasil tem déficit. O Brasil tem superávit comercial com todos os
demais, exceto com a Índia. A Índia tem crescido a taxas bastante elevadas e
tem o bônus demográfico bastante pronunciado”, explica o economista.
Energia é pauta importante na relação
bilateral. A Índia anunciou no ano passado que ampliará as compras de petróleo
brasileiro, num esforço para reduzir a dependência de fornecedores como a
Rússia, de onde provém grande parte da commodity que consome. A agenda, porém,
não se limita ao setor energético: inclui também cooperação em defesa – com
negociações para acordos técnicos na produção de equipamentos – e avanços na
área tecnológica, especialmente em inteligência artificial.
As autoridades de ambos os lados estão
explorando a cooperação no treinamento de modelos de IA para saúde e infraestrutura
digital pública, visando aprimorar o alcance e a eficiência dos serviços
públicos.
Na etapa sul-coreana da viagem, Lula
será recebido pelo presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, no dia 23, em visita
de Estado. No topo da agenda estão negociações para a abertura do mercado
sul-coreano para carnes bovinas brasileiras. As tratativas já duram quase duas
décadas. Além disso, há interesse em setores de alta tecnologia, como
semicondutores, e em outras áreas industriais consideradas estratégicas para o
desenvolvimento e a reindustrialização do Brasil.
O presidente volta para Brasília no dia 24.ANG/RFI

Sem comentários:
Enviar um comentário