Portugal/António José Seguro é eleito presidente em votação
histórica
Com mais de 99% das urnas apuradas, o socialista moderado obteve 66,8%
dos votos contra 33,2% para o líder do partido Chega, de extrema direita.
Seguro, que se apresentou como um candidato suprapartidário durante sua
campanha, agradeceu o povo português por comparecer em massa nas urnas. Neste
segundo turno, o nível de abstenção foi bem menor do que o esperado, visto o
estado de calamidade pública em que parte do país se encontra por causa
das inundações.
António
José Seguro ganhou as eleições com uma grande legitimidade política,
venceu com uma vantagem de mais 30 pontos percentuais sobre o seu adversário.
Com quase 3.5 milhões de votos Seguro se tornou o político mais votado da
democracia portuguesa. Ao bater este recorde ele ultrapassa a marca histórica
do ex-presidente Mário Soares, até então o maior detentor de votos na sua
reeleição, em 1991.
Em seu discurso de vitória, em Caldas da
Rainha, cidade onde mora, Seguro foi ovacionado ao reafirmar seu lema: “Sou
livre, vivo sem amarras. A minha liberdade é a garantia da minha independência”.
"Essa vitória não é minha. É nossa.
É de cada pessoa que acreditou e tem esperança num país melhor, num Portugal
moderno e justo, onde todos somos iguais nas nossas necessidades, e diferentes
nas nossas liberdades. Um país que avança sem deixar ninguém para trás",
afirmou Seguro.
Apesar
das chuvas intensas terem dado uma trégua em Portugal,o nível de abstenção, que
era a maior incógnita e a inimigo mais temido de ambos os candidatos,
surpreendeu. A afluência às urnas foi maior do que esperado, indicando assim,
que os portugueses entenderam o que estava em jogo e foram votar para afastar a
possibilidade de fortalecer a extrema-direita.
O recém-eleito presidente da República
assume a presidência no dia 9 de março.
O cientista político João Carvalho,
pesquisador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto
Universitário de Lisboa (CIES-ISCTE), em entrevista à RFI afirmou
que “António José Seguro vai ser conciliador, vai procurar arranjar pactos, em
termos técnicos ele é muito rigoroso, consegue estudar os assuntos, estudar
os dossiers e vai fazer muito trabalho de bastidores”.
“Seguro vai procurar ser uma fonte de
escrutínio da ação do Executivo. Ele não é uma pessoa de criar instabilidade,
nem de rasgar acordos ou de tomar ações extremas e radicais. Seguro é low
profile, um político de bastidores, mas foi o candidato mais bem preparado
para as eleições este ano”, concluiu.
Segundo Carvalho, “André Ventura teve
um crash político. O líder do Chega conseguiu captar apenas
10% dos votos dos candidatos de direita que disputaram o primeiro turno das
eleições. É uma derrota moral para Ventura, mas ele nunca vai admitir uma
derrota própria. André Ventura ganhou apenas 250 mil votos a mais, e esta taxa
de crescimento não é nada em comparação com 2022 ou 2024, quando conseguiu
passar de 400 mil para 1.300 mil votos. Agora, André Ventura fica como um
Bolsonaro Jr”, comparou.
António José Seguro se apresentou como
um candidato da esquerda “moderna e moderada” durante toda a sua campanha. Em
2014, o ex-líder dos socialistas, se afastou dos holofotes políticos após
perder a liderança do Partido Socialista para António Costa, o atual presidente
do Conselho Europeu, e voltou a dar aulas na Universidade Autónoma de Lisboa
(UAL) e no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).
Aos 63 anos, o novo presidente de
Portugal tem uma imagem a zelar: de político confiável, ponderado e
disciplinado. António José Seguro nasceu em Penamacor, perto da Serra da
Estrela, mas fez seus estudos em Lisboa: Relações Internacionais e mestrado em
Ciências Políticas.
Dos 28 aos 32 anos foi líder da
Juventude Socialista e logo depois, entrou para o governo de António Guterres,
atual secretário-geral da ONU. Entre 1999 e 2001, Seguro foi deputado do Parlamento
Europeu, mas deixou o mandato para assumir a função de ministro de Guterres, em
Portugal, até abril de 2022, quando entrou para o Parlamento português e
liderou a bancada do Partido Socialista. António Seguro é casado com Margarida
Maldonado Freitas e tem dois filhos.
O saldo das tempestades dos últimos dias
impediu quase 37 mil eleitores de saírem de suas casas para votar, o que
representa apenas 0,4% do universo eleitoral no país. Nas áreas muito afetadas
– Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos e Golegã - as eleições foram transferidas
para o próximo domingo, 15.
Alguns municípios que sofreram com
inundações, como Leiria e Santarém, conseguiram alterar os locais de votação e
as pessoas se mobilizaram para chegar até as urnas, mesmo em condições muito adversas.
Ereira, próximo à Coimbra, foi transformada em uma ilha com a subida dos níveis
da água, os acessos pelas estradas foram interrompidos e os moradores tiveram
que ir votar de barco.ANG/RFI

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