Venezuela/Delcy Rodriguez reaproxima país dos EUA um mês após prisão de Maduro
Bissau, 03 Fev 26 (ANG) - Há um mês, Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram capturados pelos EUA. Desde então, a Venezuela vive mudanças sob o comando de Delcy Rodríguez.
A presidente interina
tem tomado decisões que flexibilizam setores do país, como a liberação de
presos políticos, medidas para reativar a economia e, de forma mais
surpreendente, o estreitamento de laços com Washington, evidenciado pela
recepção, na segunda-feira (1°), da encarregada de negócios dos EUA no Palácio
Presidencial de Miraflores.
Enquanto Nicolás Maduro e Cilia Flores aguardam julgamento no Centro de
Detenção Metropolitano, no Brooklyn, em Nova York, Delcy Rodríguez vem mexendo
em leis, gabinetes e dando ordens,o que vem actualizando a face do chavismo em
pleno 2026.
Para a analista política Luz Melly Reyes, os acontecimentos recentes na Venezuela seriam impensáveis poucas semanas atrás, quando Maduro ainda governava com mão de ferro. "Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a liberação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou a especialista.
Apesar de muitos
interpretarem essas ações como sinais de liberalização, Reyes observa que se
trata de "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha
e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que
evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos económicos".
Segundo ela, o cenário atual reflete mais ajustes estratégicos e económicos do
que avanços efetivos na democratização do país.
Para a analista política Luz Melly Reyes, os acontecimentos recentes na Venezuela seriam impensáveis poucas semanas atrás, quando Maduro ainda governava com mão de ferro. "Um mês após a saída de Nicolás Maduro do governo e sua extradição para os Estados Unidos, na Venezuela vêm acontecendo coisas impensáveis há trinta dias. Algumas delas são a aprovação da reforma da Lei de Hidrocarbonetos, a libertação de pelo menos 300 presos políticos e a reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas", afirmou.
Apesar de muitos
interpretarem essas ações como sinais de liberalização, Reyes avalia que se
trata de "uma etapa de reforço tático que o governo sabia que lhe convinha
e sobre a qual estava trabalhando para poder ter novas entradas de dinheiro que
evitassem que o país caísse em uma crise ainda mais profunda em termos económicos".
O advogado Ali
Daniels, diretor da ONG Acesso à Justiça, observa que, embora algumas medidas
possam ser vistas como positivas, a execução ainda é limitada. "Com a
reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos, foram feitas mudanças radicais e
essenciais à indústria petrolífera do país, que contradizem todo o discurso
oficial dos últimos 25 anos e modificam a forma como o recurso será
manejado", afirmou. No entanto, Daniels ressalta que a liberação de presos
políticos foi lenta e pouco transparente: "Não são libertações plenas, mas
ex-prisões submetidas a muitas restrições. Muitas pessoas liberadas são
proibidas de falar em público e obrigadas a se apresentar diariamente aos
tribunais."
Segundo Daniels,
embora a anistia anunciada por Delcy Rodríguez seja um sinal positivo, ainda
não é possível confirmar seu alcance: "Recebemos isso como uma boa
notícia, mas não podemos dar um sinal completo enquanto não tivermos o texto da
lei e vermos qual será seu alcance."
Com a mudança no
cenário político interno da Venezuela, alguns analistas e setores afirmam que o
país estaria em transição rumo à democracia. No entanto, Ali Daniels, advogado
e diretor da ONG Acesso à Justiça, ressalta que ainda faltam medidas concretas
que apontem para uma redemocratização "efetiva".
“Nesse sentido,
fazemos o mesmo chamado que fizemos no princípio: que saiam todos os
prisioneiros políticos para, a partir desse fato, poder dizer que a Venezuela
começou um longo processo — porque sabemos que vai ser longo — em direção à
democracia. Foi anunciado que haverá uma anistia, mas não foram divulgados os
termos dela. Recebemos isso como uma boa notícia, mas não podemos dar um sinal
completo enquanto não tivermos o texto da lei e não soubermos qual será seu
alcance. Também vemos como positivo, como um sinal de esperança, o fechamento
do [complexo prisional localizado em Caracas, conhecido internacionalmente por
denúncias de tortura] Helicoide”, afirmou Daniels.
Na última sexta-feira, Rodríguez anunciou que “decidimos promover uma lei de anistia geral que cubra todo o período de violência política de 1999 até a data atual”. Essa iniciativa, que inclui a transformação do infame centro de detenção El Helicoide em um espaço social e esportivo, tem sido vista como uma tentativa de “curar feridas” e avançar na convivência social, embora a ausência de detalhes sobre os critérios da anistia gere dúvidas sobre seu impacto real.
Segundo a ONG Fórum
Penal, até esta segunda-feira havia 687 presos políticos no país, entre os
quais seis jornalistas ainda mantidos sob custódia, apesar de excarcelamentos
parciais no último mês.
Nas redes sociais
circula um vídeo que compara o antes e o depois de Óscar Castañeda, preso em
2024. Nas imagens divulgadas recentemente, o opositor aparece com graves
sequelas, incluindo dificuldade para caminhar e incapacidade de reconhecer a
própria filha — um exemplo que tem alimentado protestos e apelos pela
libertação de detidos e por transparência no processo de anistia.
Mesmo defendendo a
libertação e o retorno de Nicolás Maduro à Venezuela, Delcy Rodríguez fez
mudanças significativas em pastas centrais do governo. Ela também colocou em
segundo plano pessoas próximas a Maduro. É o caso de Alex Saab, designado por
Maduro para o Ministério da Indústria e Produção Nacional. Delcy o destituiu e
integrou a pasta ao Ministério do Comércio.
A presidente interina
preferiu manter por perto, como ministro de Despacho da Presidência, Juan
Escalona, então aliado do agora ex-presidente. Já Calixto Ortega, que era
presidente do Banco Central da Venezuela, passou à presidência do Centro
Internacional de Investimento Produtivo, sendo responsável por atrair novos
investimentos ao país.
Na tarde da segunda-feira, Delcy nomeou a “princesinha do chavismo” para o
cargo de ministra do Turismo. Sancionada pelos EUA em 2024, Daniella Cabello é
filha de Diosdado cabello, ministro do Interior e da Justiça. Há anos o
governo tenta promover o turismo internacional no país, mas a falta de
infraestrutura e a reputação negativa da Venezuela não têm ajudado.
Enfraquecida após anos de sucateamento da infraestrutura e de sanções
internacionais, a indústria petrolífera continua sendo a base da economia
venezuelana. A reforma da Lei de Hidrocarbonetos,somada aos acordos com os Estados
Unidos, sinaliza uma possível expansão na extração e exportação de petróleo,
apesar dos desafios históricos enfrentados pelo setor.
Para o economista
José Guerra, duas mudanças recentes ilustram esse movimento. Primeiro, explicou
ele, empresas petrolíferas agora podem exportar barris de petróleo que
anteriormente eram vendidos com desconto à China, recebendo cerca de 50 dólares
por barril no mercado — um valor mais próximo do preço de mercado e que gera
recursos para o país. O problema, segundo Guerra, é que “o dinheiro é
administrado pelos Estados Unidos e depois enviado à Venezuela de forma algo
discricionária, sem continuidade nas entregas de dólares ao país”.
A segunda mudança, disse o economista, foi a aprovação da nova Lei de
Hidrocarbonetos, que desmontou a estrutura jurídica, legal e operacional da
indústria petrolífera venezuelana concebida sob Hugo Chávez a partir de
2001. Essa reforma representa uma quebra com décadas de controle estatal e
busca atrair investimentos, flexibilizando regras e abrindo espaço para maior
participação privada e estrangeira.
Cidadãos venezuelanos ouvidos pela RFI relatam que, apesar das dificuldades persistentes, há uma pequena melhora e, sobretudo, esperança de que a situação económica avance. Uma funcionária pública de 40 anos destacou a expectativa por investimentos na infraestrutura: “Pretendem investir na área de eletricidade, o que seria maravilhoso. Aqui na Venezuela, de sete dias da semana, em três dias, em Caracas ficamos com algumas áreas sem luz, e no interior do país são muitos mais dias.”
O psicólogo Rodolfo Romero observou que “um mês depois, a situação está mais calma e tranquila. Há uma certa sensação de esperança em relação a uma melhoria na situação do país”. ANG/RFI

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