Copa 2026/Argentina x
Inglaterra: mais do que futebol, um confronto de simbologia histórica e
geopolítica
Bissau, 15 Jul 26 (ANG) - Quando Argentina e Inglaterra se enfrentarem pela segunda partida da semifinal do Mundial de Futebol de 2026, estará em jogo bem mais do que futebol.
Para os argentinos, mais do que uma
rivalidade, há uma inimizade baseada em questões de geopolítica e de história
que transcende o esporte e que remete diretamente à Guerra das Malvinas, de
1982, e ao forte sentimento de nacionalismo.
Enquanto as autoridades tentam manter a
disputa apenas no campo esportivo, milhões de torcedores vêem o orgulho e o
legado heróico de Maradona em questão.
Com o Brasil, os argentinos têm uma
rivalidade limitada ao folclore do futebol, mas com os ingleses o sentimento
beira o ódio.
A inimizade da Argentina com a
Inglaterra remonta às invasões inglesas de 1806 e 1807 que uniram os argentinos
contra os invasores, mas também serviram de estopim para a Independência.
Porém, o ponto alto dessa relação conflitante foi mesmo a Guerra das Malvinas,
de 1982, ainda uma ferida para os argentinos.
Desde 1965, a ONU emite resoluções a
favor da Argentina, reconhecendo uma disputa por soberania com o Reino Unido,
mas enquadrando essa disputa numa situação colonial, com o objetivo de eliminar
toda forma de colonialismo. As ilhas foram invadidas pelos ingleses em 1833,
quando a Argentina já tinha 17 anos de Independência.
Por isso, os jogadores argentinos estão
obrigados a ganhar não apenas pelo resultado que classifica para a final, mas
pelos 649 argentinos mortos em combate, pelas famílias deles e por milhões de
argentinos que veem no campo de jogo uma chance de justiça simbólica que não
foi possível no campo de batalha.
Na noite de terça-feira (14), os
argentinos foram ao Obelisco da Avenida 9 de Julho com bandeiras, faixas e
instrumentos para celebrarem, mas também para pressionarem os jogadores. Esse
local do Centro de Buenos Aires é o ponto de celebrações depois das vitórias,
mas, pela primeira vez, foi também palco da antessala da partida.
“Enfrentar a Inglaterra implica Justiça
para este lado. Justiça”, sintetiza à RFI o torcedor Nicolás Adi, de 32 anos.
O país vai parar. As empresas vão
interromper a jornada de trabalho duas horas antes da partida. Muitas outras
permitiram o trabalho remoto, Home Office.
Os transportes públicos terão uma frequência
reduzida e, em muitas cidades, interrompida durante o jogo. Nos hospitais, as
consultas foram adiadas, a pedido dos pacientes torcedores. Só casos de
emergência, como enfarto do coração serão atendidos.
Aliás, no jogo de sábado (11) contra a
Suíça pelas quartas de final, uma pessoa de 51 anos morreu por parada cardíaca.
Vários casos similares foram atendidos.
“Jogar contra a Inglaterra, além de ser
um jogo de futebol, é sempre algo que nós, argentinos, levamos para fora do
campo: está em jogo o orgulho. Trata-se de vencer os ingleses em tudo. Eles não
são apenas rivais. É mesmo uma inimizade que vem da Guerra das Malvinas, do que
eles fizeram connosco. Então, é sempre uma questão de querer sair por cima e
derrotar os ingleses”, desabafa à RFI o torcedor Lucas Bonilla, de 24 anos.
Como a letra da famosa cantiga repete,
“Aquele que não pula é um inglês”. Essa canção marcou os argentinos em 1986
quando Diego Maradona eliminou a Inglaterra com a “Mão de Deus” e com o
antológico “Gol do Século”.
Os jogadores daquela seleção de 40 anos
atrás recebiam cartas e vídeos nos quais os argentinos diziam que podiam até
perder na final, mas jamais para a Inglaterra.
A partida de 1986 é a imagem que todos
os argentinos têm de heroísmo. Coincidência ou obra do destino, a Argentina vai
jogar agora com a mesma camiseta azul da reserva, usada há 40 anos.
E o
grande herói daquele confronto foi Maradona. O gol de mão foi ilegal, mas
os argentinos usam como argumento o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem
anos de perdão”. Na Argentina, os ingleses são chamados de “piratas” que
roubaram as Malvinas. E a postura de Maradona é vista como uma rebeldia perante
aqueles que inventaram o futebol.
Já sobre o segundo gol, de tão bonito, dizem que valeu por dois e compensou a irregularidade do primeiro.
“Tomara que se repita o feito de 1986”,
diz à RFI o torcedor César Alberto, de 43 anos.
“Contra
os ingleses, há muito em jogo: a nossa história, o legado de Maradona naquela
Copa, o legado de Messi nesta”, avalia.
As cantigas de futebol na Argentina, em
geral, fazem referência às ilhas Malvinas.
A atual, chamada “A quarta estrela”,
feita para este campeonato Mundial, diz num trecho que “Pelas Malvinas, por
Diego (Maradona), pela última do Leo (Messi)”, unindo o futebol à causa
patriótica.
A cantiga do campeonato anterior,
vencido no Catar em 2022, também incluía a causa nos versos “Na Argentina,
nasci /Terra de Diego e Lionel / Dos rapazes das Malvinas / Que jamais
esquecerei”.
“Existe um sentimento extra em torno do
assunto. Nós o relacionamos à Guerra das Malvinas. Eu era um soldado em 1989,
quando prestei o meu serviço militar. Fui treinado por veteranos da Guerra das
Malvinas. Eles nos treinaram mentalmente, preparando-nos para voltar às
Malvinas e recuperá-las”, recorda à RFI o torcedor Lúcio Molina, de 58 anos.
As equipes se enfrentaram cinco vezes:
três resultaram em vitórias para os europeus (1962, 1966 e 2002), uma para os
sul-americanos (1986) e um empate (1998), no qual a Argentina se classificou
nos penáltis.
Os argentinos têm vivido dias de muito
patriotismo nos quais futebol e nacionalismo se misturam. Na semana passada, no
dia 9 de Julho, foram os 210 anos da Independência do país. A Argentina vinha
de uma vitória épica contra o Égito pelas oitavas de final.
As autoridades tentam transmitir a ideia
de apenas uma disputa esportiva. O técnico da seleção argentina, Lionel
Scaloni, disse que “se trata apenas de um jogo de futebol” e que “misturar as
coisas seria uma loucura”.
O major Alan Nuñez é diretor da banda
militar “Tambor de Tacuarí” do regimento de Infantaria 1 “Patrícios”, o mais
antigo do Exército Argentino. O regimento foi criado em 1806 como resposta às
invasões inglesas. Teve papel na Guerra das Malvinas de 1982. Para o major, o
confronto é meramente esportivo, mas reconhece que futebol e nacionalismo se
nutrem.
“Acho que os argentinos ainda podem
nutrir algum sentimento em relação aos britânicos devido aos eventos da Guerra
das Malvinas. Mas acredito que precisamos separar essa questão do aspecto esportivo.
Faz parte da nossa história termos enfrentado os britânicos, que sempre foram
um dos exércitos mais poderosos do planeta. Nós os enfrentamos em várias
ocasiões. Mas, enfim, continua sendo uma competição esportiva, que certamente
será apreciada por ambos os povos, argentino e inglês”, pondera.
“Quando a seleção de futebol obtém
vitórias nos une com as causas da pátria. Essas datas nacionais, conjugadas com
o Mundial de futebol, traz esse sentimento de euforia dos argentinos”, indica à
RFI.
Na terça-feira (14), depois de uma
reunião no Centro Internacional de Cooperação Policial, em Virginia, nos
Estados Unidos, o FBI, a FIFA e o Ministério da Segurança da Argentina
classificaram a partida como de “alto risco” e decidiram proibir a entrada no
estádio de bandeiras, faixas e camisetas que façam referência às Malvinas ou às
Falklands, como os ingleses chamam o arquipélago.
Seja como for, uma vitória sobre a
Inglaterra tem um valor duplo para os argentinos, mas uma derrota também tem um
peso na mesma proporção. Os argentinos ficariam muito tristes se perdessem a
final, mas mais tristes ficariam se perdessem para a Inglaterra. Portanto, ou
teremos um país em euforia ou um país afundado na depressão.ANG/RFI

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